Nossos demônios

Piores que os demônios de Satanás são os da nossa própria alma.

 

“Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos” (Mc 5:9)


Todos temos demônios. Não necessariamente aqueles de Satanás. Esses demônios certamente existem e fazem parte da vida de muitos, mas não de todos. Refiro-me aqui a um outro tipo de demônios. Falo dos daimons (como Sócrates chamaria em grego): forças autônomas que habitam o nosso mundo interior.

A rigor, os daimons são anteriores aos demônios. É claro que não numa perpectiva cronológica. Afinal, segundo as Escrituras, Satanás e suas hostes infernais existem desde antes da criação. Mas etimologicamente, sim. Pois foi a partir da noção – e da resignificação – de daimons que o Novo Testamento desenvolveu o conceito de “demônios” como nós hoje conhecemos, inclusive incorporando o termo. Prova disso é que o Antigo Testamente jamais fala em demônios, mas somente em espíritos malignos. Os demônios do NT são os espíritos malígnos do AT batizados com o termo oriundo da língüa grega.

Pois bem. Diferente dos demônios de Satanás que habitam as esferas espirituais e podem eventualmente se apropriar de corpos e mentes, os daimons pertencem ao mundo de nossa subjetividade. São demônios da psiquê humana e, assim sendo, são universais. Todos os possuímos. Mas à semelhança do que acontece com os demônios de Satanás, também podemos ser possuídos por eles. Com efeito, eles buscam todo tempo se apropriar de nossa alma, de nosso ser interior levando-nos a fazer o mal que não queremos e nos afastando do bem que desejamos fazer.

O grande distintivo entre essas duas qualidades de demônios é que aqueles – os demônios de Satanás – são repreendidos e exorcizados com a mera menção do nome de Jesus. Já esses outros que atuam em nossa subjetividade, não. Eles dificilmente saem de uma vez por todas. Tampouco saem todos de uma vez. Temos de enfrentá-los um a um, sempre de novo, um dia depois do outro. De fato, lutamos com esses demônios durante toda extenção de nossas vidas. E embora nunca nos livremos deles, é possível aprender a subjugá-los. E assim, finalmente, vivermos libertos de sua ação.

Mas como essa libertação ocorre? Como subjugamos essas forças autônomas que, como intrusas, povoam nosso mundo interior sabotando nossas escolhas, atitudes, e autocompreensão? Como neutralizamos sua ação em nossas vidas?

Antes de mais nada é importante nomeá-los. “Qual é o teu nome?” – perguntou Jesus. Aqui, uma boa terapia pode ajudar. Também a leitura bíblica. Mas em geral uma boa dose de honestidade e autocrítica bastam. Quais os nomes dos demônios que agem em nosso interior? Quais os nomes dessas forças independentes que habitam nossa alma assolando nossa mente e pervertendo nossa identidade? Culpa? Ódio? Teimosia? Inveja? Orgulho? Vaidade? Resignação? Avareza? Discórdia? Rancor? Mágoa? Amargura? Ansiedade? Preguiça? Gula? Egoísmo? Mentira? Promiscuidade?

Se formos honestos, teremos de admitir que tais forças estão presentes em nossas vidas influenciando nosso sentir, nosso pensar e agir. E até certo ponto isso é normal. O problema é quando esses demônios se movem com tamanha liberdade em nosso mundo interior que chegam transtornar por completo nosso comportamento e identidade. É quando ocorre a possessão. Aí já não somos mais nós mesmos. Não sabemos mais nosso próprio nome. Fomos desfigurados. “Legião” – respondeu o jovem quando indagado por Jesus. Perdera-se dentro de si mesmo. Tornara-se refém e escravo.

Precisamente para que isso não aconteça é importante nomearmos os demônios. Assim, protegemos nossa identidade. E temos plena clareza do inimigo contra o qual lutamos. Pois freqüentemente confundimos quem somos com que fazemos e pode ser que estajamos lutando contra nós mesmos, digo, nosso eu verdadeiro, imagem e semelhança de Deus.

Porém não basta apenas identificar os demônios que atuam no profundo de nosso ser. Se de fato desejamos exorcizá-los – ou, pelo menos, subjugá-los – faz-se mister dispormos de dois recursos espirituais: o jejum e a oração. Pois “essa casta não se expele se não com jejum e oração”.

O jejum (como escrevi em outro post) é uma disciplina espiritual de auto-esvaziamento. Através dele, enfraquecemos nossos apetites carnais, dominamos nossos desejos desenfreados e também subjugamos nossos demônios. Pois quando jejuamos, fechamos as portas que permitem o trânsito livre dessas forças pelos labirintos de nossa alma. Desse modo, restringimos e limitamos sua ação. Contudo, cumpre ressaltar aqui,  que jejuar não é meramente deixar de se alimentar, mas cultivar uma atitude de desprendimento, de renúncia e abnegação do qual o ficar sem comer é expressão. Jejuar é tomar sobre si a cruz de Jesus. Esse movimento exterior de renúncia – quando movido pelas corretas motivações – projeta para dentro de nosso ser uma censura que obstacula a ação dos demônios criando liberdade. Libertação, com efeito é isso, é a ação que gera liberdade.

