A retórica da morte e o Deus da vida

Não se trata de defender marginal, mas de proteger o ser humano.


“Então o Rei dirá às ovelhas à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Então os justos lhe responderão: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” O Rei responderá: “Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mateus 25:34-40)

Todos acompanhamos pelos meios de comunicação a onda de violência que culminou no último domingo na tomada do Complexo do Alemão pelas forças de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro – as Polícias Civil, Militar e Florestal – em conjunto com as forças armadas do Brasil, nomeadamente, a Marinha e o Exército.

As causas de toda essa violência são conhecidas: a (1) desigualdade e injustiça social, a (2) falta de vontade política, a (3) indiferença e conivência do Estado que se beneficia da ignorância e da pobreza da população, o (4) contingente policial reduzido, despreparado e mal-remunerado, a (5) hipocrisia de setores da sociedade que sustentam o tráfico através do consumo de drogas, as (6) limitações da legislação criminal, a (7) corrupção na Polícia, na Política e no Poder Judiciário, a (8) impunidade, a (9) crise do sistema penitenciário, o (10) contrabando de armas, o (11) desrespeito pela vida, etc. A lista é longa. E igualmente extensa é a relação das ações necessárias para virarmos em definitivo essa página. Haverá solução?

Toda essa conjuntura nos afeta profundamente. Como cidadãos, sentimo-nos desprotegidos, vulneráveis, traídos, indignados e – o pior de tudo – sem esperança. Tornarmo-nos, desse modo, presas fáceis de um certo discurso irracional e truculento que vê no extermínio sumário dos atores desse circo de horror a única solução possível para o presente quadro. “Tem de matar todo mundo” – repetimos com gosto de sangue na boca.

Sejamos sinceros: quem não desejou a morte daqueles rapazes pardos e favelados que armados até os dentes chegavam de moto na comunidade da Vila Cruzeiro enquanto zombavam das autoridades instituídas e espalhavam o terror pela cidade? Quem não torceu para que, ao invés da rendição, houvesse uma chacina, um implacável banho de sangue, na manhã do último domingo?

Engana-se, porém, quem imagina que isso solucionaria o problema. Afinal, existem filas e filas de meninos naquela e em diversas outras favelas sonhando com a oportunidade de ocupar os lugares dos traficantes que lá estão hoje. Disto ninguém se engane: os nossos vilões, são os heróis deles para quem, aliás, nós do asfalto, a polícia, e o Estado são os verdadeiros criminosos. Na cabeça dessas crianças, os traficantes mortos na guerra urbana são mártires que pagaram com a própria vida o preço da rebeldia e não-adequação aos padrões questionáveis de uma sociedade hipócrita, egoísta e indiferente.

Já o filme Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, mostrou como essa lógica opera. Depois vieram Tropa de Elite 1 e 2, deixando claro que quem cria e sustenta o traficante é, de um lado, o usuário de drogas das classes média e alta que hipocritamente fuma seu baseado enquanto discute o problema da violência urbana e, de outro, o governo, que manipula a opinião pública combatendo ou não o problema na medida em que tal ação pode ser ou não revertida em voto.

Como se vê, não é tão fácil como a primeira vista talvez pareça dizer com segurança quem é o vilão e quem é o mocinho nessa história. É também por este motivo que este tipo de discurso simplista e truculento é inadmissível e precisa ser confrontado. Muito para além disso, no entanto, a principal razão para se combater essa retórica da violência reside no fato de que tal constitui grave afronta aos direitos humanos, aos fundamentos do Estado democrático de direito e, sobretudo, ao Deus da vida.

Mas como assim? Por que essa mentalidade representa uma traição ao Deus de Jesus Cristo? Por que, como cristãos, não podemos nos permitir pensar dessa maneira?

