A retórica da morte e o Deus da vida

Não se trata de defender marginal, mas de proteger o ser humano.


“Então o Rei dirá às ovelhas à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Então os justos lhe responderão: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” O Rei responderá: “Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mateus 25:34-40)

Todos acompanhamos pelos meios de comunicação a onda de violência que culminou no último domingo na tomada do Complexo do Alemão pelas forças de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro – as Polícias Civil, Militar e Florestal – em conjunto com as forças armadas do Brasil, nomeadamente, a Marinha e o Exército.

As causas de toda essa violência são conhecidas: a (1) desigualdade e injustiça social, a (2) falta de vontade política, a (3) indiferença e conivência do Estado que se beneficia da ignorância e da pobreza da população, o (4) contingente policial reduzido, despreparado e mal-remunerado, a (5) hipocrisia de setores da sociedade que sustentam o tráfico através do consumo de drogas, as (6) limitações da legislação criminal, a (7) corrupção na Polícia, na Política e no Poder Judiciário, a (8) impunidade, a (9) crise do sistema penitenciário, o (10) contrabando de armas, o (11) desrespeito pela vida, etc. A lista é longa. E igualmente extensa é a relação das ações necessárias para virarmos em definitivo essa página. Haverá solução?

Toda essa conjuntura nos afeta profundamente. Como cidadãos, sentimo-nos desprotegidos, vulneráveis, traídos, indignados e – o pior de tudo – sem esperança. Tornarmo-nos, desse modo, presas fáceis de um certo discurso irracional e truculento que vê no extermínio sumário dos atores desse circo de horror a única solução possível para o presente quadro. “Tem de matar todo mundo” – repetimos com gosto de sangue na boca.

Sejamos sinceros: quem não desejou a morte daqueles rapazes pardos e favelados que armados até os dentes chegavam de moto na comunidade da Vila Cruzeiro enquanto zombavam das autoridades instituídas e espalhavam o terror pela cidade? Quem não torceu para que, ao invés da rendição, houvesse uma chacina, um implacável banho de sangue, na manhã do último domingo?

Engana-se, porém, quem imagina que isso solucionaria o problema. Afinal, existem filas e filas de meninos naquela e em diversas outras favelas sonhando com a oportunidade de ocupar os lugares dos traficantes que lá estão hoje. Disto ninguém se engane: os nossos vilões, são os heróis deles para quem, aliás, nós do asfalto, a polícia, e o Estado são os verdadeiros criminosos. Na cabeça dessas crianças, os traficantes mortos na guerra urbana são mártires que pagaram com a própria vida o preço da rebeldia e não-adequação aos padrões questionáveis de uma sociedade hipócrita, egoísta e indiferente.

Já o filme Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, mostrou como essa lógica opera. Depois vieram Tropa de Elite 1 e 2, deixando claro que quem cria e sustenta o traficante é, de um lado, o usuário de drogas das classes média e alta que hipocritamente fuma seu baseado enquanto discute o problema da violência urbana e, de outro, o governo, que manipula a opinião pública combatendo ou não o problema na medida em que tal ação pode ser ou não revertida em voto.

Como se vê, não é tão fácil como a primeira vista talvez pareça dizer com segurança quem é o vilão e quem é o mocinho nessa história. É também por este motivo que este tipo de discurso simplista e truculento é inadmissível e precisa ser confrontado. Muito para além disso, no entanto, a principal razão para se combater essa retórica da violência reside no fato de que tal constitui grave afronta aos direitos humanos, aos fundamentos do Estado democrático de direito e, sobretudo, ao Deus da vida.

Mas como assim? Por que essa mentalidade representa uma traição ao Deus de Jesus Cristo? Por que, como cristãos, não podemos nos permitir pensar dessa maneira?