Pode parecer estranho para muitos que uma disciplina tão “carnal”, que se acontece na dimensão do nosso corpo como é o caso do jejum, possa influenciar nosso mundo interior e gerar libertação. É que freqüentemente nos esquecemos que o ser humano não é um ser dicotomizado, fragmentado, mas um ser integral. Com efeito, todas as suas múltiplas dimensões estão interligadas entre si, conectadas umas as outras. E assim, o que comemos ou deixamos de comer afeta diretamente nosso humor, nossa saúde, e mesmo nossa vida espiritual. O contrário também é verdade ou não é fato que as variações de nosso estado de humor e saúde interferem em nosso apetite? Jesus mesmo disse a seus discípulos que não fazia sentido eles jejuarem enquanto estivessem alegres pela presença do noivo, mas quando o noivo lhes fosse tirado, aí sim deveriam jejuar, pois a tristeza do coração inibe o apetite e enseja a prática do jejum.

Mas agora cumpre perguntar: para que serve a oração nesse processo? A oração serve para nos encher de Deus. Por meio do jejum nos esvaziamos e, através da oração, somos preenchidos pela presença poderosa do Espírito de Deus em nossa vida. E, dessa forma, somos revestidos de sua força extraordinária. Mediante o jejum e a oração enfraquecemos nosso “eu” refém da ação demoníaca – o velho homem, como diria o apóstolo Paulo – e fortalecemos nosso “eu” espiritual ligado à pessoa divina – o novo homem que somos em Cristo Jesus. Assim, experimentamos finalmente verdadeira libertação.

Em resumo: demônios existem e exercem grande influência em nossas vidas. Contudo, ela pode ser maior ou menor segundo a consciência que temos da mesma e a postura que assumimos no tocante ao seu enfrentamento. Ninguém se engane: precisamos enfrentar nossos próprios demônios sob pena de nos perdermos se não o fizermos. Nesse sentido, o melhor caminho que conheço é o ensinado por Jesus: nomear cada demônio, depois cultivar o jejum e a oração. Esse caminho de libertação serve também para vencer, inclusive, os demônios de Satanás. E nesse processo, vai emergindo, paulatinamente, nosso eu cada vez mais liberto e fortalecido. Sem isso, dificilmente temos condições de pronunciar nosso verdadeiro nome.

Anúncios

Epitáfio

Como você gostaria de ser lembrado?

 

Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira. (Rubem Alves)

 

Não estou pensando em morrer. Não mesmo. Mas tenho pensado acerca da morte. Tenho refletido sobre meu último suspiro; aquele depois do qual fecharei os olhos para abrir do outro lado e, finalmente, poder enxergar. Ver como sou visto. 

Há uma imensa sabedoria na morte. E aprender sobre ela revela-se inspiração para a vida. Devíamos planejar a nossa tragetória neste mundo de trás para a frente. Primeiro o fim, então o começo. Pois é a visão de como desejamos ser lembrados que melhor nos orienta sobre as escolhas que temos de fazer. Afinal, o fim que antevemos para nossa breve existência lança luz sobre as opções que temos diante de nós e nos indicam, desse modo, uma direção a seguir. De outra parte, também evita o trauma de ao final de tudo, constatarmos desiludidos: “Que vida foi essa que vivi? Se pudesse, faria tudo diferente!”.

Quando chegar para mim o dia derradeiro, não quero pronunciar essas palavras. Quero antes, como Cristo na cruz do Calvário, dizer: “Está feito”. E render meu espírito a Deus com gratidão e dignidade. Apenas isso. Pois há muito desisitir de pensar que nasci para ser alguém extraordinário. Sou uma pessoa comum e anônima e estou em paz com isso. Se deixar uma pequena marca naqueles com quem convivi mais de perto, já basta. Não tenho a pretensão de escrever meu nome na posteridade. Estou safisteito em tê-lo no livro da vida. É assim gostaria de ser lembrado: como alguém que foi fiel a si mesmo, ao que acreditava, a quem amou e a Deus.

Provavelmente não me ocuparia de tais pensamentos se não tivesse lido com toda igreja o livro “Um mês para viver”. Lemos a obra enquanto jejuávamos e oravámos buscando discernir os caminhos de Deus para nossas vidas pessoais e comunitária. O fizemos na convicção de que tal reflexão nos levaria há uma profunda reorientação de vida e correção de rumo enquanto ainda há tempo. Nesse intuito, ao final dos 30 dias de leitura, fizemos um exercício poderoso: convidamos a todos que escrevessem o próprio epitáfio. No domingo seguinte, aqueles que desejaram, leram o seu breve texto para toda a igreja enquanto celebrávamos a Santa Ceia. Compartilho aqui o que escrevi e li, comovido,  para meus irmãos e irmãs na esperança de viver à altura de cada palavra:

Aqui jaz Leandro Marques.

Esposo amado e amável. Pai sábio e presente. Amigo verdadeiro. Servo fiel. Um homem bom.

Esforçou-se por viver a vida de acordo com o que entendeu do Evangelho, com o que acreditou ser verdadeiro e importante. Deu boas risadas e tentou não acreditar em tudo que diziam a seu respeito, fosse isso bom ou ruim. Buscou em tudo ser uma pessoa inteira. E transparente, na medida do possível. Amou a vida, o semelhante, e a Deus. Gastou-se pela causa do reino de Abbá. Fez o bem. Viveu e morreu como discípulo de Jesus Cristo.

