“Tenho sede!”

Nossa felicidade está ligada a um nova vocação
Nossa felicidade está ligada a um nova vocação

O indivíduo contemporâneo encontra-se perplexo. O momento histórico em que se encontra, por tratar-se de um tempo de profundas, sucessivas e aceleradas transformações, o faz sentir-se assim. Com efeito, a passagem de um momento cultural para outro – sobretudo esta passagem de um modelo de sociedade moderna, rigidamente assentada sobre a razão e de contornos claramente definidos, para este outro modelo ainda em emergência, pós-moderno, de características fluídas e contornos incertos – produz em todos nós um certo mal-estar, um misto de insegurança e ansiedade com uma sensação de vertigem inebriante e permanente.

Neste turbilhão de sensações e incertezas, o indivíduo contemporâneo fica mesmo sem saber para onde ir – ou a quem recorrer. Por este motivo, à semelhança de Forrest Gump, corre de um lado para outro sem realmente estar indo para lugar nenhum. Às voltas com esta correria frenética, ele sente-se vazio, solitário, deprimido, e muito cansado.

A passagem do Evangelho de João 19:28-30, relata as dores e os sentimentos ambíguos dos últimos instantes de Jesus na cruz do Calvário. Ao contrário de nós, indivíduos pós-modernos atônitos e desnorteados, Jesus está ciente de seu destino e do porquê dele, mas, exatamente como a gente, ele se encontra cansado; e sedendo: “Tenho sede!” – exclama exausto (v.28).

Não nos deixemos enganar: a sede de Jesus na cruz é sede de água. Não se trata de uma figura de linguagem, mas de uma necessidade vital. É sede de quem por 3 anos andou de um lugar para o outro fazendo o bem, se entregando às pessoas, curando enfermos, multiplicando pães, transformando água em vinho, lidando com oposições e intrigas, discipulando os futuros apóstolos, pregando o Evangelho do Reino e convidando as pessoas à conversão. Mas se é certo, por um lado, que sua sede ali era sede de água para beber, de outra parte, é igualmente seguro que sua sede não se restringia a isto. Pois o Jesus que vemos na cruz é certamente alguém vulnerável. É alguém que após três anos de entrega altruísta e apaixonada pelos demais, se encontra agora sozinho, negado por Pedro, traído pelo beijo de Judas, rejeitado pela multidão, e abandonado por Deus: “Deus meu, por que me desamparaste?”. A sede de Jesus na cruz é sede também de sentir-se amado, acolhido…

Paradoxalmente, logo antes de expirar pela última vez, Jesus balbucia duas pequenas palavras que nos permitem pensar que, em meio a todo aquele horror, ele foi capaz de viver a experiência de uma certa realização, de uma quase felicidade: “Está consumado” (v.30). Somente alguém que tem consciência de ter feito a sua parte, de ter cumprido a tarefa que lhe havia sido designada, entrega o seu espírito e se rende, sem receio, aos braços da morte .

Estas palavras de Jesus e os sentimentos que elas carregam convidam-nos a pensar que talvez a nossa porção nesta vida seja também o ser fiel, mais do que o ser feliz – ao menos nos termos em que a felicidade é hoje entendida; esta felicidade que é alcançada pela via do consumo, do prazer ilimitado, do sucesso e da exaltação do próprio ego. Se Jesus ali naquela cruz experimentou algum instante de felicidade, esta foi a felicidade de ter sido fiel a Deus e não a ter ficado rico, de ter aproveitado a vida ao máximo, de ter alcançado o sucesso e a admiração das outras pessoas. Obviamente, isto não significa que Deus não queira a nossa felicidade, mas significa tão somente que a felicidade que ele tem para nós é de outro tipo.

Na seqüência da narrativa evangélica, Jesus morre, ressuscita, se encontra com os discípulos e vai atrás de Pedro que, diante da crucificação, tinha resolvido “retomar” a vida de onde ela havia parado – pois o sonho que nutria no coração não se concretizara: o reino de Deus não viera, Jesus não fora coroado, etc. Pedro, de certo modo, trazia no coração um ideal de felicidade diferente do que Deus tinha para ele. Mas quando, finalmente, Jesus o encontrou, tudo se esclareceu. Três vezes Jesus perguntou a Pedro ao redor de uma fogueira: “Tu me amas?”. Em vista da resposta afirmativa do discípulo, replicou: “Pastoreia então as minhas ovelhas”. Ora, quem como Pedro, diz sim a pergunta de Jesus recebe uma nova vocação: a de ser pastor. Este é o ideal de felicidade que Deus tinha para Pedro e tem para nós: que nos pastoreemos mutuamente, que aprendamos a cuidar uns dos outros. Se formos fieis nisto, saciaremos finalmente a nossa sede de felicidade e encontraremos sentido para as nossas vidas.

Resta, porém, uma pergunta: se a felicidade que Deus tem para nós é outra, como a gente se desprende deste ideal de felicidade narcisista dominante em nossos dias? Como saímos de sob o jugo de termos de “ser felizes” à maneira pós-moderna para abraçarmos o projeto de felicidade que Deus tem para cada um de nós? Bem, é provável que haja mais de um caminho a se trilhar para se alcançar este objetivo. Eu, porém, conheço apenas um. Nas palavras do próprio Cristo de Nazaré: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24).

