Nossos demônios

Piores que os demônios de Satanás são os da nossa própria alma.

 

“Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos” (Mc 5:9)


Todos temos demônios. Não necessariamente aqueles de Satanás. Esses demônios certamente existem e fazem parte da vida de muitos, mas não de todos. Refiro-me aqui a um outro tipo de demônios. Falo dos daimons (como Sócrates chamaria em grego): forças autônomas que habitam o nosso mundo interior.

A rigor, os daimons são anteriores aos demônios. É claro que não numa perpectiva cronológica. Afinal, segundo as Escrituras, Satanás e suas hostes infernais existem desde antes da criação. Mas etimologicamente, sim. Pois foi a partir da noção – e da resignificação – de daimons que o Novo Testamento desenvolveu o conceito de “demônios” como nós hoje conhecemos, inclusive incorporando o termo. Prova disso é que o Antigo Testamente jamais fala em demônios, mas somente em espíritos malignos. Os demônios do NT são os espíritos malígnos do AT batizados com o termo oriundo da língüa grega.

Pois bem. Diferente dos demônios de Satanás que habitam as esferas espirituais e podem eventualmente se apropriar de corpos e mentes, os daimons pertencem ao mundo de nossa subjetividade. São demônios da psiquê humana e, assim sendo, são universais. Todos os possuímos. Mas à semelhança do que acontece com os demônios de Satanás, também podemos ser possuídos por eles. Com efeito, eles buscam todo tempo se apropriar de nossa alma, de nosso ser interior levando-nos a fazer o mal que não queremos e nos afastando do bem que desejamos fazer.

O grande distintivo entre essas duas qualidades de demônios é que aqueles – os demônios de Satanás – são repreendidos e exorcizados com a mera menção do nome de Jesus. Já esses outros que atuam em nossa subjetividade, não. Eles dificilmente saem de uma vez por todas. Tampouco saem todos de uma vez. Temos de enfrentá-los um a um, sempre de novo, um dia depois do outro. De fato, lutamos com esses demônios durante toda extenção de nossas vidas. E embora nunca nos livremos deles, é possível aprender a subjugá-los. E assim, finalmente, vivermos libertos de sua ação.

Mas como essa libertação ocorre? Como subjugamos essas forças autônomas que, como intrusas, povoam nosso mundo interior sabotando nossas escolhas, atitudes, e autocompreensão? Como neutralizamos sua ação em nossas vidas?

Antes de mais nada é importante nomeá-los. “Qual é o teu nome?” – perguntou Jesus. Aqui, uma boa terapia pode ajudar. Também a leitura bíblica. Mas em geral uma boa dose de honestidade e autocrítica bastam. Quais os nomes dos demônios que agem em nosso interior? Quais os nomes dessas forças independentes que habitam nossa alma assolando nossa mente e pervertendo nossa identidade? Culpa? Ódio? Teimosia? Inveja? Orgulho? Vaidade? Resignação? Avareza? Discórdia? Rancor? Mágoa? Amargura? Ansiedade? Preguiça? Gula? Egoísmo? Mentira? Promiscuidade?

Se formos honestos, teremos de admitir que tais forças estão presentes em nossas vidas influenciando nosso sentir, nosso pensar e agir. E até certo ponto isso é normal. O problema é quando esses demônios se movem com tamanha liberdade em nosso mundo interior que chegam transtornar por completo nosso comportamento e identidade. É quando ocorre a possessão. Aí já não somos mais nós mesmos. Não sabemos mais nosso próprio nome. Fomos desfigurados. “Legião” – respondeu o jovem quando indagado por Jesus. Perdera-se dentro de si mesmo. Tornara-se refém e escravo.

Precisamente para que isso não aconteça é importante nomearmos os demônios. Assim, protegemos nossa identidade. E temos plena clareza do inimigo contra o qual lutamos. Pois freqüentemente confundimos quem somos com que fazemos e pode ser que estajamos lutando contra nós mesmos, digo, nosso eu verdadeiro, imagem e semelhança de Deus.