Agora descansa em paz. E deixa saudades…

 

Vale a pena viver e não voar?

 

 
O homem sempre invejou os pássaros e quis voar

 

“Quem me dera ter asas como a pomba; voaria, voaria…” (Salmo 55:6)

 

Não cheguei a conhecer o Brian. Apenas vi uma foto dele voando de parapente. A foto, estampada nas camisas de cerca de 40 pessoas, era uma forma de homenagear o jovem que morrera num acidente quando sobrevoava a praia de Piratininga. Um vento forte o fizera perder o controle e cair sobre os fios da rede elétrica. Morreu instantaneamente.

Naquela manhã de céu claro e poucas nuvens, sol forte e nenhum vento, estávamos reunidos num círculo solene no centro da rampa do Parque da Cidade a fim de nos despedir do rapaz. Eu estava lá como convidado. Fiz a reflexão que precedeu as homenagens e as palavras de despedida. Lembro-me de ter lido um versículo de Eclesiastes e logo ter colocado a pergunta: “Vale a pena viver e não voar?”.

Essa era, me pareceu, a síntese filosófica e o legado da vida – e morte – de Brian. Foi o que captei de tudo o que busquei ouvir sobre ele. Contaram-me que desde sempre ele quis voar. Mas devido a um pequeno defeito nas mãos, não poderia fazê-lo. Era arriscado demais – diziam-lhe. Seu pai, zeloso, batia na mesma tecla. Brian, porém, não se importava. Sabia que arriscado mesmo era não voar. Arriscado era viver sem jamais tirar os pés do chão. O verdadeiro perigo consistia em passar pela vida sem jamais alçar voô. Por isso Brian nunca deu ouvidos aos que tentavam demovê-lo de perseguir o que sentia como sua vocação.

Persistente, foi capaz de convencer um velho instrutor de voô a treiná-lo. Concordaram que precisaria de um dispositivo que lhe permitisse maior controle do parapente. Uma vez comprado o aparelho, aprendeu logo a manuseá-lo. O velho instrutor que lhe tomara sobre as asas era o melhor de todos. E ele, o mais disciplinado aprendiz. Como de praxe, voou primeiro acoplado ao corpo de seu mestre. Depois, passou a voar sozinho.

A morte de Brian foi um infortúnio. Aconteceu com ele como poderia ter acontecido com qualquer outro. O rapaz controlava com perícia seu planador e executava as manobras com  cautela e inteligência. Mas num sábado – numa daquelas tardes de céu avermelhado – um vento forte e súbito o arrastou para seu destino final; exatamente como seu pai temia.

Embora precoce e dramática, a morte de Brian teve algo de confortante: ele morreu fazendo o que mais amava. Morreu como desejava ter vivido. O garoto voador despediu-se da vida nos ares, olhando-a de cima. Seu corpo não foi sepultado. Não merecia. Não pertecia a terra. Por isso suas cinzas foram lançadas ao vento sobre as águas da Baía de Guanabara. Foi uma cena extraordinária: acoplado ao velho instrutor, o pai enlutado disse adeus ao filho num voô derradeiro. E o entregou a Deus.

Falei pouco naquela manhã. Não conhecia o Brian e nada entendo de parapentes. Nunca saltei ou voei num daqueles planadores coloridos. Mas confesso que naquele dia, após o que ouvi e vi, fui seduzido pela idéia. Entendi que precisava voar. Quem não precisa? Curiosamente, o perigoso esporte radical tornou-se para mim a mais bela metáfora para a aventura de viver. E então conclui: não; não vale a pena passar a vida preso ao chão. O suspiro do salmista por asas, tornou-se de repente, minha prece mais sincera, minha mais profunda oração.

 

A contagem do tempo

Como B. Button, todos nascemos idosos

 

“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos a sabedoria” (Sl 90:12)

 

Não sabemos contar o tempo. Em nossos calendários, cada dia que passa é contado como um dia a mais. O mesmo ocorre em relação aos meses do ano: vão crescendo sucessivamente de 1 a 12; como as horas de um relógio. Obedecendo esta mesma lógica, a cada aniversário que completamos, acrescentamos mais uma vela ao bolo e um ano à idade da gente.

Mas o tempo não funciona assim. Ele opera segundo uma outra lógica. Não ganhamos tempo a medida que ele passa. Não acumulamos dias e anos. Nós os perdemos. Cada dia a mais é, na verdade, um dia a menos. Não tenho os anos que minha idade sugere. Estes são os anos que já não tenho mais. Como bem disse Rubem Alves: são “fósforos riscados”. O tempo que realmente tenho, não é tão simples de contar. O dia de amanhã é apenas uma possibilidade.

A rigor, o tempo se conta de forma decrescente. A medida que ele passa, diminuem os anos que temos. Como Benjamim Button, todos nascemos idosos, cheios de anos. Ironicamente, no instante mesmo em que nascemos, começamos também a morrer. Pois, imediatamente, todo o tempo que temos – sem que saibamos quanto – passa a fugir de nós. Como nuvem em meio ao vendaval, ele vai se dissipando velozmente. Nas palavras do salmista: “a vida passa depressa e nós voamos” (Sl 90:10).