Por uma razão decisiva: a vida é um direito concedido por Deus aos seres humanos e uma responsabilidade atribuída à igreja por Jesus Cristo. À luz dessa verdade, a fome, a nudez, a enfermidade, a indiferença, o desamparo, e a violência dentre tantas outras coisas se revelam forças contrárias ao dom outorgado por Deus a nós. São forças antagônicas ao querer divino, ao Reino de Deus e à vida abundante em Cristo Jesus; forças de morte que ameaçam e podem fazer morrer a vida. Ora, era justamente visando combater e cancelar tais forças que Jesus curava os enfermos, libertava os endemoninhados, acolhia os menosprezados e alimentava a multidão quando esta tinha fome. Ele sabia o valor da vida humana e esforçava-se por afirmá-la, defendê-la, promovê-la, e plenificá-la. A ética e a retórica de Jesus não eram a da morte, mas da vida, do novo nascimento, da ressurreição. Daí que ele andasse “por toda parte fazendo o bem” (At 10:38). Mais tarde, incumbiria a igreja desta gratificante tarefa.

Precisamente por essa razão não podemos nos unir ao coro daqueles que pedem a morte de quem quer que seja, especialmente de traficantes e bandidos que, em grande medida, ajudamos a criar. Não nos esqueçamos que dois mil anos atrás a opinião pública também pediu a morte de Jesus. A violência a nossa volta não pode nos tornar violentos. Seria uma dupla derrota. Portanto, ao invés de engrossarmos as fileiras das forças de morte aliando-nos aquele que veio matar, roubar e destruir, e traindo assim nossa vocação fundamental como igreja de Jesus Cristo, cumpre-nos agir em todo tempo como pacificadores, como agentes de paz e reconciliação. Afinal, estamos a serviço da vida. Esta é a marca inconfundível nos distinguirá no último dia como ovelhas de Jesus: a solidariedade dirigida a essa gente para quem o mundo deu as costas e Jesus abriu os braços na cruz do Calvário ao preço da própria vida.

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Epitáfio

Como você gostaria de ser lembrado?

 

Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira. (Rubem Alves)

 

Não estou pensando em morrer. Não mesmo. Mas tenho pensado acerca da morte. Tenho refletido sobre meu último suspiro; aquele depois do qual fecharei os olhos para abrir do outro lado e, finalmente, poder enxergar. Ver como sou visto. 

Há uma imensa sabedoria na morte. E aprender sobre ela revela-se inspiração para a vida. Devíamos planejar a nossa tragetória neste mundo de trás para a frente. Primeiro o fim, então o começo. Pois é a visão de como desejamos ser lembrados que melhor nos orienta sobre as escolhas que temos de fazer. Afinal, o fim que antevemos para nossa breve existência lança luz sobre as opções que temos diante de nós e nos indicam, desse modo, uma direção a seguir. De outra parte, também evita o trauma de ao final de tudo, constatarmos desiludidos: “Que vida foi essa que vivi? Se pudesse, faria tudo diferente!”.

Quando chegar para mim o dia derradeiro, não quero pronunciar essas palavras. Quero antes, como Cristo na cruz do Calvário, dizer: “Está feito”. E render meu espírito a Deus com gratidão e dignidade. Apenas isso. Pois há muito desisitir de pensar que nasci para ser alguém extraordinário. Sou uma pessoa comum e anônima e estou em paz com isso. Se deixar uma pequena marca naqueles com quem convivi mais de perto, já basta. Não tenho a pretensão de escrever meu nome na posteridade. Estou safisteito em tê-lo no livro da vida. É assim gostaria de ser lembrado: como alguém que foi fiel a si mesmo, ao que acreditava, a quem amou e a Deus.

Provavelmente não me ocuparia de tais pensamentos se não tivesse lido com toda igreja o livro “Um mês para viver”. Lemos a obra enquanto jejuávamos e oravámos buscando discernir os caminhos de Deus para nossas vidas pessoais e comunitária. O fizemos na convicção de que tal reflexão nos levaria há uma profunda reorientação de vida e correção de rumo enquanto ainda há tempo. Nesse intuito, ao final dos 30 dias de leitura, fizemos um exercício poderoso: convidamos a todos que escrevessem o próprio epitáfio. No domingo seguinte, aqueles que desejaram, leram o seu breve texto para toda a igreja enquanto celebrávamos a Santa Ceia. Compartilho aqui o que escrevi e li, comovido,  para meus irmãos e irmãs na esperança de viver à altura de cada palavra:

Aqui jaz Leandro Marques.

