A ressurreição e o ano novo

A ressurreição nos abre o futuro de Deus

É certo pensar que o conjunto de nossas experiências passadas nos diz muito acerca de quem somos e do porquê hoje nos encontramos neste ponto de nossas vidas. Importa esclarecer, todavia, que não é tanto o passado que determina o caminho de nosso existir no mundo, mas sim o futuro. Na realidade, o que queremos ser no futuro tem maior influência sobre nossas vidas do que aquilo que somos hoje ou já fomos um dia. Isto nos sugere as Escrituras quando afirmam “o justo viverá por fé”.

Viver por fé, com efeito, significa viver a partir de uma realidade que não possuímos, de algo que ainda não nos pertence, que nos foge ao tato, mas que nos convida a caminhar. Viver por fé significa, assim, viver seduzido por uma esperança, por uma promessa, por um desejo de chegar. A vida inteira projetada num único suspiro.

Segundo afirmação da teologia cristã, o suspiro profundo do coração humano é contemplar o rosto de Deus: vê-lo como somos vistos. Esta é nossa fome básica, nosso anseio fundamental. Vivemos, de fato, ainda que inconscientemente, em busca de sua face. Sim, vivemos em busca de Deus, fonte e destino da vida! Por trás de todos os nossos projetos, de todos os nossos amores, de todos os nossos desejos de consumo, de todas as nossas lágrimas, e mesmo por trás de toda nossa luta neste  mundo de contradições, subsiste um impulso incontrolável por  encontrá-lo. Fora  dele,  que  sentido  tem  a  vida? Fora dele, há vida? Por isto o queremos tanto: desejamos viver, viver para sempre. Desejamos viver de forma abundante, plena, como a ressurreição nos permitirá.

Infelizmente, falamos pouco sobre o tema da ressurreição. Isto porque quase não falamos sobre um outro tema de importância igualmente capital: a cruz. Esquecemo-nos, assim, sem mais, do clímax da história, do acontecimento único no tempo que nos abriu futuro e a eternidade: em um homem pobre e simples, Deus mesmo passou entre nós levando consigo a chave da morte vencida na cruz e na ressurreição. Com base nisto confessamos: não existe mais morte e vida, mas somente vida e ressurreição. Em Jesus, a vida não terá um fim, mas um futuro. Quando perdemos isto de vista, tudo a nossa volta cheira a mofo e perde a cor. Com efeito, a fé na cruz-ressurreição de Jesus nos permite, já agora em vida, ressurgir, nascer de novo, tentar outra vez. Pouco importam as frustrações e fracassos de outrora. Ele fez – e faz – novas todas as coisas. Crer em Jesus Cristo implica viver em constante renovação de vida.

Concretamente, isto quer dizer que a pessoa que eu hoje sou não é simplesmente o resultado dos passos de um tempo que ficou para trás, mas é, sobretudo, misericórdia e graça do senhor que me permitiu chegar até aqui e agora me convida a fazer diferente. Hoje é, portanto, oportunidade e kairós de Deus para mim. A fé na cruz-ressurreição me convida a sonhar, a caminhar em uma nova direção. Agora sei onde posso chegar, e por isso saberei escolher o caminho. Não é o passado, afinal, que me dirá para onde estou indo, mas o futuro aberto e garantido pela cruz-ressurreição de Cristo.

Que neste novo ano nós possamos ressuscitar muitas vezes e nascer sempre outra vez para vida que Deus tem para nós. Que, ao lado disto, nos sejam concedidos novos sonhos que nos animem a seguir em frente. E, finalmente, que nossa alma transborde de alegria. Feliz ano novo!

Vida nova, ano novo

 

“Se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17)

Assim reza o ditado popular: ano novo, vida nova. Há, sem dúvida, enorme sabedoria nestas palavras. Afinal, simbolicamente, a virada do calendário representa para todos nós a sempre bem-vinda oportunidade de nos redimirmos das faltas cometidas ao longo do ano que se foi. Mas é isso que acontece mesmo?

Ano novo não é garantia de vida nova. Se no nível simbólico a virada de um ano para outro representa a possibilidade de reinventarmos nossas vidas, no nível concreto da experiência cotidiana, é a novidade de vida que nos abre a possibilidade de um ano de fato novo. Sim, é a transformação da vida interior que enseja o ano realmente novo, diferente, outro em relação ao ano que ficou para trás. Pois quando a vida não muda, quando não há novidade na atitude diante dela, na forma como se encara e interpreta cada vivência, como se percebe e se relaciona com as pessoas, o novo ano que se desdobra diante de nós acaba não passando de um decepcionante deja-vú. Ora, a virada do calendário não pode fazer muito mais do que recordar-nos da urgente necessidade de buscarmos esta mudança primeira, anterior, interior, esta novidade de vida sem a qual a melancólica sentença do pregador de Eclesiastes se impõe sobre nós de modo inexorável: “O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol” (Ec 1:9). 