Nesta complexa equação da existência terrena, a grande incógnita é, sem dúvida, o dia de nossa morte. Contamos o tempo de forma equivocada porque desconhecemos o dia de nosso último suspiro. Se ao nascer, recebêssemos também uma certidão de óbito, tudo ficaria mais fácil. Poderíamos planejar com segurança nossa vida contando os anos de forma regressiva. Mas aí não teria graça. Viver seria como um assistir filme cujo final já conhecemos de antemão. A beleza da vida reside precisamente no fato de que ela é aberta, como um poema que vai sendo escrito a medida que surge a inspiração.

Mas acaba que tal abertura nos é conveniente. Como, no nível prático, rejeitamos a idéia de vamos morrer – haja vista nossa incontestável obsessão com a juventude – pensamos enganar a morte contando nossos anos para cima, de forma crescente. Preferimos pensar em termos de longevidade a pensar em termos de finitude. Mas afinal estes expedientes se revelam ineficazes. Pois não há mesmo para onde correr: todos caminhamos em direção ao fim inevitável. E insuspeito.

Talvez aí resida o segredo da sabedoria: viver com a consciência de que se está morrendo. Não é verdade que muitas pessoas passam a viver com intencionalidade apenas quando descobrem que estão prestes a morrer? Quantos não mudam completamente suas prioridades após o diagnóstico de um câncer? Ou após sobreviverem a um acidente, seja ele automobilístico ou cardiovascular? Tais experiências-limite nos recordam de nossa mortalidade. Elas berram aos nossos ouvidos: somos efêmeros! É precisamente esta consciência que nos permite “alcançar a sabedoria”. Pois já não há como viver de forma displicente quando se sabe que a morte se avizinha. Nascemos para vida quando nos conscientizamos de que vamos morrer. Daí que o salmista ore a Deus: “ensina-nos a contar os nossos dias”.

No espírito da oração acima, faço aqui uma sugestão: substituamos nossos modernos relógios pelas antigas ampulhetas. Pois elas, melhor que ninguém, compreendem a lógica segundo a qual o tempo trabalha. Enquanto nossos relógios nos empurram apressadamente para frente supondo que há sempre mais tempo para agendarmos ainda um outro compromisso, a ampulheta nos faz parar para pensar: quanto tempo ainda me resta? Ao invés de perguntar: “o que mais posso fazer?”, indaga: “do que preciso abrir mão para não negligenciar o que é essencial?”.

Em meio à correria desta nossa vida urbana e pós-moderna, a ampulheta nos ajuda a lidar com o tempo de maneira sábia, pois o conta de forma decrescente e poética, exatamente como a vida se desenrola diante de nós. Ainda mais: sempre que a viramos ao romper de cada novo dia somos recordados: todo o tempo que temos é o dia de hoje. O dia de ontem não nos pertence mais e o amanhã pode ou não existir. Vive com sabedoria quem vive um dia de cada vez.

Vida nova, ano novo

 

“Se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17)

Assim reza o ditado popular: ano novo, vida nova. Há, sem dúvida, enorme sabedoria nestas palavras. Afinal, simbolicamente, a virada do calendário representa para todos nós a sempre bem-vinda oportunidade de nos redimirmos das faltas cometidas ao longo do ano que se foi. Mas é isso que acontece mesmo?

Ano novo não é garantia de vida nova. Se no nível simbólico a virada de um ano para outro representa a possibilidade de reinventarmos nossas vidas, no nível concreto da experiência cotidiana, é a novidade de vida que nos abre a possibilidade de um ano de fato novo. Sim, é a transformação da vida interior que enseja o ano realmente novo, diferente, outro em relação ao ano que ficou para trás. Pois quando a vida não muda, quando não há novidade na atitude diante dela, na forma como se encara e interpreta cada vivência, como se percebe e se relaciona com as pessoas, o novo ano que se desdobra diante de nós acaba não passando de um decepcionante deja-vú. Ora, a virada do calendário não pode fazer muito mais do que recordar-nos da urgente necessidade de buscarmos esta mudança primeira, anterior, interior, esta novidade de vida sem a qual a melancólica sentença do pregador de Eclesiastes se impõe sobre nós de modo inexorável: “O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol” (Ec 1:9). 

Escrevendo aos crentes da cidade de Corinto, o apóstolo Paulo revela o segredo bendito que realiza tal transformação interior: “se alguém está em Cristo”, ele diz, “é nova criatura”. Note que ele não diz “se Cristo está em alguém”, pois esta realidade está dada. Cristo, por meio de seu Espírito que foi derramado no dia de Pentecostes, habita em todos nós, suas criaturas e filhos por adoção. Sim, ele vive nos corações de todos os homens e todas as mulheres. A pergunta – e realidade a qual o apóstolo se refere – é: estamos nós em Cristo? Pois é quando estamos nele, assim como ele está em nós, que a transubstanciação da vida se dá. É quando acolhemos sua presença em nós assim como a terra recebe e absorve as águas das chuvas, que o milagre acontece: a vida muda de dentro para fora e floresce distinta e bela; numa palavra: nova.