Esposo amado e amável. Pai sábio e presente. Amigo verdadeiro. Servo fiel. Um homem bom.

Esforçou-se por viver a vida de acordo com o que entendeu do Evangelho, com o que acreditou ser verdadeiro e importante. Deu boas risadas e tentou não acreditar em tudo que diziam a seu respeito, fosse isso bom ou ruim. Buscou em tudo ser uma pessoa inteira. E transparente, na medida do possível. Amou a vida, o semelhante, e a Deus. Gastou-se pela causa do reino de Abbá. Fez o bem. Viveu e morreu como discípulo de Jesus Cristo.

Agora descansa em paz. E deixa saudades…

 

Competência e sabedoria

"O Pensador", de Rodin, na perspectiva da competência capitalista

 

“Como é feliz o homem que acha a sabedoria!” (Pv 3:13)

 

A sociedade contemporânea nos incentiva, em tudo, a buscar competência. Ainda crianças aprendemos na escola: é preciso estudar para passar de ano para mais tarde entrar em uma boa faculdade e sair de lá com um currículo de peso sem o qual não se consegue um bom emprego. E nem se ganha dinheiro.

Assim nos é explicado – e transmitido – o valor da educação e da aquisição de conhecimentos. Tal, no entanto, simultaneamente oculta e releva um grave problema: aprendemos a buscar instrução pelos motivos errados. Passamos anos na escola, aprendemos e estudamos conteúdos diversos visando, em última instância, ganhar dinheiro. Competência, segundo a lógica capitalista, é isso: um currículo impressionante que te prove merecedor de uma boa remuneração.

Porém esta é uma visão demasiadamente estreita da instrumentalidade do conhecimento, da formação intelectual e, mais amplamente, da razão de ser da própria vida. Pois reduz o ser humano à esfera da atividade produtiva negando-lhe sua complexidade e riqueza. O resultado dessa lógica é bem conhecido: nossa sociedade forma excelentes profissionais, porém, pessoas medíocres; gente capaz de administrar corporações gigantescas, mas incapaz de gerir com êxito a própria família. São detentores de grande técnica e eficácia, merecedores de polpudos salários por seu conhecimento e expertise, mas não têm muitas vezes o que dizer o assunto migra para o âmbito da vida privada. Quantos hoje em dia não triunfam profissionalmente ao passo que suas vidas pessoais naufragam de forma vergonhosa e inelutável?

Contrariando a lógica cultural dominante, e vacinando-nos contra o quadro descrito acima, as Escrituras Sagradas nos aconselham a buscar sabedoria antes de competência:  “Procure obter sabedoria” (Pv 4:7).  Pois ela é como “árvore que dá vida a quem a abraça” (Pv 3:18). A sabedoria “é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro […] nada do que você possa desejar se compara a ela. Na mão direita, a sabedoria lhe garante vida longa; na mão esquerda, riquezas e honra. Os caminhos da sabedoria são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são de paz” (Pv 3:14-17).

As citações falam por si mesmas. A sabedoria é a mais elevada de todas as empresas humanas. Ela não exclui a competência, mas a complementa e potencializa. Quem torna-se sábio, tende também a tornar-se melhor profissional. Pois ao adquirir sabedoria, discerne o valor da competência e compreende o lugar de sua carreira no conjunto da vida. Ao invés de tornar-se uma pessoa unidimensional obssecada com o sonho do contra-cheque de cinco dígitos (ao preço de todo o resto), o sábio caminha na direção de tornar-se uma pessoa melhor, plena, integrando as múltiplas dimensões de sua vida e pessoa sem prejuízo de nenhuma delas.

