Consumismo religioso

 

Consumidor insatisfeito: "O culto não me acrescentou nada"

 

“Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (Mq 6:8)

 

O consumismo é um fenômeno recente. Surgiu nas primeiras décadas do séc. XX. Antes disso, como bem apontou Max Weber, a lógica que regia a mentalidade das pessoas com relação ao dinheiro e aos hábitos de consumo era a lógica calvinista da poupança orientada pelo princípio da necessidade. Foi o advento da (1) produção em larga escala, da (2) propaganda e do (3) crédito, entre os anos de 1920 a 1940, que combinados levaram as pessoas a substituírem aquela lógica austera por uma outra de corte mais hedonista orientada pelo princípio do prazer, do bem-estar. Compra-se a partir de agora, não mais para suprir uma necessidade, mas pelo prazer de comprar, pelo bem-estar resultante da experiência da compra.

Em si, o ato de consumir não é negativo ou pecaminoso. Ao contrário: ele movimenta a economia, gera empregos, cria riqueza… Não há nada moralmente errado em consumir. O problema está no que hoje se tem chamado de hiperconsumo. É o comprar frenético, compulsivo, desconectado do princípio da necessidade e do bom senso. É o consumo como meio de obter satisfação e sentido para a vida. Eis aqui a diferença entre o consumidor e o indivíduo consumista: aquele consome visando suprir uma necessidade objetiva, este visando sanar uma demanda do ser, da subjetividade.

Esse ponto precisa estar claro: o consumista não está em busca do bem propriamente dito, mas da satisfação de adquirí-lo. A evidência disso é que ele compra inclusive o que não tem necessidade e, via de regra, o que sua condição financeira não lhe permitiria. Daí que viva sempre endividado. E entediado. Pois a satisfação advinda do consumo, embora real, é fugaz e passageira exigindo sempre novas e sucessivas doses.

O mais grave em tudo isso, porém, é o fato de o consumismo constituir uma lógica e, como tal,  transferir-se para outras esferas da vida das pessoas. Ninguém se engane: o indivíduo consumista não consome apenas bens materiais e mercadorias. Ele consome tudo: cultura, informação, relacionamentos, lazer, moradia, tecnologia, beleza, saúde, sexo, bem-estar e até religião.

Isso foi mais ou menos o que aconteceu com Israel nos dias do profeta Miquéias (Mq 6). O povo deixou de adorar e servir a Deus, para tornar-se consumidor de religião. Com efeito, o consumismo religioso o transformou num povo que se achava no direito de cobrar coisas de Deus enquanto viviam vidas tortas, cheias de pecado e impiedade. Mais que isso: os levou a acreditar que poderiam comprar o favor divino com sacrifícios e holocaustos (v.6-7). Em função de todo esse quadro, a espiritualidade daquela gente se desvirtuou perdendo sua força ética. Esse é o grande problema de nos tornarmos consumidores religiosos: perdemos de vista a exigência ética de transformação inerente a toda genuína experiência religiosa. E então passamos a consumir sermões, estudos bíblicos, louvores, reuniões de oração, livros evangélicos, retiros, etc., sem que essas coisas nos afetem, nos ajudem no processo de nos tornarmos pessoas melhores à semelhança de Cristo.

Não obstante a atitude do povo, Deus deixara muito claro o que esperava (v.8): que eles (1) praticassem a justiça, (2) amessem a fidelidade e (3) andessem humildemente com Deus. Como a lógica do consumismo religioso perverteu a compreensão dessas exigências na espiritualidade de Israel? Como ela perverte tais exigências em nossa espiritualidade hoje?