Com efeito, Cristo está em nós, somos santuário e morada de seu Espírito e sua presença misteriosa e sublime em nossas vidas torna-nos aptos ao amor, ao trabalho, à oração, à comunhão, à solidariedade, ao arrependimento e às demais experiências desta singular aventura que é a vida. Mas é nossa presença nele, nossa abertura e sujeição ao agir de seu Espírito, nossa imersão no mistério de sua pessoa que nos permite experienciar o conhecido, o ordinário, o corriqueiro da vida como algo revestido de novidade. Quanto mais nossa vida está contida na vida de Cristo, quanto mais habitamos e existimos nele e por ele, tanto mais novidade há em nosso viver, pois em Cristo e por meio dele tudo se transfigura e se faz novo. Mesmo a velha rotina se reveste de uma renovada beleza, de uma transcendência inédita e surpreendente.

Enfim, não é a chegada do ano novo que garante a vida nova, mas a vida nova em Cristo que nos assegura um ano de fato novo. Pois a novidade não reside na substituição de certas experiências por outras, mas na maneira como cada experiência é vivida e significada. Para quem está em Cristo – e é nova criatura nele –, tudo é, de alguma maneira, sempre novo. Feliz 2016!

O que fazer quando não sabemos o que fazer?

Na dúvida, o melhor a fazer é ficar parado em oração
Na dúvida, o melhor a fazer é ficar parado. E orar.

 

“Então veio o Espírito do SENHOR no meio da congregação e disse: Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a batalha não é vossa, mas de Deus. Amanhã […] não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o livramento que o SENHOR vos dará,” (2Cr 20:15-17)

 

Todos já nos deparamos com situações diante das quais não sabíamos como proceder. De fato, o inusitado tende a nos imobilizar, sobretudo, quando nos surpreende negativamente. Atônito e tomado pela perplexidade, quem sabe discernir o caminho? Emerge então a pergunta: como reagir diante daquilo que nos pegou de surpresa? O que devemos fazer quando não sabemos o que fazer?

A narrativa de 2Cr 20:1-30 lança luz sobre esta questão ao relatar a experiência vivida por Josafá, rei de Judá, quando tomou conhecimento da invasão planejada pelos amonitas e moabitas contra o seu reino. Conta a historiografia sagrada que diante da perturbadora notícia, Josafá teve medo e pôs-se a buscar o Senhor em oração: “Ah! Nosso Deus […] em nós não há força para resistirmos a essa grande multidão que vem contra nós, e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti” (v.12). A resposta divina à oração do rei de Judá foi surpreendente e emblemática: “ficai parados e vede o livramento que o Senhor vos dará” (v.17).

Com base na experiência do rei Josafá, podemos concluir que a coisa mais sábia a fazer quando estamos perplexos e desorientados é justamente não fazer nada. Com efeito, diante do inesperado, do não-previsto, ninguém deve, de imediato, tomar decisão alguma, optar por nenhum caminho, tentar resolver qualquer problema sob pena de pecar por precipitação (como aconteceu com Abraão que tentou solucionar o problema da esterilidade de Sara fazendo um filho Hagar – um equívoco cujas trágicas conseqüências se arrastam até hoje). Ao invés de agir por impulso, instinto, ou no calor da emoção, quem se descobre confuso e fragilizado deve “ficar parado”, em oração, com o olhar fixo em Deus, exatamente como fez o rei Josafá (v.12).

Embora algumas pessoas insistam em repetir que há casos em que a oração de nada adianta, onde sem uma ação paralela ela não tem nenhum sentido ou eficácia, orar é realmente o melhor que podemos fazer quando não sabemos o que fazer. Disto é possível estarmos certos: orar nunca é inútil. Pois como a Palavra de Deus, a oração não volta vazia. Nas palavras do próprio Senhor Jesus Cristo: “todo o que pede recebe” (Mt 7:8).

Muito provavelmente, as pessoas que pensam deste modo sobre a oração não compreenderam ainda um de seus segredos mais maravilhosos: ela é porta para fora do labirinto da dúvida e a chave da vitória. Pois, através da oração, desviamos o nosso olhar das adversidades e dos inimigos concentrando-o Naquele de onde vem o discernimento, o sábio conselho, e, finalmente, a salvação. Não foi esta a experiência de Pedro quando caminhava sobre as águas? Enquanto tinha os olhos fitos em Jesus, avançava sem mais. Todavia, quando parou para notar o vento forte e as ondas, afundou. A lição que aprendemos com a experiência de Pedro é a mesma que aprendemos com a de Josafá: quem mantém o olhar em Deus caminha sobre as ondas da vida e não se deixa abater pelo vento contrário. E nada melhor para manter o nosso olhar em Deus do que a oração.

Na seqüência da narrativa de 2Cr 20, Deus confunde os inimigos de Josafá fazendo-os lutar entre si até se aniquilarem mutuamente. A Josafá e ao povo coube apenas passar recolhendo os despojos. Eis aqui a boa-notícia: Deus também faz conosco o que fez ao rei de Judá: instrui-nos, segue a nossa frente e nos garante a vitória. A parte que nos cabe é tão somente ficar parados em oração mantendo todo tempo o olhar fixo Nele. Afinal, como afirma o texto bíblico, a “batalha não é nossa, mas de Deus” (v.15); e Ele a peleja por nós. Recordemo-nos sempre desta verdade.