Mas onde podemos encontrar a sabedoria se esta não é ensinada nas escolas nem tampouco nos manuais corporativos? 

Segundo o testemunho das Escrituras Sagradas, “o Senhor é quem dá sabedoria” (Pv 2:6). Ele a dá “livremente e de boa-vontade” a quem dela tem falta e a solicita (Tg 1:5). A sabedoria habita o relacionamento com Deus e a partir dele se irradia. Ela advém da comunhão com o Pai e do hábito de refletir e meditar em sua palavra. Não pode ser comprada por dinheiro. Não pode ser aprendida em cursos aqui ou no exterior. Ela é dom. É graça que nos é dispensada no convívio afetuoso com aquele que é onisciente e fonte de todo conhecimento. A sabedoria é o reflexo da luz divina que se projeta sobre nós quando nos voltamos para contemplar seu rosto amável e cheio de ternura.

A diferença fundamental entre a competência e a sabedoria é que a primeira se restringe ao mundo do trabalho enquanto a última se aplica à totalidade da vida e da pessoa. A sabedoria é fruto do relacionamento com Deus e por isso abarca e abençoa o conjunto de nossa trajetória neste mundo. A competência tem vida breve e se limita aos anos produtivos depois dos quais é inútil. Quem busca sabedoria, encontra todo o resto ao passo que quem busca competência, acha dinheiro – e dinheiro apenas. Depois, o vazio.

Vale a pena viver e não voar?

 

 
O homem sempre invejou os pássaros e quis voar

 

“Quem me dera ter asas como a pomba; voaria, voaria…” (Salmo 55:6)

 

Não cheguei a conhecer o Brian. Apenas vi uma foto dele voando de parapente. A foto, estampada nas camisas de cerca de 40 pessoas, era uma forma de homenagear o jovem que morrera num acidente quando sobrevoava a praia de Piratininga. Um vento forte o fizera perder o controle e cair sobre os fios da rede elétrica. Morreu instantaneamente.

Naquela manhã de céu claro e poucas nuvens, sol forte e nenhum vento, estávamos reunidos num círculo solene no centro da rampa do Parque da Cidade a fim de nos despedir do rapaz. Eu estava lá como convidado. Fiz a reflexão que precedeu as homenagens e as palavras de despedida. Lembro-me de ter lido um versículo de Eclesiastes e logo ter colocado a pergunta: “Vale a pena viver e não voar?”.

Essa era, me pareceu, a síntese filosófica e o legado da vida – e morte – de Brian. Foi o que captei de tudo o que busquei ouvir sobre ele. Contaram-me que desde sempre ele quis voar. Mas devido a um pequeno defeito nas mãos, não poderia fazê-lo. Era arriscado demais – diziam-lhe. Seu pai, zeloso, batia na mesma tecla. Brian, porém, não se importava. Sabia que arriscado mesmo era não voar. Arriscado era viver sem jamais tirar os pés do chão. O verdadeiro perigo consistia em passar pela vida sem jamais alçar voô. Por isso Brian nunca deu ouvidos aos que tentavam demovê-lo de perseguir o que sentia como sua vocação.

Persistente, foi capaz de convencer um velho instrutor de voô a treiná-lo. Concordaram que precisaria de um dispositivo que lhe permitisse maior controle do parapente. Uma vez comprado o aparelho, aprendeu logo a manuseá-lo. O velho instrutor que lhe tomara sobre as asas era o melhor de todos. E ele, o mais disciplinado aprendiz. Como de praxe, voou primeiro acoplado ao corpo de seu mestre. Depois, passou a voar sozinho.

A morte de Brian foi um infortúnio. Aconteceu com ele como poderia ter acontecido com qualquer outro. O rapaz controlava com perícia seu planador e executava as manobras com  cautela e inteligência. Mas num sábado – numa daquelas tardes de céu avermelhado – um vento forte e súbito o arrastou para seu destino final; exatamente como seu pai temia.