Escrevendo aos crentes da cidade de Corinto, o apóstolo Paulo revela o segredo bendito que realiza tal transformação interior: “se alguém está em Cristo”, ele diz, “é nova criatura”. Note que ele não diz “se Cristo está em alguém”, pois esta realidade está dada. Cristo, por meio de seu Espírito que foi derramado no dia de Pentecostes, habita em todos nós, suas criaturas e filhos por adoção. Sim, ele vive nos corações de todos os homens e todas as mulheres. A pergunta – e realidade a qual o apóstolo se refere – é: estamos nós em Cristo? Pois é quando estamos nele, assim como ele está em nós, que a transubstanciação da vida se dá. É quando acolhemos sua presença em nós assim como a terra recebe e absorve as águas das chuvas, que o milagre acontece: a vida muda de dentro para fora e floresce distinta e bela; numa palavra: nova.

Com efeito, Cristo está em nós, somos santuário e morada de seu Espírito e sua presença misteriosa e sublime em nossas vidas torna-nos aptos ao amor, ao trabalho, à oração, à comunhão, à solidariedade, ao arrependimento e às demais experiências desta singular aventura que é a vida. Mas é nossa presença nele, nossa abertura e sujeição ao agir de seu Espírito, nossa imersão no mistério de sua pessoa que nos permite experienciar o conhecido, o ordinário, o corriqueiro da vida como algo revestido de novidade. Quanto mais nossa vida está contida na vida de Cristo, quanto mais habitamos e existimos nele e por ele, tanto mais novidade há em nosso viver, pois em Cristo e por meio dele tudo se transfigura e se faz novo. Mesmo a velha rotina se reveste de uma renovada beleza, de uma transcendência inédita e surpreendente.

Enfim, não é a chegada do ano novo que garante a vida nova, mas a vida nova em Cristo que nos assegura um ano de fato novo. Pois a novidade não reside na substituição de certas experiências por outras, mas na maneira como cada experiência é vivida e significada. Para quem está em Cristo – e é nova criatura nele –, tudo é, de alguma maneira, sempre novo. Feliz 2016!

Paternidade e sacerdócio

 

Com a paternidade vem o privilégio do pastoreio dos filhos.

Quando hoje penso sobre a minha infância, lembro-me do meu pai como a principal referência espiritual que tinha. A imagem dele ajoelhado à beira da cama orando no início do dia me acompanha até hoje. Lembro-me com carinho e saudade dos cultos domésticos que ele conduzia e dos dias de jejum. Lembro-me também (como esquecer?) do bordão que ele repetia incansável ao longo dos rebeldes e turbulentos anos de minha adolescência: “A Bíblia ensina que os pais devem inculcar nos filhos a Palavra de Deus (Dt 6,7). Inculcar. Sabe o que isto significa? Significa repetir até entrar na cabeça”. Posso ainda ouví-lo com clareza. Meu pai era – e continua sendo – um homem temente a Deus. De tudo que me deu na vida, nada foi ou será mais precioso do que este exemplo.

Alguém talvez pudesse alegar que estou escrevendo estas coisas apenas porque hoje celebramos o dia dos pais. Ora, num certo sentido, isto é verdade. Mas, no fundo, estou escrevendo estas linhas porque não posso evitar de fazê-lo. Não posso me eximir de falar sobre um exemplo que marcou tão decisivamente a minha vida quando a minha volta cresce o número de homens cujo compromisso espiritual com seus filhos se resume em levá-los à igreja. São homens crentes que por necessidade ou conveniência “tercerizaram” a formação espiritual de seu filhos delegando-a à igreja ou deixando-a inteiramente a cargo das mães.  

Há um relato belíssimo no livro de Jó que revela o compromisso que este homem possuia com a vida espiritual de seus filhos: “[…] chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles. Assim fazia Jó continuamente” (Jó 1,5). Como fica claro por esta passagem, na antigüidade, era dever do homem cuidar da vida espiritual de sua esposa e seus filhos ensinando-lhes as tradições familiares e a vida piedosa. O pai era assim a referência e a autoridade espiritual de toda a família. Ele era o sacerdote, o pastor de seus filhos e de toda sua casa. Portanto, esta compreensão atual da figura do pastor da igreja como o primeiro responsável pela formação espiritual das crianças e adolescentes da comunidade de fé é equivocada.

Não creio que estas noções sejam desconhecidas da maioria. Todavia, com freqüência, não as vemos em exercício nos lares cristãos por aí. É uma pena. Pois o exercício da paternidade constitui a principal oportunidade que Deus nos dá de nos transformarmos em pessoas melhores. Todos sabemos: educar consiste em encarnar o ensino que se busca transmitir a fim de que nossas palavras ganhem textura e longevidade nas vidas de nossos filhinhos. Como diz o famoso provérbio: “Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele”. Não se trata de mostrar o caminho, de indicá-lo, mas de trilhá-lo ao lado do seu filho. Ser a educação que se quer passar.

Aqui reside a oportunidade de transformação que a paternidade representa. Pois para ser exemplo para o meu filho, preciso primeiro mudar. E se a saúde espiritual do meu filho não for motivação suficiente para que eu busque em Deus esta transformação, o que será?

Que neste dia dos pais cada homem a quem foi dado o privilégio e a bênção da paternidade possa se voltar para o exemplo do meu pai – José Marques – e de tantos outros como ele para se inspirar e encontrar um norte para o qual possa seguir alegre e cheio de esperança.

Feliz Dia dos Pais.