A oração mais sábia

Não precisamos tanto de descanso quanto de renovação
Não preciso tanto de descanso, mas de renovação

 

“[…] os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40:31).

 

O ritmo de nossas vidas é extremamente acelerado. As 24 horas do dia nunca são suficientes para tudo o que precisamos fazer. São muitas as camisas que temos de vestir. No meu caso, a de pai, marido, pastor, provedor, conselheiro, mestre, líder, capelão, amigo, filho, discípulo, pregador, administrador, etc. Todas estas demandas requerem enorme energia e uma alta capacidade de fazer malabarismos. (Sinto-me, muitas vezes, como aqueles meninos  jogando limões nos sinais de trânsito preocupado em não deixar nenhum deles cair).

Quando chega o fim do dia – ou da semana, ou do mês – o cansaço é brutal. Fomos além de nosso limite e, ainda assim, muita coisa ficou por ser feita. Vencido pela fadiga, nosso corpo se rende à preguiça e ao sono. A única oração que sabemos fazer é: eu preciso descansar. Mas mesmo para isto, o tempo não parece ser suficiente. Comentando sobre um livro que leu, um amigo me disse, dias atrás: nosso problema, na realidade, não é falta de tempo, mas falta de energia. Estamos exaustos não porque nos falte tempo para tudo o que precisamos fazer, mas porque concentramos nosso tempo nas atividades que mais nos roubam energia e deixamos de fazer justamente aquelas coisas que tem o poder de renovar a nossa energia.

Imediatamente, me lembrei do Pastor Pablo, missionário de nossa igreja no Peru. No ano passado, quando esteve na Igreja Betânia, ele relatou que após cinco anos no campo missionário servindo a Deus com grave escassez de recursos humanos e materiais, seu coração estava desanimado, seu corpo exausto e sua mente fixa na idéia de parar. Ele estava a ponto de desistir de tudo. Incessantemente, repetia para Deus: “Da-me um tempo de descanso”. Até que Deus falou-lhe ao coração: “Pablo, meu filho, você não precisa de descanso, você precisa de um renovo. Eu vou te renovar”.

Lembrei-me destas palavras como se Deus as tivesse dizendo para mim. E logo constatei que minhas orações estavam equivocadas. Mais sábio do que orar por descanso é orar por renovação. Até por que os limões continuam no ar e não podemos permitir que caiam ao chão. Por isto, tenho buscado este aprendizado. Quero orar desta forma a cada dia: “Renova-me, Senhor; renova as minhas energias. E ajuda-me a discernir as minhas reais prioridades. Livra-me de gastar meu tempo apenas com o que rouba as minhas forças e me permite-me não negligenciar aquelas pequenas coisas sagradas que me enchem a alma e trazem alegria”.

Em meio à loucura desta nossa vida pós-moderna, urbana, e hiper-acelarada, orar por renovação é, não apenas uma necessidade, mas também um ato de lucidez e de sabedoria. De outra parte, é igualmente importante passar em revista nossos hábitos e rotinas. E então prosseguir.

Que Deus nos renove hoje e a cada dia.

O que é jejum?

Nos esvaziamos para nos enchermos de Deus
Jejuar é auto-esvaziar-se para ficar cheio de Deus

Jejum é disciplina. É uma forma de domínio próprio, de auto-controle, de temperança. Jejuar é vacinar-se ou medicar-se contra a gula. É domar espiritualmente os nossos apetites pecaminosos e caminhar na direção do contentamento e da generosidade.

Embora seja óbvia a identificação do jejum com a abstinência de comida, não é óbvia a realidade de que jejuar não tem a ver apenas com os nossos hábitos alimentares. Afinal, assim como a gula diz respeito a vida como um todo, também o jejum.

Teologicamente falando, a gula é aquela insatisfação crônica que nos faz querer sempre mais. Não importa do que se trate: comida, dinheiro, sexo, poder, sucesso, admiração, prazer, conhecimento, autonomia, notoriedade… O guloso é aquela pessoa insaciável, que não consegue dizer “não” a concupiscência dos olhos, e que por este motivo é refém do próprio desejo desenfreado.

O jejum, então, é um recurso espiritual através do qual lutamos contra a gula, mortificamos a nossa carne e dominamos o nosso desejo. Jejuar é pregar na cruz de Jesus os nossos apetites doentios oferecendo nossas vidas a Deus como oferta agradável. Jejuamos para nos esvaziarmos de nós mesmos e nos enchermos de Deus.

Em Mateus 6:16-18, vemos Jesus ensinando os seus discípulos sobre o jejum. Logo na seqüência (Mt 6:19-21), ele os orienta quanto ao alto risco de acumularem para si “tesouros na terra” (bens materiais e simbólicos) aconselhando-os a ajuntarem “tesouros nos céus” (bens espirituais).