Primeiramente, a mentalidade consumista leva a pessoa de fé a identificar a exigência de praticar a justiça com o cumprir prescrições e ritos religiosos (v.3-5). Infelizmente, Israel conheceu isso. Nos dias do profeta Miquéias, o povo de Deus veio a acreditar que sacrificar carneiros e bezerrros era o mesmo que fazer o bem, que fazer valer o direito do orfão e da viúva, do pobre e da terra. Ele passou a crer que consumir rituais e freqüentar o templo equivalia a fazer a vontade de Deus, a ser justo diante de seus olhos. Esse é um grave desvio que a lógica do consumo provoca na experiência religiosa. Ele altera o quadro hermenêutico a partir do qual interpretamos a exigência ética de transformação social e política privatizando e espiritualizando a fé. Teria nossa clássica apatia e indiferença com relação a essas dimensões da vida algo a ver com isso? Cabe perguntar: não é assim que a maioria de nós evangélicos entende as célebres palavras de Jesus sobre a primordialidade do Reino: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33)? Não é verdade que compreendemos tal exigência em termos de leitura disciplinada da bíblia, vida de oração e freqüência assídua aos cultos? Não é assim que garantimos que “todas as coisas” nos sejam acrescentadas? Não estaríamos nós também contaminados por essa lógica consumista? Será que nos tornamos também consumidores de religião?

Em segundo lugar, a lógica do consumo distorce a vida de fé produzindo uma negligência em relação à exigência divina de fidelidade dando ensejo, por conseguinte, a idolatria (v.16). Ao contrário da religiosidade saudável que se compromete com Deus porque o ama, porque desejo contentá-lo e fazê-lo somente para ele, o consumismo religioso é volúvel e mesmo infiel. A causa disso é óbvia: o consumidor religioso não constrói uma relação de amor com Deus, mas de utilidade. Se, portanto, existe uma outra divindade que melhor me serve, então por que não me voltar para ela? Assim operava a espiritualidade de Israel que, a semelhança do que houve nos dias do profeta Elias, ainda vivia flertando com Baal, cocheando entre ele e Iavé, o Senhor. Em nosso caso hoje, a divindade que mais nos seduz é Mamon. E o problema não se restrige apenas aos tele-evangelistas que descaradamente mercadejam o Evangelho vendendo novas formas de indulgências, mas a toda a igreja no país que se vê às voltas com o seguinte dilema: “temos usado nossas riquezas para servir a Deus ou temos usado Deus para enriquecermos?”.  O Senhor tenha misericórdia de nós.

Finalmente, a lógica do consumo perverte a experiência religiosa provocando uma terrível inversão: ao invés de nos tornar mais humildes, nos torna arrogantes em relação a Deus (v.1-3). Lendo o oráculo proferido pelo profeta Miquéias, constamos que o povo estava reclamando de Deus pois acreditava ter direito a melhor sorte a despeito de seus maus caminhos. Sem sombra de dúvida, tal atitude nasce da crença, segundo a lógica consumista, de que o consumidor tem sempre razão, detém toda autoridade e, por isso, encontra-se em lugar de fazer exigências. Cumpria a Deus, reduzido ali a figura de um balconista obediente, atender-lhes os desejos. Deus então os confronta solenimente colocando as coisas em seus devidos lugares e pedindo do povo explicações: “Ouçam o que diz o Senhor: Fique em pé, defenda a sua causa; que as colinas ouçam o que você tem para dizer. Ouçam, ó montes, a acusação do Senhor; escutem, alicerces eternos da terra. Pois o Senhor tem uma acusação contra o seu povo; ele está entrando em juízo contra Israel”. O que o Senhor diria para nós se hoje nos chamasse a sua presença? Será que teria de nos recordar da verdade proferida pelo pregador de Eclesiastes: “Deus está nos céus, e você está na terra, por isso, fale pouco”? Ou, colocando a questão de outro modo: o que nós mereceríamos ouvir dos lábios do Senhor?

O critério definitivo para responder essa pergunta é o mesmo que nos ajudará a discernir se nos mantemos ligados a Deus através de uma relação de adoração e serviço ou se em virtude de uma relação de consumo religioso. Toda essa movimentação, esse ir e vir a igreja, esse monte de retiros e encontros e seminários, as muitas vígilias e reuniões, os livros lidos e os sermões ouvidos tem nos transformado em gente cheia de Deus? Tem efetivamente contribuído para nos fazer pessoas mais parecidas com Cristo? Gente mais cheia de amor, de compaixão, de indignação perante a injustiça e solidariedade para com o necessitado? Ou nos tornamos apenas consumidores de religião?