Embora precoce e dramática, a morte de Brian teve algo de confortante: ele morreu fazendo o que mais amava. Morreu como desejava ter vivido. O garoto voador despediu-se da vida nos ares, olhando-a de cima. Seu corpo não foi sepultado. Não merecia. Não pertecia a terra. Por isso suas cinzas foram lançadas ao vento sobre as águas da Baía de Guanabara. Foi uma cena extraordinária: acoplado ao velho instrutor, o pai enlutado disse adeus ao filho num voô derradeiro. E o entregou a Deus.

Falei pouco naquela manhã. Não conhecia o Brian e nada entendo de parapentes. Nunca saltei ou voei num daqueles planadores coloridos. Mas confesso que naquele dia, após o que ouvi e vi, fui seduzido pela idéia. Entendi que precisava voar. Quem não precisa? Curiosamente, o perigoso esporte radical tornou-se para mim a mais bela metáfora para a aventura de viver. E então conclui: não; não vale a pena passar a vida preso ao chão. O suspiro do salmista por asas, tornou-se de repente, minha prece mais sincera, minha mais profunda oração.

 

A contagem do tempo

Como B. Button, todos nascemos idosos

 

“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos a sabedoria” (Sl 90:12)

 

Não sabemos contar o tempo. Em nossos calendários, cada dia que passa é contado como um dia a mais. O mesmo ocorre em relação aos meses do ano: vão crescendo sucessivamente de 1 a 12; como as horas de um relógio. Obedecendo esta mesma lógica, a cada aniversário que completamos, acrescentamos mais uma vela ao bolo e um ano à idade da gente.

Mas o tempo não funciona assim. Ele opera segundo uma outra lógica. Não ganhamos tempo a medida que ele passa. Não acumulamos dias e anos. Nós os perdemos. Cada dia a mais é, na verdade, um dia a menos. Não tenho os anos que minha idade sugere. Estes são os anos que já não tenho mais. Como bem disse Rubem Alves: são “fósforos riscados”. O tempo que realmente tenho, não é tão simples de contar. O dia de amanhã é apenas uma possibilidade.

A rigor, o tempo se conta de forma decrescente. A medida que ele passa, diminuem os anos que temos. Como Benjamim Button, todos nascemos idosos, cheios de anos. Ironicamente, no instante mesmo em que nascemos, começamos também a morrer. Pois, imediatamente, todo o tempo que temos – sem que saibamos quanto – passa a fugir de nós. Como nuvem em meio ao vendaval, ele vai se dissipando velozmente. Nas palavras do salmista: “a vida passa depressa e nós voamos” (Sl 90:10).

Nesta complexa equação da existência terrena, a grande incógnita é, sem dúvida, o dia de nossa morte. Contamos o tempo de forma equivocada porque desconhecemos o dia de nosso último suspiro. Se ao nascer, recebêssemos também uma certidão de óbito, tudo ficaria mais fácil. Poderíamos planejar com segurança nossa vida contando os anos de forma regressiva. Mas aí não teria graça. Viver seria como um assistir filme cujo final já conhecemos de antemão. A beleza da vida reside precisamente no fato de que ela é aberta, como um poema que vai sendo escrito a medida que surge a inspiração.

Mas acaba que tal abertura nos é conveniente. Como, no nível prático, rejeitamos a idéia de vamos morrer – haja vista nossa incontestável obsessão com a juventude – pensamos enganar a morte contando nossos anos para cima, de forma crescente. Preferimos pensar em termos de longevidade a pensar em termos de finitude. Mas afinal estes expedientes se revelam ineficazes. Pois não há mesmo para onde correr: todos caminhamos em direção ao fim inevitável. E insuspeito.