Porém não basta apenas identificar os demônios que atuam no profundo de nosso ser. Se de fato desejamos exorcizá-los – ou, pelo menos, subjugá-los – faz-se mister dispormos de dois recursos espirituais: o jejum e a oração. Pois “essa casta não se expele se não com jejum e oração”.

O jejum (como escrevi em outro post) é uma disciplina espiritual de auto-esvaziamento. Através dele, enfraquecemos nossos apetites carnais, dominamos nossos desejos desenfreados e também subjugamos nossos demônios. Pois quando jejuamos, fechamos as portas que permitem o trânsito livre dessas forças pelos labirintos de nossa alma. Desse modo, restringimos e limitamos sua ação. Contudo, cumpre ressaltar aqui,  que jejuar não é meramente deixar de se alimentar, mas cultivar uma atitude de desprendimento, de renúncia e abnegação do qual o ficar sem comer é expressão. Jejuar é tomar sobre si a cruz de Jesus. Esse movimento exterior de renúncia – quando movido pelas corretas motivações – projeta para dentro de nosso ser uma censura que obstacula a ação dos demônios criando liberdade. Libertação, com efeito é isso, é a ação que gera liberdade.

Pode parecer estranho para muitos que uma disciplina tão “carnal”, que se acontece na dimensão do nosso corpo como é o caso do jejum, possa influenciar nosso mundo interior e gerar libertação. É que freqüentemente nos esquecemos que o ser humano não é um ser dicotomizado, fragmentado, mas um ser integral. Com efeito, todas as suas múltiplas dimensões estão interligadas entre si, conectadas umas as outras. E assim, o que comemos ou deixamos de comer afeta diretamente nosso humor, nossa saúde, e mesmo nossa vida espiritual. O contrário também é verdade ou não é fato que as variações de nosso estado de humor e saúde interferem em nosso apetite? Jesus mesmo disse a seus discípulos que não fazia sentido eles jejuarem enquanto estivessem alegres pela presença do noivo, mas quando o noivo lhes fosse tirado, aí sim deveriam jejuar, pois a tristeza do coração inibe o apetite e enseja a prática do jejum.

Mas agora cumpre perguntar: para que serve a oração nesse processo? A oração serve para nos encher de Deus. Por meio do jejum nos esvaziamos e, através da oração, somos preenchidos pela presença poderosa do Espírito de Deus em nossa vida. E, dessa forma, somos revestidos de sua força extraordinária. Mediante o jejum e a oração enfraquecemos nosso “eu” refém da ação demoníaca – o velho homem, como diria o apóstolo Paulo – e fortalecemos nosso “eu” espiritual ligado à pessoa divina – o novo homem que somos em Cristo Jesus. Assim, experimentamos finalmente verdadeira libertação.

Em resumo: demônios existem e exercem grande influência em nossas vidas. Contudo, ela pode ser maior ou menor segundo a consciência que temos da mesma e a postura que assumimos no tocante ao seu enfrentamento. Ninguém se engane: precisamos enfrentar nossos próprios demônios sob pena de nos perdermos se não o fizermos. Nesse sentido, o melhor caminho que conheço é o ensinado por Jesus: nomear cada demônio, depois cultivar o jejum e a oração. Esse caminho de libertação serve também para vencer, inclusive, os demônios de Satanás. E nesse processo, vai emergindo, paulatinamente, nosso eu cada vez mais liberto e fortalecido. Sem isso, dificilmente temos condições de pronunciar nosso verdadeiro nome.

A retórica da morte e o Deus da vida

Não se trata de defender marginal, mas de proteger o ser humano.


“Então o Rei dirá às ovelhas à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Então os justos lhe responderão: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” O Rei responderá: “Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mateus 25:34-40)

Todos acompanhamos pelos meios de comunicação a onda de violência que culminou no último domingo na tomada do Complexo do Alemão pelas forças de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro – as Polícias Civil, Militar e Florestal – em conjunto com as forças armadas do Brasil, nomeadamente, a Marinha e o Exército.