Por uma razão decisiva: a vida é um direito concedido por Deus aos seres humanos e uma responsabilidade atribuída à igreja por Jesus Cristo. À luz dessa verdade, a fome, a nudez, a enfermidade, a indiferença, o desamparo, e a violência dentre tantas outras coisas se revelam forças contrárias ao dom outorgado por Deus a nós. São forças antagônicas ao querer divino, ao Reino de Deus e à vida abundante em Cristo Jesus; forças de morte que ameaçam e podem fazer morrer a vida. Ora, era justamente visando combater e cancelar tais forças que Jesus curava os enfermos, libertava os endemoninhados, acolhia os menosprezados e alimentava a multidão quando esta tinha fome. Ele sabia o valor da vida humana e esforçava-se por afirmá-la, defendê-la, promovê-la, e plenificá-la. A ética e a retórica de Jesus não eram a da morte, mas da vida, do novo nascimento, da ressurreição. Daí que ele andasse “por toda parte fazendo o bem” (At 10:38). Mais tarde, incumbiria a igreja desta gratificante tarefa.

Precisamente por essa razão não podemos nos unir ao coro daqueles que pedem a morte de quem quer que seja, especialmente de traficantes e bandidos que, em grande medida, ajudamos a criar. Não nos esqueçamos que dois mil anos atrás a opinião pública também pediu a morte de Jesus. A violência a nossa volta não pode nos tornar violentos. Seria uma dupla derrota. Portanto, ao invés de engrossarmos as fileiras das forças de morte aliando-nos aquele que veio matar, roubar e destruir, e traindo assim nossa vocação fundamental como igreja de Jesus Cristo, cumpre-nos agir em todo tempo como pacificadores, como agentes de paz e reconciliação. Afinal, estamos a serviço da vida. Esta é a marca inconfundível nos distinguirá no último dia como ovelhas de Jesus: a solidariedade dirigida a essa gente para quem o mundo deu as costas e Jesus abriu os braços na cruz do Calvário ao preço da própria vida.

Miopia espiritual

Nossa visão é gravemente prejudicada por preconceitos
Nossa visão é prejudicada por nossos preconceitos

Gosto muito de ler crônicas. Dentre as minhas preferidas está “A velha contrabandista”, de Stanislaw Ponte Preta. É a história de uma senhorinha que diariamente cruzava a fronteira do país guiando uma lambreta. O detalhe curioso é que, na garupa da lambreta, ela carregava um enorme saco cheio de areia, que despertava a atenção e a desconfiança dos fiscais da alfândega. Por conta disto, diariamente a revistavam, esvaziando o saco à procura de alguma pista ou evidência de contrabando. No entanto, as operações fracassavam sucessivamente.

Um dia, consumido pela desconfiança e curiosidade, um fiscal daqueles que após 40 anos de serviço conhece o ofício como poucos, abordou a velhinha e, num tom quase de súplica, lhe propôs um acordo mais ou menos nestes termos: “Eu prometo deixar a senhora passar e mantenho segredo de tudo, se me confidenciar qual é o contrabando que todos os dias a senhora passa por aqui”. A velhinha, após se assegurar de que o fiscal manteria sua palavra, revelou-lhe o segredo: “É a lambreta”.

Gosto desta crônica porque ela denuncia de forma inteligente e bem-humorada um sério defeito que, sem nos darmos conta, possuímos: uma grave limitação visual. De fato, temos enorme dificuldade de enxergar para além da visão objetiva. Nosso olhar parece estar restrito ao padrão do aparente, condicionado a ver segundo o critério do explícito, (ao contrário do Pequeno Príncipe, que aprendeu que “o essencial é invisível aos olhos”). Via de regra, nossos olhos se deixam capturar pelo suspeito, pelos “sacos de areia”, e desconsideram totalmente as “lambretas”. Nossa enfermidade tem nome: miopia – “vista curta, estreiteza de visão, falta de perspicácia”.