Há quem diga que estas duas passagens não se relacionam, que a ligação entre elas é artificial. Eu discordo. Segundo entendo, elas estão intrinsecamente relacionadas. São parte de um todo monolítico e orgânico que não pode ser separado. Pois ao relacionar jejum com acumulação de bens materiais e simbólicos, Jesus revela o sentido básico e o dinamismo fundamental desta prática espiritual tão mal-compreendida entre nós: a abstinência (em oração) é o único antídoto eficaz contra a voracidade de nosso desejo. Com efeito, quanto mais jejuamos, mais nos damos conta do quanto estamos supridos (Dt 8:3), e assim aprendemos a nos contentar com o que possuímos e já alcançamos ao longo na vida. Por conseguinte, nosso desejo compulsivo é enfraquecido ficando cada vez mais fácil mantê-lo controlado de forma que não nos cause dano, mas seja saudável.

Porém este é apenas um lado da moeda do jejum. Pois jejuar é mais do que somente aplacar o nosso apetite de bens materiais e simbólicos. Jejuar é, ao mesmo tempo, agir pro-ativamente na acumulação de bens espirituais. Ora, acumulamos bens espirituais na medida em que, por amor a Deus e em oração, nos abstemos de acumular bens materiais e simbólicos para compartilhá-los com outras pessoas menos favorecidas. Este é o critério definitivo do jejum que agrada a Deus (Is 58:3-8). E é também o instrumento aferidor que nos possibilita saber onde está o nosso coração – se nos céus (nos valores do Reino de Deus) ou nas coisas desimportantes deste mundo.

Esta era a questão envolvendo o jejum praticado pelo povo de Israel nos dias do profeta Isaías. Embora tentassem dar a entender o contrário, na verdade, eles não jejuavam para dominar o gula e encontrar satisfação em Deus, mas o faziam buscando justamente o oposto: acumular “tesouros na terra” onde, de fato, se encontrava o coração deles. “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta?” – perguntava o povo. “Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho” – respondeu-lhes o Senhor (Is 58:3). Ao que ainda acrescentou:

Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? (Is 58:6-7)

Diferentemente do que o povo de Israel acreditava, para Deus, o jejum não se restringia a uma experiência de renúncia e abstinência, mas, muito para além disto, constituia também uma experiência de generosidade e abertura para o outro. Pois quem aprende a dominar a gula e encontrar satisfação em Deus, passa a viver de forma simples e altruísta, uma vez que já não vive escravizado pela preocupação com o que haverá de comer, beber ou se vestir (Mt 6:30-33).

Dito de outra forma: o jejum que Deus esperava que seu povo praticasse não consistia em uma experiência ritual de sacrifício e auto-flagelação. De outra parte, também não se resumia em um esforço espiritual para aplacar a voracidade de nossa gula por bens materiais e simbólicos, mas requeria também um componente ético indispensável: a acumulação de bens espirituais através da generosidade para com o semelhante.

É possível concluir pelo exposto acima que o jejum é uma disciplina espiritual (abstinênia) que, aliada à oração, nos ajuda a subjugar o nosso desejo insaciável tornando-nos conscientes de nossa abundância e nos permitindo experimentar satisfação e contentamento em Deus. Através dele, Deus nos livra da frenética corrida da acumulação egoísta abrindo-nos para as necessidades de nossos semelhantes. Aqui já não importa o que falta ao outro: paz, comida, dinheiro, alegria, liberdade, afeto, salvação… Se eu tenho em abundância, posso repartir para que meu irmão tenha, ao menos, o mínimo necessário.

É este amor concreto enraizado em Deus que confere à abstinência de comida – ou de qualquer outra coisa – um sentido religioso. Se faltar este elemento, o jejum não será nada mais do que meramente uma experiência de privação.

Até quando, Senhor?

A esperança que se adia adoece o coração
A esperança que se adia adoece o coração

Oração é algo misterioso. Nasce no coração dos seres humanos e floresce diante de Deus. A um só tempo, conhece a alma das pessoas e a face do Senhor. Daí que implique reverência, nudez radical e silêncio. O espírito humano se exprime diante de Deus através da oração.

O Salmo 13 é uma oração belíssima que nasce da tensão entre os largos tempos de Deus e o imediatismo próprio dos seres humanos. Ele é o testemunho de uma alma que percorre na oração o caminho que vai do sofrimento gerado por circunstâncias desfavoráveis ao louvor suscitado pela certeza da bondade divina. Tal caminho é princípio de cura que restaura a alma adoecida pela esperança que tarda em se cumprir. Como veremos, ele consiste em três movimentos internos que aprendidos podem nos fazer mais resistentes no dia da angústia e, finalmente, restituir-nos a alegria.

O primeiro dos três movimentos deste caminho é aquele que vai do sofrimento à lamentação (v.1-2). O salmista não nega sua dor. Ele a admite; a sofre intensamente. Sua aflição é como a nossa: dói para valer. Ele se sente sufocado pelo inimigo que o persegue (v.4) e quatro vezes indaga ao céus: “até quando, Senhor?”. Sua demanda é urgente, mas Deus não tem pressa -parece brincar de esconde-esconde. Pior que a própria adversidade, é sentir-se esquecido por Deus – “Até quando ocultarás de mim o teu rosto?”. Tal conjuntura insustentável move o salmista a queixar-se em oração de forma ousada: “Esquecer-te-ás de mim para sempre?”. Ao invés de ficar murmurando a má sorte que o acomete, ou de encher os ouvidos dos outros com queixumes, o salmista se lamenta aos pés do Senhor. Tal atitude, por estranha que possa nos parecer (quem é o homem para falar assim com Deus?), é justamente a atitude que o Pai espera de nós. Afinal, Ele o único que pode de fato mudar a nossa situação.