Talvez aí resida o segredo da sabedoria: viver com a consciência de que se está morrendo. Não é verdade que muitas pessoas passam a viver com intencionalidade apenas quando descobrem que estão prestes a morrer? Quantos não mudam completamente suas prioridades após o diagnóstico de um câncer? Ou após sobreviverem a um acidente, seja ele automobilístico ou cardiovascular? Tais experiências-limite nos recordam de nossa mortalidade. Elas berram aos nossos ouvidos: somos efêmeros! É precisamente esta consciência que nos permite “alcançar a sabedoria”. Pois já não há como viver de forma displicente quando se sabe que a morte se avizinha. Nascemos para vida quando nos conscientizamos de que vamos morrer. Daí que o salmista ore a Deus: “ensina-nos a contar os nossos dias”.

No espírito da oração acima, faço aqui uma sugestão: substituamos nossos modernos relógios pelas antigas ampulhetas. Pois elas, melhor que ninguém, compreendem a lógica segundo a qual o tempo trabalha. Enquanto nossos relógios nos empurram apressadamente para frente supondo que há sempre mais tempo para agendarmos ainda um outro compromisso, a ampulheta nos faz parar para pensar: quanto tempo ainda me resta? Ao invés de perguntar: “o que mais posso fazer?”, indaga: “do que preciso abrir mão para não negligenciar o que é essencial?”.

Em meio à correria desta nossa vida urbana e pós-moderna, a ampulheta nos ajuda a lidar com o tempo de maneira sábia, pois o conta de forma decrescente e poética, exatamente como a vida se desenrola diante de nós. Ainda mais: sempre que a viramos ao romper de cada novo dia somos recordados: todo o tempo que temos é o dia de hoje. O dia de ontem não nos pertence mais e o amanhã pode ou não existir. Vive com sabedoria quem vive um dia de cada vez.

Páscoa: Deus passou por aqui…

Na cruz de Jesus, Deus passou pela morte

 A palavra “páscoa” traduz o hebraico “pessach” que, como é sabido por todos, significa “passagem”. Trata-se de uma referência à noite em que anjo de Deus passou pelo Egito libertando o povo de Israel de sob o domínio de Faraó que já durava 400 anos. Tal episódio encontra-se relatado em Êxodo 12 e é, sem sombra de dúvida, uma das memórias prediletas do povo judeu. Com efeito, desde aquela noite até o dia de hoje, uma vez por ano, inexoravelmente, Israel celebra esta data. É a festa da Páscoa.

Entretanto, a celebração anual desta festa não é privilégio dos judeus. Nós cristãos também a celebramos fielmente, se bem que desde um prisma diferente. Um prisma que, a rigor, não exclui nem invalida o prisma judaico, mas o transcende. Porque se para os judeus a páscoa é a festa da libertação nacional, para nós cristãos, ela é a festa da libertação universal e total; a comemoração por excelência do triunfo da vida sobre a morte e sobre todos os seus agentes em benefício de toda criação. Por essa razão, na páscoa, cantamos todos juntos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15,55).

Este ponto é preciso estar claro: para nós cristãos, a páscoa é a festa da vida, de sua afirmação e vitória sobre a morte ainda que cruzes façam parte da história. Porque o que aqui celebramos não é outra realidade senão a da passagem triunfal (e misteriosa) de Deus pela morte suscitando vida desde suas entranhas. O que na fé afirmamos, na páscoa celebramos: Deus mesmo, em carne e osso, visitou a nossa história, experimentou as nossas dores, comeu pão e bebeu vinho, sentiu fome, sede, teve medo, riu e chorou. Nasceu criança pobre, vulnerável, entregando-se aos cuidados de José e Maria. Foi circuncidado ao oitavo dia, freqüentou o templo e as festas do povo. Uma vez crescido, tomou partido dos pecadores. Deu valor às crianças e às mulheres, curou os enfermos, libertou os endemoninhados, acolheu a gente marginalizada, questionou os costumes e as tradições religiosas, ensinou o amor e denunciou a injustiça. Viveu sem pecado. Foi morto de forma brutal em uma cruz hedionda. Mas ressuscitou ao terceiro dia. Nas palavras de Pedro: “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38). Em Jesus de Nazaré, Deus mesmo passou entre nós ordenando vida e inaugurando a ressurreição de todas as coisas.