No Evangelho segundo João, capítulo 4, há o registro de um encontro de Jesus com uma prostituta samaritana junto a um poço. Tal mulher era estigmatizada pela sociedade da qual fazia parte, era vítima de um olhar (e de um juízo) estereotipado acerca de sua pessoa e história. Este padrão de comportamento era tão entranhado na cultura, que a própria mulher se assustou ao se dar conta de que Jesus falava com ela (João 4:9); afinal, homens não conversavam em público com mulheres, muito menos estrangeiras, sobretudo, prostitutas.

Felizmente, Jesus não olha para as pessoas como nós o fazemos. Seu olhar é muito mais sensível e profundo, mais subjetivo, livre de toda espécie de condicionamentos e preconceitos. Enquanto as pessoas estabelecem seus juízos umas sobre as outras a partir do que vêem, Jesus concentra seu olhar naquilo que os olhos não podem contemplar. Seu foco é o coração, onde nascem todas as ações humanas. Ao contrário da mentalidade predominante, Jesus olhou para aquela mulher e viu nela alguém carente, que buscava nos homens com quem se relacionava uma forma de suprir uma demanda de afeto e provisão. Ao invés de vê-la como uma libertina, Jesus a viu como alguém dominada por uma sede tal que já não era capaz de discernir com clareza suas reais necessidades. Por este motivo, ele olha para ela e diz: “Se conheceras quem te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (João 4:10). Na visão de Jesus, o problema daquela mulher não era “falta de vergonha” ou de caráter, mas sede de sentir-se amada e acolhida, social e espiritualmente.

Fico pensando no modo como muitas vezes agimos. À maneira dos contemporâneos de Jesus, também nos deixamos conduzir pelos mesmos critérios e rejeitamos as pessoas antes mesmos de chegarmos a conhecê-las. Julgamos, tiramos conclusões apressadas, repudiamos e discriminamos quando poderíamos ser usados por Deus para oferecer água às pessoas se compreendêssemos a sede que as movem. Somos, porém, tão reféns do óbvio, do aparente, que negligenciamos o essencial. Mais ainda: temos tanta dificuldade de enxergar que negligenciamos nossa própria sede. Assim, temos água para beber e agimos como se não a tivéssemos ou como se não precisássemos dela, pois estamos todo tempo ocupados correndo atrás das mesmas coisas que condenamos na busca alheia. Tentamos saciar nossa sede de água viva consumindo produtos diversos, estilos de vida, relacionamentos, viagens, diplomas, etc. Nossa miopia é aguda, especialmente quando somos o objeto de nosso próprio olhar.

Que Deus nos ilumine os olhos e ensine a discernir entre lambretas e sacos de areia.

“Tenho sede!”

Nossa felicidade está ligada a um nova vocação
Nossa felicidade está ligada a um nova vocação

O indivíduo contemporâneo encontra-se perplexo. O momento histórico em que se encontra, por tratar-se de um tempo de profundas, sucessivas e aceleradas transformações, o faz sentir-se assim. Com efeito, a passagem de um momento cultural para outro – sobretudo esta passagem de um modelo de sociedade moderna, rigidamente assentada sobre a razão e de contornos claramente definidos, para este outro modelo ainda em emergência, pós-moderno, de características fluídas e contornos incertos – produz em todos nós um certo mal-estar, um misto de insegurança e ansiedade com uma sensação de vertigem inebriante e permanente.

Neste turbilhão de sensações e incertezas, o indivíduo contemporâneo fica mesmo sem saber para onde ir – ou a quem recorrer. Por este motivo, à semelhança de Forrest Gump, corre de um lado para outro sem realmente estar indo para lugar nenhum. Às voltas com esta correria frenética, ele sente-se vazio, solitário, deprimido, e muito cansado.

A passagem do Evangelho de João 19:28-30, relata as dores e os sentimentos ambíguos dos últimos instantes de Jesus na cruz do Calvário. Ao contrário de nós, indivíduos pós-modernos atônitos e desnorteados, Jesus está ciente de seu destino e do porquê dele, mas, exatamente como a gente, ele se encontra cansado; e sedendo: “Tenho sede!” – exclama exausto (v.28).

