O nascimento da alegria

 
 
Igor

 

“Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele” (Lc 1:14)

 

Não achei graça nenhuma quando 9 meses atrás Karine me contou meio entre os dentes que talvez estivesse grávida de novo; vale dizer: pela terceira vez. Nem foi tanto pela questão financeira, pois não considero realmente que dinheiro seja o fator determinante quando o assunto é planejamento familiar. No meu entender, ninguém jamais deveria condicionar o sonho da família a dinheiro, mas sim rever a forma como pensa, ganha e administra o dinheiro a fim de construir sua família.

Mesmo assim, conquanto no íntimo desejasse mais um rebento correndo pela casa, quase morri do coração com a notícia da possível gravidez, pois temia aquela ciranda incontrolável de noites em claro, fraldas sujas, esposa cheirando a leite e visitas freqüentes ao pediatra como é próprio do ritual de chegada de uma nova criança no pedaço.

Sinceramente, para mim, essa era a questão: o medo da mudança de ritmo que o nascimento de um filho impõe sobre a dinâmica cotidiana e familiar. Afinal, ter um bebêzinho em casa implica, dentre outras coisas, abandonar qualquer pretensão de se manter uma rotina ordenada onde as atividades obedecem uma lógica simples do tipo fazer-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia e dormir durante a noite para, em lugar disso, abraçar um outro tipo de lógica: não dormir de noite, nem fazer-direito-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia.

Foi temendo essa aceleração de minha já frenética rotina que havia decidido fazer uma vasectomia. Só que não deu tempo: Karine já estava mesmo grávida… graças a Deus! Pois ainda no quarto do hospital, ao pegar Igor nos braços pela primeira vez, experimentei pela terceira vez na vida a alegreia indizível de ter um bebezinho para amar e cuidar. É claro que esse gozo extraordinário não elimina o trabalho brutal que vem com ele e lhe é proporcional. Mas, o faz valer a pena. Com efeito, não há nada a que se possa comparar a alegria de carregar junto ao peito um pequenino que chega na vida da gente como um presente-surpresa de Deus.

Hoje, pouco mais de duas semanas após o nascimento de Igor, não consigo nem imaginar mais a vida sem sua meiga e frágil presença. Não sei se saberia dormir novamente sem o calor de seu pequenino corpo amarrado sobre o meu pelo edredon. Não sei como seria levar os meninos para o futebol sem antes nos despedirmos dele beijando-lhe a cabecinha. Não sei como seria não ter sua cadeirinha espremida entre as outras no banco de trás do carro. Enfim, Igor é metáfora e concretização do milagre do amor que lança fora o medo e enche nossa vida de regozijo e alvissareira alegria.

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Escolhe a vida

Andy e Red no pátio da prisão
Andy (Tim Robbins) e Red (Morgan Freeman)

 

“A morte é mais universal que a vida; todo mundo morre, mas nem todo mundo vive” (Alan Sachs)

 

Há filmes que merecem ser vistos mais de uma vez. Este é o caso de  “Um sonho de liberdade”. Cada vez que o assisto, saio sentindo-me recompensado por ter gasto aquele tempo diante da tv.

Uma cena, em particular, chama minha atenção: Andy e Red estão no pátio da prisão conversando sobre a vida do lado de fora daqueles muros. Andy havia sido jogado ali vinte anos atrás por um crime que não cometera enquanto Red se aproximava do trigésimo aniversário de seu encarceramento. Ao ouvir o amigo admitir que estava “institucionalizado” e que temia não mais saber viver como um homem livre, Andy lhe diz, com uma voz profunda e enigmática: “A vida se resume em uma única escolha: ocupar-se de morrer, ou  ocupar-se de viver”. À noite, Andy foge da prisão e dá início a reconstrução de sua vida.

Obviamente, Andy é o personagem principal do filme. Sua inconformidade e ousadia  nos inspiram, nos desafiam, nos chamam a imitá-lo. Mas é com Red que a maioria de nós se identifica. Pois Red representa aquelas pessoas que, na verdade, não desistiram da vida, mas a desaprenderam. Gente que se permitiu “institucionalizar” pelas rotinas das prisões em que se encontram. São pessoas que interiorizaram suas cadeias e aceitaram a realidade presente como o próprio destino.

Embora vivamos aparentemente livres fora dos muros de uma prisão, é bem possível que também tenhamos aceitado e interiorizado algumas das cadeias que insistem em nos aprisonar. Com efeito, quantos de nós não nos habituamos à vida que levamos de tal maneira que já não mais consideramos a hipótese de que ela poderia ser melhor? Quantos de nós não nos permitimos institucionalizar ao ponto de temermos arriscar coisas novas? Quantos de nós já não nos ocupamos mais de viver?

À semelhança de Red – e de um sem número de pessoas –, o povo de Israel também experimentou um alto grau de “institucionalização” após 400 anos de cativeiro no Egito. Por este motivo, à porta da terra prometida, Deus lhes coloca a seguinte alternativa: escolher entre “a vida e o bem” e “a morte e o mal” (Deuteronômio 30:15).

É claro que, consciente e voluntariamente, o povo de Israel jamais escolheria “a morte e o mal”. Mas após tanto tempo vivendo como escravos, era possível que eles temessem viver como gente livre. De modo não-consciente, eles talvez temessem escolher o bem. Mais ainda: eles talvez não soubessem fazê-lo. As palavras que Deus lhes dirije têm como preocupação fazer com que se conscientizem da necessidade de abraçarem uma outra postura diante da vida, pois aquela velha postura institucionalizada não lhes serviria na nova terra. Com efeito, não lhes bastava ter saído do cativeiro egípcio; era preciso que o cativeiro egípcio fosse expurgado de sua alma sob pena de agirem condicionados pela memória de seu passado. Daí o conselho divino: “Escolhe a vida” (Deuteronômio 30:20).

 A mesma preocupação que possuia em relação ao povo de Israel, Deus possui hoje em relação a cada um de nós: não é sua vontade que vivamos aprisionados, ocupados com a morte ao invés de com a vida. Antes deseja ver-nos conscientemente engajados na tarefa diária de nossa libertação sem a qual não é possível viver de forma profunda e verdadeira. Por isso repete para nós a cada novo amanhecer: “Escolhe a vida”. “Escolhe viver para que de fato vivas”. Resta-nos, portanto, ouvir seu amoroso conselho e, a cada dia, escolher novamente a única alternativa válida, pois, do contrário, já teremos abraçado o nosso trágico destino.