A esperança cristã

Esperamos contra a própria esperança
Esperamos contra a própria esperança

A esperança cristã se funda na promessa divina de que a criação e, particularmente, a vida humana não se limitam a esta experiência terrena, mas a extrapolam adentrando o mais-além – a eternidade – onde serão plenificadas e celebradas eternamente (Jo 11:25-26; 1Co 15:19; Rm 8:18-25). Assim, o mundo e os seres humanos não terão um fim, mas um futuro: o futuro de Deus onde Ele mesmo “será tudo em todos” (1Co 15:28).

Ao contrário do que talvez imagine o senso comum, a esperança cristã não está reservada para a plenitude escatológica, mas se manifesta já no presente onde Deus se revela e atua. Assim, já podemos experimentar hoje algo do porvir celestial onde finalmente serão enxugadas as lágrimas de nossos olhos. Porém, o fazemos de forma incipiente, parcial, ambígüa e precária (pois vivemos ainda sob a influência do pecado).

As clássicas promessas de Deus a Abraão e ao povo de Israel – terra, descendência, proteção e livramento – são metáforas do destino que Deus tem para aqueles que se abrem para um caminhar com Ele (Gn 12:1-3; Ex 3:7-12). Porém mais do meras metáforas são também antecipações, “aperitivos”, de nossa salvação final. Assim, a partir de pequenas experiências cotidianas da graça e benevolência de Deus, podemos ter uma idéia, um gostinho, de como será o nosso futuro.

Vivemos, portanto, sob a dinâmica do “já e ainda-não”. Com efeito, já hoje experimentamos algo da salvação que nos está prometida, contudo ainda-não de forma plena. Esta é uma experiência progressiva: a cada dia vamos morrendo para o pecado que habita em nós e no mundo e ressuscitamos para Deus.

Ora, a esperança cristã é dinâmica. Não se trata de um aguardar apático e inerte da vinda de Deus. Antes, é um caminhar com ele, na força de seu Espiríto e na direção de sua pessoa e vontade. Quanto mais esta esperança ilumina nossa vida, mais celestial, mais abundante, mais “eterna” ela se torna.

O preço da comunhão

 

Best Friends
Conviver não é fácil, mas é maravilhoso.

Quando ainda estudante em Campinas, participei de um programa de aconselhamento voluntário por telefone chamado Disque-paz. Tão logo começaram as sessões, pude constatar com assustadora clareza que o principal problema das pessoas que procuravam o programa era a solidão. Solidão a dois, solidão em família, solidão na igreja, solidão em relação a Deus, solidão de tudo quanto era jeito e forma. Descobri que as pessoas estavam sós; e que a comunhão tornara-se o grande suspiro de muitos corações.

Não é difícil explicar por que as pessoas se tornaram tão sós (basta considerarmos o pouco tempo de que dispomos para investir nos relacionamentos interpessoais). Muito mais difícil é explicar por que as pessoas insistem em continuar sozinhas. De todo jeito, segue aqui uma tentativa. 

A única maneira de nos livrarmos da solidão é através da convivência. Pois sem convivência não há como construirmos a comunhão. Precisamente aqui se encontra o nó que precisamos desatar: temos tanta necessidade de conviver quanto fugimos de fazê-lo. Por quê? A resposta talvez se resuma em duas palavras: medo e egoísmo.

Estou certo de que tememos a convivência. Sim, porque conviver é arriscado. À medida que convivemos de perto com alguém, vamos nos expondo, nos desvelando, nos desnudando diante do outro. Quanto mais profunda desejamos que seja a relação, maior o risco que corremos de serem manifestados os nossos defeitos, as nossas fraquezas e limitações. Tudo o que sempre quisemos esconder tende a ser descoberto quando convivemos com outras pessoas. Aí reside a raiz de toda dificuldade: tememos ser rejeitados depois de conhecidos. As pessoas poderão descobrir quem sou e desistir de mim. Será que vale o risco?

O outro fator na origem de nossa solidão é o egoísmo. Em maior ou menor medida, a maioria de nós é egoísta. Não resta dúvidas de que queremos estar com outras pessoas que de algum modo nos livrem da solidão, mas não sei se queremos ser o alguém que vai livrar outras pessoas da solidão. Nosso foco, via de regra, está em nós mesmos. Vivemos sozinhos porque procuramos, nos outros, a nós mesmos. Vamos ao outro pensando em nós mesmos; em nosso bem-estar, em nossas necessidades e carências. No fim, nosso egoísmo empurra de volta para longe de nós as pessoas que cativamos. Enquanto permanecermos egoístas, continuaremos sós.

Enfim, a comunhão pressupõe o encontro, o relacionamento pessoal e a convivência com todos os riscos que lhe são inerentes. Quem quiser ter comunhão, precisará também ter coragem e exercitar o altruísmo. Precisará ter a ousadia de desnudar-se e de amar o outro como a si mesmo. Obviamente, tal caminho constitui um grande desafio. Mas é assim mesmo. Pois “como ferro com ferro se afia”, assim também a convivência nos fará pessoas melhores e nos libertará finalmente das algemas da solidão. Nada disto, no entanto, acontecerá sem que sejam produzidas algumas fagulhas…