Na Páscoa, portanto, nós cristãos declaramos: o mundo já não terá um fim, mas um futuro – será transfigurado. Toda criação já está sendo redimida, ressuscitada. Por isso, na fé, já não falamos mais em termos de morte e vida, mas de vida e ressurreição. Porque a morte nada mais é do que o ponto de chegada de nossa vida natural ao passo que a ressurreição marca o seu início. Sim, começamos a viver quando ressuscitamos em vida por meio de Jesus Cristo. Dia após dia o nosso corpo vai morrendo, mas em Cristo, somos ressuscitados a cada novo dia, chamados a uma nova existência, a uma experiência de plenitude.

Embora muitas vezes o contexto concreto em que nos encontramos aponte noutra direção – seja a família em crise, a vida profissional ameaçada ou mesmo a conjuntura social caótica –, é necessário sempre de novo lembrar que a cruz não pode conter a ressurreição. Ao terceiro dia, ela acontecerá!!! Haverá dias de pranto, de luto, de sombras, mas o sol brilhará outra vez. Esta promessa foi selada com sangue. Assim, aguardamos o dia bendito em que Deus será “tudo em todos” (1Co 15,28). É isto, precisamente, que na páscoa celebramos: o princípio de nossa libertação total e a promessa de abundância de vida. Aleluia!

A ressurreição e o ano novo

A ressurreição nos abre o futuro de Deus

É certo pensar que o conjunto de nossas experiências passadas nos diz muito acerca de quem somos e do porquê hoje nos encontramos neste ponto de nossas vidas. Importa esclarecer, todavia, que não é tanto o passado que determina o caminho de nosso existir no mundo, mas sim o futuro. Na realidade, o que queremos ser no futuro tem maior influência sobre nossas vidas do que aquilo que somos hoje ou já fomos um dia. Isto nos sugere as Escrituras quando afirmam “o justo viverá por fé”.

Viver por fé, com efeito, significa viver a partir de uma realidade que não possuímos, de algo que ainda não nos pertence, que nos foge ao tato, mas que nos convida a caminhar. Viver por fé significa, assim, viver seduzido por uma esperança, por uma promessa, por um desejo de chegar. A vida inteira projetada num único suspiro.

Segundo afirmação da teologia cristã, o suspiro profundo do coração humano é contemplar o rosto de Deus: vê-lo como somos vistos. Esta é nossa fome básica, nosso anseio fundamental. Vivemos, de fato, ainda que inconscientemente, em busca de sua face. Sim, vivemos em busca de Deus, fonte e destino da vida! Por trás de todos os nossos projetos, de todos os nossos amores, de todos os nossos desejos de consumo, de todas as nossas lágrimas, e mesmo por trás de toda nossa luta neste  mundo de contradições, subsiste um impulso incontrolável por  encontrá-lo. Fora  dele,  que  sentido  tem  a  vida? Fora dele, há vida? Por isto o queremos tanto: desejamos viver, viver para sempre. Desejamos viver de forma abundante, plena, como a ressurreição nos permitirá.

Infelizmente, falamos pouco sobre o tema da ressurreição. Isto porque quase não falamos sobre um outro tema de importância igualmente capital: a cruz. Esquecemo-nos, assim, sem mais, do clímax da história, do acontecimento único no tempo que nos abriu futuro e a eternidade: em um homem pobre e simples, Deus mesmo passou entre nós levando consigo a chave da morte vencida na cruz e na ressurreição. Com base nisto confessamos: não existe mais morte e vida, mas somente vida e ressurreição. Em Jesus, a vida não terá um fim, mas um futuro. Quando perdemos isto de vista, tudo a nossa volta cheira a mofo e perde a cor. Com efeito, a fé na cruz-ressurreição de Jesus nos permite, já agora em vida, ressurgir, nascer de novo, tentar outra vez. Pouco importam as frustrações e fracassos de outrora. Ele fez – e faz – novas todas as coisas. Crer em Jesus Cristo implica viver em constante renovação de vida.