As causas de toda essa violência são conhecidas: a (1) desigualdade e injustiça social, a (2) falta de vontade política, a (3) indiferença e conivência do Estado que se beneficia da ignorância e da pobreza da população, o (4) contingente policial reduzido, despreparado e mal-remunerado, a (5) hipocrisia de setores da sociedade que sustentam o tráfico através do consumo de drogas, as (6) limitações da legislação criminal, a (7) corrupção na Polícia, na Política e no Poder Judiciário, a (8) impunidade, a (9) crise do sistema penitenciário, o (10) contrabando de armas, o (11) desrespeito pela vida, etc. A lista é longa. E igualmente extensa é a relação das ações necessárias para virarmos em definitivo essa página. Haverá solução?

Toda essa conjuntura nos afeta profundamente. Como cidadãos, sentimo-nos desprotegidos, vulneráveis, traídos, indignados e – o pior de tudo – sem esperança. Tornarmo-nos, desse modo, presas fáceis de um certo discurso irracional e truculento que vê no extermínio sumário dos atores desse circo de horror a única solução possível para o presente quadro. “Tem de matar todo mundo” – repetimos com gosto de sangue na boca.

Sejamos sinceros: quem não desejou a morte daqueles rapazes pardos e favelados que armados até os dentes chegavam de moto na comunidade da Vila Cruzeiro enquanto zombavam das autoridades instituídas e espalhavam o terror pela cidade? Quem não torceu para que, ao invés da rendição, houvesse uma chacina, um implacável banho de sangue, na manhã do último domingo?

Engana-se, porém, quem imagina que isso solucionaria o problema. Afinal, existem filas e filas de meninos naquela e em diversas outras favelas sonhando com a oportunidade de ocupar os lugares dos traficantes que lá estão hoje. Disto ninguém se engane: os nossos vilões, são os heróis deles para quem, aliás, nós do asfalto, a polícia, e o Estado são os verdadeiros criminosos. Na cabeça dessas crianças, os traficantes mortos na guerra urbana são mártires que pagaram com a própria vida o preço da rebeldia e não-adequação aos padrões questionáveis de uma sociedade hipócrita, egoísta e indiferente.

Já o filme Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, mostrou como essa lógica opera. Depois vieram Tropa de Elite 1 e 2, deixando claro que quem cria e sustenta o traficante é, de um lado, o usuário de drogas das classes média e alta que hipocritamente fuma seu baseado enquanto discute o problema da violência urbana e, de outro, o governo, que manipula a opinião pública combatendo ou não o problema na medida em que tal ação pode ser ou não revertida em voto.

Como se vê, não é tão fácil como a primeira vista talvez pareça dizer com segurança quem é o vilão e quem é o mocinho nessa história. É também por este motivo que este tipo de discurso simplista e truculento é inadmissível e precisa ser confrontado. Muito para além disso, no entanto, a principal razão para se combater essa retórica da violência reside no fato de que tal constitui grave afronta aos direitos humanos, aos fundamentos do Estado democrático de direito e, sobretudo, ao Deus da vida.

Mas como assim? Por que essa mentalidade representa uma traição ao Deus de Jesus Cristo? Por que, como cristãos, não podemos nos permitir pensar dessa maneira?

Por uma razão decisiva: a vida é um direito concedido por Deus aos seres humanos e uma responsabilidade atribuída à igreja por Jesus Cristo. À luz dessa verdade, a fome, a nudez, a enfermidade, a indiferença, o desamparo, e a violência dentre tantas outras coisas se revelam forças contrárias ao dom outorgado por Deus a nós. São forças antagônicas ao querer divino, ao Reino de Deus e à vida abundante em Cristo Jesus; forças de morte que ameaçam e podem fazer morrer a vida. Ora, era justamente visando combater e cancelar tais forças que Jesus curava os enfermos, libertava os endemoninhados, acolhia os menosprezados e alimentava a multidão quando esta tinha fome. Ele sabia o valor da vida humana e esforçava-se por afirmá-la, defendê-la, promovê-la, e plenificá-la. A ética e a retórica de Jesus não eram a da morte, mas da vida, do novo nascimento, da ressurreição. Daí que ele andasse “por toda parte fazendo o bem” (At 10:38). Mais tarde, incumbiria a igreja desta gratificante tarefa.