Essa pergunta, cabe a cada um responder.

Filho custa caro?

 

O preço de não ter filhos é maior do que os gastos com eles

  

“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá” (Sl 127:3)

 

Dizem por aí que filho custa caro. Não é verdade. Estou esperando o terceiro e posso dizê-lo com conhecimento de causa.

Começa que filho não custa nada para fazer. Depois, até dez ou doze meses, a criança se alimenta basicamente de leite materno e raios solares (fundamentais para ativação da vitamina D sem a qual não há absorção do cálcio reponsável pelo desenvolvimento dos ossos). Durante esse período, a única despesa regular que se tem com o pimpolho são as fraldas descartáveis; afinal, um mínimo de conforto e praticidade é necessário.

É isso. Mais tarde, os gastos se concentram em educação e saúde. Obviamente, tais gastos poderiam ser evitados se vivêssemos num país sério onde as escolas e os hospitais públicos não ofendem à dignidade humana. O mais, é comida. Neste quesito, porém, os recursos se multiplicam: onde comem dois, comem três e onde comem três, comem quatro. Até porque  arroz, feijão, frango e uns tomates não custam tanto dinheiro assim. E se os pais forem mesmo engajados ao ponto de abrirem mão de pegar um cineminha no Plaza para, de vez em quando, assistirem o filme no Shopping São Gonçalo, sobra até uma grana para incrementar a dieta da turma com yogurt, sucrilhos, geléia de mocotó e skiny.

Curiosamente, no entanto, quando falamos em criação de filhos, a primeira coisa que vem a mente das pessoas são planilhas e planilhas de excel, múltiplos extratos bancários e uma enormidade de cobranças de cartão de crédito que retratam uma realidade desesperadora de gastos que beiram o infinito. De modo semelhante, a expressão planejamente familiar evoca logo uma gama de perguntas enlouquecidas ligadas à economia doméstica: o que eu precisarei comprar para sustentar um filho? E se forem dois? Quanto irá custar? O dinheiro vai dar? Não seria mais viável eu desistir da idéia de ser pai ou mãe e trocar de carro?

De onde vem essa paranóia? Por que agimos assim?  Eis aqui o meu palpite: agimos assim em virtude de nossa mentalidade consumista. Estamos tão expostos a cultura do hiperconsumo que passamos a enxergar todas as esferas de nossa vida desde essa perspectiva da aquisição permanente de bens diversos sem os quais a sobrevivência se torna inconcebível. Hoje mesmo tive um exemplo emblemático do modo como a mentalidade consumista opera. Saindo do banco, encontrei na rua uma amiga que está grávida, esperando seu segundo filhinho:

– E aí? Quanto tempo…

– Pois é, estou grávida de novo. Três meses.

– Puxa, que legal! Karine e eu também estamos esperando mais um filho. É nosso terceiro menino.

– Sério?! Que loucura!!! Vocês vão ter que se mudar, né? Eu já estou procurando outro apartamento maior para mim.

Nos despedimos. Ela saiu para um lado e eu, perplexo, saí para o outro. Comprar um apartamento maior??? O que será que leva alguém a pensar que o nascimento de um bebê que mede cerca de 50 cm e pesa por volta de 4kg requer a compra de um apartamento maior? Minha esposa está prestes a dar à luz um bebê humano e não um filhote de dinossauro! Bebês são seres tão pequeninos que cabem dentro da pia da cozinha. Qual a necessidade real de comprarmos um apartamento maior, com um quarto a mais em função da chegada de uma criaturinha tão minúscula?

Aqui reside o problema. Mergulhamos tão fundo nessa loucura consumista que, antes mesmo da criança nascer, já estamos gastando dinheiro comprando enxoval, decorando o quarto, mudando de carro e até de apartamento. De outro lado, quem se preocupa em ler um bom livro sobre criação de filhos? Quantos procuram uma terapia para se tratar a fim de serem melhores pais e mãe para o bebê que irá nascer? Quantos pensam como podem reduzir sua carga horária a fim de estarem com o filhinho que tanto precisará deles? Quantos oram por seus filhos enquanto estão sendo gestados?