Concretamente, isto quer dizer que a pessoa que eu hoje sou não é simplesmente o resultado dos passos de um tempo que ficou para trás, mas é, sobretudo, misericórdia e graça do senhor que me permitiu chegar até aqui e agora me convida a fazer diferente. Hoje é, portanto, oportunidade e kairós de Deus para mim. A fé na cruz-ressurreição me convida a sonhar, a caminhar em uma nova direção. Agora sei onde posso chegar, e por isso saberei escolher o caminho. Não é o passado, afinal, que me dirá para onde estou indo, mas o futuro aberto e garantido pela cruz-ressurreição de Cristo.

Que neste novo ano nós possamos ressuscitar muitas vezes e nascer sempre outra vez para vida que Deus tem para nós. Que, ao lado disto, nos sejam concedidos novos sonhos que nos animem a seguir em frente. E, finalmente, que nossa alma transborde de alegria. Feliz ano novo!

Sobre viver e morrer

A morte do meu tio me fez pensar sobre minha vida
A morte nos faz parar para pensar sobre a vida

 

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec 7:2).

 

Hoje sepultei um parente querido: meu tio Célio, irmão mais velho do meu pai. Ele já não vinha muito bem de saúde, é verdade, mas sua morte não deixou de ser uma surpresa.

Enquanto dirigia para o cemitério pensava sobre a vida e a morte. Pensava sobre minha família que de tão grande somente se reúne em ocasiões extremas: ou muito alegres e festivas como casamentos e bodas, ou muito tristes como funerais. Fiquei pensando no sofrimento do meu pai, dos meus tios e tias, meus primos… Pensei também nos que já partiram: tio Nilson, tia Gracinha, Pipe… Pensei na minha avó que morreu sem que eu pudesse me despedir dela – estava morando nos EUA, à época. Pensei em Guto, meu irmão, e na minha mãe que, por não ter condições de suportar a dor, mal fala do meu irmãozinho. Ele hoje seria um homem.

Em meio ao caos urbano e ao barulho de motores e buzinas, pensei em Karine, minha mulher, e em Hugo e Theo, meus dois filhinhos. Imaginei o quão insuportável seria a dor de não tê-los mais. Pensei também na igreja – na Betânia, que há pouco completou 43 anos, e na Betânia Litorânea que ainda está sendo gestada. Vida que segue e vida por nascer.

Pensei em tantas coisas importantes que logo me dei conta do quanto penso pouco sobre elas. Percebi o quanto elegemos prioridades equivocadas e em como gastamos nossa vida correndo atrás do vento. “Vaidade de vaidades”, dizia Salomão, “tudo é vaidade” (Ec 1:2). Será que estamos destinados a viver assim?

A morte do meu tio Célio despertou-me para a necessidade de recobrar a lucidez. Pois me dei conta de que chorei a partida de alguém que, na realidade, nunca conheci. Convivi com tio Celinho toda a minha vida e quantas vezes conversamos para além do trivial? Quantas coisas ele tinha para dizer que nunca lhe foram perguntadas? Quantas estórias para contar que nunca parei para ouvi? Quantos conselhos para oferecer?

É estranho como nossa vida é frágil e vulnerável. E como nossa percepção das coisas é lenta. Perguntei-me: quantas pessoas mais precisarão morrer para que eu me dê conta de que desperdicei a oportunidade de conhecê-las realmente? Quantas pessoas mais precisarei perder para que possa finalmente descobrí-las? Talvez não haja desgraça maior neste mundo do que não perceber que o grande dom da vida é o outro.

Não posso mais seguir vivendo tão destraído e ensimesmado. Solidão, às vezes, é um mal que nos auto-impomos. Quero, a partir de hoje, estar mais perto de quem amo. Quero poder conhecê-los: minha mulher, meus filhos, meus pais, meu Deus, meus amigos. Quero ouvir suas histórias, seus sonhos, suas queixas, seus testemunhos. Hoje, no velório do meu tio Celinho, chorei não apenas sua morte, mas também a minha.