Precisamente por essa razão não podemos nos unir ao coro daqueles que pedem a morte de quem quer que seja, especialmente de traficantes e bandidos que, em grande medida, ajudamos a criar. Não nos esqueçamos que dois mil anos atrás a opinião pública também pediu a morte de Jesus. A violência a nossa volta não pode nos tornar violentos. Seria uma dupla derrota. Portanto, ao invés de engrossarmos as fileiras das forças de morte aliando-nos aquele que veio matar, roubar e destruir, e traindo assim nossa vocação fundamental como igreja de Jesus Cristo, cumpre-nos agir em todo tempo como pacificadores, como agentes de paz e reconciliação. Afinal, estamos a serviço da vida. Esta é a marca inconfundível nos distinguirá no último dia como ovelhas de Jesus: a solidariedade dirigida a essa gente para quem o mundo deu as costas e Jesus abriu os braços na cruz do Calvário ao preço da própria vida.

Pais da Igreja

 
D. Maria José e o Rev. Antônio Elias

  

Em tudo recomendando-nos a nós mesmos como ministros de Deus: na muita paciência, nas aflições, nas privações, nas angústias, […] nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, no saber, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus [… ] tidos como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos e, entretanto, bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo. (2Co 6:4-10)

 

Próximo do final do primeiro século uma das principais preocupações entre as diversas comunidades cristãs dizia respeito à sucessão apostólica: como ficaria a igreja após a morte do último apóstolo? Foi exatamente essa pergunta que me veio ao coração ontem pela manhã quando soube do falecimento de D. Maria José. Afinal, era precisamente esse lugar de autoridade apostólica que ela e nosso saudoso Rev. Antônio Elias ocupavam entre nós da família Betânia e, mais amplamente, entre toda uma geração de cristãos brasileiros.

Como bem sabemos, o grupo dos apóstolos era constituído pelos onze discípulos que caminharam ao lado de Jesus mais Matias escolhido para ocupar o lugar deixado por Judas. Posteriormente, Paulo foi também contado entre eles com “um nascido fora do tempo”. Sua credencial, todavia, não advinha da experiência como colaborador e testemunha ocular do ministério de Jesus, mas da experiência mística de encontro com o Cristo ressuscitado.

Quando finalmente João – o discípulo amado e último dos apóstolos – veio a falecer, a igreja instituiu a figura do Bispo. Este necessariamente deveria ter convivido com um dos apóstolos e tinha como função pastorear os presbíteros e supervisionar as diferentes comunidades zelando sobretudo pelo ensino (didaquê) e pelo exercício da solidariedade para com os pobres. Pelo espírito cuidador que os caracterizava, bem como por seu notório saber e amorosa autoridade, os bispos logo passaram a ser carinhosamente chamados de Pais da Igreja. Tal costume perdurou até o século IV quando Leão I foi ordenado Bispo de Roma e elevado à condição de Papa concentrando doravante em uma única pessoa todas essas prerrogativas. 

Os Pais da Igreja eram, portanto, figuras apostólicas – bispos cheios de sabedoria aos quais eram entregues a responsabilidade pelo pastoreio dos líderes, bem como pelo ensino da sã doutrina e pela supervisão das atividades das diversas comunidades numa região, sobretudo, no tocante ao socorro aos menos privilegiados. 

Ora, aqui já não é necessário dizer mais nada: D. Maria José e o Rev. Antônio Elias foram legítimos “Pais da Igreja”. Eram, sem sombra de dúvidas, figuras apostólicas entre nós, embora jamais imaginassem reivindicar tal honra. Nunca se importaram com esse tipo de coisa. Seus corações estavam voltados para quatro grandes amores somente: o Senhor Jesus Cristo, a família, a igreja e o semelhante, especialmente, o necessitado e afligido.

Em tempos de tantos auto-intitulados “apóstolos” e “bispos” que do alto de seus púlpitos e aviões a jato mercadejam a Palavra de Deus e ludibriam o povo cristão, que falta nos fará a simplicidade, a generosidade, o desprendimento, a sabedoria, a gentileza e o altruísmo desses verdadeiros Pais da Igreja que agora deixam orfãos milhares de filhos espirituais país afora.