Não nos deixemos enganar: a sede de Jesus na cruz é sede de água. Não se trata de uma figura de linguagem, mas de uma necessidade vital. É sede de quem por 3 anos andou de um lugar para o outro fazendo o bem, se entregando às pessoas, curando enfermos, multiplicando pães, transformando água em vinho, lidando com oposições e intrigas, discipulando os futuros apóstolos, pregando o Evangelho do Reino e convidando as pessoas à conversão. Mas se é certo, por um lado, que sua sede ali era sede de água para beber, de outra parte, é igualmente seguro que sua sede não se restringia a isto. Pois o Jesus que vemos na cruz é certamente alguém vulnerável. É alguém que após três anos de entrega altruísta e apaixonada pelos demais, se encontra agora sozinho, negado por Pedro, traído pelo beijo de Judas, rejeitado pela multidão, e abandonado por Deus: “Deus meu, por que me desamparaste?”. A sede de Jesus na cruz é sede também de sentir-se amado, acolhido…

Paradoxalmente, logo antes de expirar pela última vez, Jesus balbucia duas pequenas palavras que nos permitem pensar que, em meio a todo aquele horror, ele foi capaz de viver a experiência de uma certa realização, de uma quase felicidade: “Está consumado” (v.30). Somente alguém que tem consciência de ter feito a sua parte, de ter cumprido a tarefa que lhe havia sido designada, entrega o seu espírito e se rende, sem receio, aos braços da morte .

Estas palavras de Jesus e os sentimentos que elas carregam convidam-nos a pensar que talvez a nossa porção nesta vida seja também o ser fiel, mais do que o ser feliz – ao menos nos termos em que a felicidade é hoje entendida; esta felicidade que é alcançada pela via do consumo, do prazer ilimitado, do sucesso e da exaltação do próprio ego. Se Jesus ali naquela cruz experimentou algum instante de felicidade, esta foi a felicidade de ter sido fiel a Deus e não a ter ficado rico, de ter aproveitado a vida ao máximo, de ter alcançado o sucesso e a admiração das outras pessoas. Obviamente, isto não significa que Deus não queira a nossa felicidade, mas significa tão somente que a felicidade que ele tem para nós é de outro tipo.

Na seqüência da narrativa evangélica, Jesus morre, ressuscita, se encontra com os discípulos e vai atrás de Pedro que, diante da crucificação, tinha resolvido “retomar” a vida de onde ela havia parado – pois o sonho que nutria no coração não se concretizara: o reino de Deus não viera, Jesus não fora coroado, etc. Pedro, de certo modo, trazia no coração um ideal de felicidade diferente do que Deus tinha para ele. Mas quando, finalmente, Jesus o encontrou, tudo se esclareceu. Três vezes Jesus perguntou a Pedro ao redor de uma fogueira: “Tu me amas?”. Em vista da resposta afirmativa do discípulo, replicou: “Pastoreia então as minhas ovelhas”. Ora, quem como Pedro, diz sim a pergunta de Jesus recebe uma nova vocação: a de ser pastor. Este é o ideal de felicidade que Deus tinha para Pedro e tem para nós: que nos pastoreemos mutuamente, que aprendamos a cuidar uns dos outros. Se formos fieis nisto, saciaremos finalmente a nossa sede de felicidade e encontraremos sentido para as nossas vidas.

Resta, porém, uma pergunta: se a felicidade que Deus tem para nós é outra, como a gente se desprende deste ideal de felicidade narcisista dominante em nossos dias? Como saímos de sob o jugo de termos de “ser felizes” à maneira pós-moderna para abraçarmos o projeto de felicidade que Deus tem para cada um de nós? Bem, é provável que haja mais de um caminho a se trilhar para se alcançar este objetivo. Eu, porém, conheço apenas um. Nas palavras do próprio Cristo de Nazaré: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24).