Esse é o lado trágico de tudo isso. Confundimos preparação para a chegada do bebê com gastos absurdos e supérfluos. Todos bem o sabemos: criança não precisa de quarto exclusivo nem de enxoval importado. Não precisa de apartamento de luxo nem de minivan com DVD acoplado no teto. Criança precisa é de pai e mãe presentes. Ou, na ausência deles, de adultos saudáveis e interessados, que brinquem com elas, lhes deêm afeto, cuidado e orientação. Tudo mais será supérfluo se isso faltar .

O ponto dessa longa e apaixonada reflexão é o seguinte: filho não é caro. Caro é o preço que se paga para criar filhos segundo o projeto da mentalidade consumista. Caro é o pecado da hiper-sofisticação. Pois como gosta de dizer um amigo querido: “sofisticação é um caminho sem volta”. Uma vez que o escolhemos, é muito difícil voltar atrás. De outra parte, quando mais avançamos nesta estrada, mais sacrifícios nos são exigidos. Inclusive esse: abrir mão de uma das maiores alegrias da vida que é ter a casa cheia de rebentos.

Esse preço, embora não apareça nas planilhas de excel, é bem mais alto do que os gastos realmente indispensáveis para se criar um filho. Ou dois. Ou muitos.

Leveza e moderação

Santidade não significa não-fazer, mas fazer diferente.
Santidade não é isolamento, mas proximidade

Incomoda-me, com freqüência, perceber que o Evangelho de Jesus Cristo vem sendo apresentado ao longo dos anos de forma desinteressante e vivido de forma triste e “pesada” por tantos cristãos, já que deveria seduzir as pessoas por tratar-se da boa-nova de salvação de Deus para homens e mulheres.

Infelizmente, tal realidade não é nova. Desde a chegada dos primeiros missionários norte-americanos no Brasil em meados do séc. XIX é assim. O protestantismo que recebemos daqueles irmãos queridos veio marcado por um forte moralismo típico do puritanismo inglês, matriz teológica do Evangelho que chegou e se instalou na América do Norte. Embora passível de críticas, a moralidade rígida daqueles missionários tinha por trás de si uma preocupação legítima: a santidade. Eles eram homens e mulheres que buscavam fazer a vontade do Senhor a todo custo. Não se discute o fato de que eram pessoas eticamente irrepreensíveis, de ilibada reputação na sociedade. Todavia, seu excesso de zelo moral trouxe conseqüências trágicas para o protestantismo que estava nascendo por aqui.

O erro que nossos irmãos cometeram é o mesmo que ainda hoje vemos presente na mentalidade evangélica brasileira: a associação da idéia de santidade à noção de privação. Por conta disto, cristalizou-se na mente das pessoas uma ética de tipo negativa e uma lógica do “não fazer”. O crente, então, passou a ser conhecido como o indivíduo que não fuma, não bebe, não vai ao cinema no domingo, não ouve música “do mundo”, não freqüenta ambientes culturais, não usa bermuda, não usa brincos, anéis, colares, não vai à praia, não joga futebol etc. Na verdade, o conceito bíblico de santidade é completamente outro, bem como é outra a ética que produz. Santidade não significa isolamento do mundo, mas proximidade de Deus para estar no mundo de modo distinto. Ser santo não significa não fazer, mas fazer diferente. Ser santo é ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5.13).

Por falta desta clareza, muitos crentes têm vivido sufocados sob o jugo de tantas restrições, e muitas pessoas que vivem por aí sem Deus têm pavor de ouvir falar do Evangelho. Importa, por este motivo, lembrar as palavras de Jesus quando afirma que o seu fardo é “leve” (Mt 11.30), e acolher a recomendação do autor da epístola aos Hebreus no sentido de deixarmos para trás “todo peso e pecado” (Hb 12.1) que nos atrapalhem a corrida da vida cristã. Não se trata de pregar um Evangelho permissivo e libertino, mas de resgatar o ideal divino de uma vida plena e abundante, vivida com leveza e moderação.