O segundo movimento deste caminho de cura é aquele que vai da lamentação à súplica (v.3-4). A conjuntura na qual o salmista se encontra é crítica, mas ele deseja superá-la e viver. Seu lamento, por conseguinte, desemboca numa súplica insistente diante do Senhor: “ilumina-me os olhos”. O salmista precisa enxergar alternativas para sua luta e ter certeza da ação de Deus a seu favor, pois sente-se abandonado. Seus olhos estão cerrados pela angústia como acontece muitas vezes com qualquer um de nós. Somente a luz que irradia do olhar do Pai pode devolver-lhe a esperança. Daí ele orar: “Atenta para mim”. O fato de Deus olhar para nós é prova da sua graça e metáfora do seu favor. Justamente por esta razão é que, em determinados momentos de nossas vidas, nada nos é mais caro do que tal convicção (Sl 17,8). A certeza do olhar de Deus sobre nós é garantia do quanto nossa vida tem importância para Ele e fundamento de esperança que nutrimos de que Ele agirá misericordiosamente em  nosso favor.

O terceiro movimento é aquele que vai da súplica ao louvor (v.5-6). Chama atenção nos versículos finais do Salmo, a súbita  mudança de tom (do desespero para a serenidade).  A súplica veemente e angustiada parece ter produzido no salmista uma nova disposição para enfrentar a problemática com a qual se depara. A ruptura é abrupta e evidente, mas o quê de fato mudou? Nada no salmo nos faz pensar que a situação tenha sido resolvida ou contornada. Porém, o coração do salmista é outro. Já C.S. Lewis dizia: “Minhas orações não mudam a Deus, mas a mim”. Após queixar-se honestamente diante de Deus e de buscar nele o socorro, sua confiança  parece inabalável. As escamas caem de seus olhos permitindo-lhe perceber que, a despeito de tudo, o Senhor tem estado sempre a seu lado. Ele então termina o salmo com um voto de louvor e reconhecimento: “cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”.

Como se deu com o salmista, também em nossa experiência diária somos, vez por outra, solapados por sentimentos de abandono e desamparo por parte de Deus. Vivemos nossas crises sozinhos, pois não percebemos a presença de Deus a nossa volta. Ainda que não tenhamos a coragem de verbalizar, nos perguntamos: “Senhor, até quando?”. Em momentos assim, por meio da oração honesta e ousada, podemos perceber novamente o olhar de Deus sobre nós e, pela fé, confiar que sua mão se movendo em nosso favor, mesmo que as circunstâncias digam que o contrário. Ao final, estaremos também aptos a levantar aos céus um canto de esperança (louvor) ao som do qual seguiremos nosso caminho na certeza inexorável de que não estamos sós.

Meus filhos também ouvem as minhas orações

Deus não é o único atento às nossas orações
Deus não é o único atento às nossas orações

Todas as noite, sigo o mesmo ritual: escovo os dentes das crianças, levo-as para o quarto, leio uma historinha ou duas, e, finalmente, faço uma oração que começa sempre da mesma maneira: “Obrigado, papai do céu, porque Hugo e Theo são meninos  inteligentes, fortes, saudáveis, e amigos de Jesus”. Depois, então, eles dormem.

Embora Cristo  nos oriente a fugir das “vãs repetições” quando oramos, sempre que tenho este momento com os meninos, repito estas palavras diante de Deus com a disciplina de quem conduz um tratamento à base de homeopatia. Minha esperança é que não apenas Deus ouça o que digo, mas que meus filhinhos também ouçam tais palavras – e as guardem em seus corações.

Recentemente, fiquei sabendo através de minha sogra que minhas orações estão realmente sendo ouvidas. E que minha esperança não está sendo frustrada. Foi até engraçado. Era um domingo e nós estávamos na casa do meu sogro para um daqueles almoços em que se reúne toda a família. Aguardávamos um convidado especial que vinha comer com a gente.

Quando a campainha tocou, um dos meu sobrinhos correu para a porta e logo foi se apresentando: “Oi. Eu sou o Gabriel. Eu tenho seis anos e sou o neto mais velho”. Imediatamente depois dele, Hugo, meu filhinho primogênito, se aproximou do ilustre convidado e disse com naturalidade: “Oi. Eu sou o Hugo. Eu tenho quatro anos e sou o neto mais inteligente”. Só faltou mesmo o Theozinho chegar depois dizendo: “Oi. Eu sou o Theo. Eu tenho 3 anos e sou amigo de Jesus”.

Esta história singela e bem-humorada confirma e ilustra uma verdade da qual nunca duvidei: nada do que digo para Deus na presença dos meus filhos ou nada do que digo para os meus filhos na presença de Deus, se perde. Antes, cada palavra cumpre o seu destino como uma semente lançada ao solo que finalmente floresce e frutifica. Ora, não é apenas Deus quem ouve nossas orações. Nossos filhos também as ouvem. E o melhor de tudo: o que ouvem determina o que pensam acerca de si mesmos.

Que Deus nos dê sempre boas palavras. E que nunca deixemos de orar com os nossos filhos…