A boa-notícia, porém, é que como acontece ainda hoje com respeito a Clemente, Policarpo, Tertuliano, Justino, Orígenes e Agostinho dentre tantos outros, também acontecerá com eles: viverão para sempre no exemplo que nos legaram e na sabedoria ímpar que nos transmitiram. Seus nomes ficarão escritos na história como estão no livro da vida…

Quanto à igreja, prosseguirá adiante. Pois poderá sempre se orientar pelo legado de homens e mulheres como D. Maria José e Rev. Antônio Elias. Ademais, nunca deixará de contar com o soberano cuidado de nosso Senhor Jesus Cristo, supremo pastor e único cabeça da Igreja, o qual prometeu que jamais nos deixaria orfãos (João 14:18).

O amor e a visão

Todo amor é amor à primeira vista
Todo amor é amor à primeira vista

 

“Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10:21)

 

Não sei quem foi que disse que o amor nasce no coração. Não é verdade. O amor nasce nos olhos. Ele é uma bem-aventurança da visão. Com efeito, só é amado quem é visto, percebido, notado. Por isso é sábia a expressão “amor à primeira vista”. Afinal, todo amor é à primeira vista. Ou não é amor. Começamos a amar as pessoas no instante mesmo que as enxergamos pela primeira vez. Amar pressupõe ver.

No Evangelho de Marcos há um relato interessante. Um homem rico chega diante de Jesus e lhe pergunta: “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. Segundo a narrativa bíblica, Jesus olha para ele e o ama.

É incrível quanta coisa está subentendida nesta pequena expressão. Esse homem diante de Jesus, por ser uma pessoa de posses, era certamente um rosto conhecido. As pessoas sabiam quem ele era. Decerto, podiam identificá-lo na rua. Mas ninguém jamais olhara para ele como Jesus. Enquanto todos o olhavam notando sua riqueza e abundância, Jesus foi capaz de perceber-lhe a carência: “falta-lhe uma coisa”. Diferente de todo mundo mais, Jesus olha para aquele homem e o vê, o percebe, o enxerga. Por isso o ama.

Jesus estava diante de um miserável. Ele bem o sabia. Aquele homem rico não passava de um desesperado que se valia da própria riqueza para sentir-se importante, amado e acolhido. Em função disso, tinha olhos apenas para dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais amor – pensava. Porém toda riqueza que possuía não foi capaz de ocultar nem suprir-lhe a carência. Jesus viu tudo isso. E mesmo assim o amou. Amou tanto que, desejando salvá-lo,  lhe propôs um desafio: “vende tudo o que tens e dá aos pobres […] depois vem e segue-me”.  

A narrativa prossegue e logo nos revela que ao escutar o desafio, aquele homem ficou triste e retirou-se da presença de Jesus. Ele não sabia como desprender-se daquilo que o aprisionava. Tornara-se um escravo da riqueza que possuía. Não via mais nada, nem ninguém. Estava cego. Foi incapaz de amar e confiar no convite daquele mais amor lhe dedicou.

Aqui reside o clímax da narrativa. De um lado, temos Jesus que vê aquele homem e o ama. De outro, temos aquele homem que não ama nada nem ninguém, que apenas exerga dinheiro e, por isso, é incapaz de ver Jesus. Esse é o outro lado da moeda na dialética entre o amor e a visão: não vemos a quem não amamos. Pois ver pressupõe amar.

Tivesse aquele homem amado Jesus, seus olhos seriam abertos. E, certamente, também os seus ouvidos. Ao invés de ter medo, teria dado ouvidos ao desafio que lhe fora proposto. Afinal, como nos ensina a Palavra noutro lugar, o amor não apenas abre a visão, mas também “lança fora o medo” (1Jo 4:18).

A síntese de tudo o que foi dito é o seguinte: a relação entre o amor e a visão é uma via de mão-dupla. Se de um lado amamos as pessoas porque as vemos, por outro, somente vemos as pessoas quando as amamos. Pois se o amor nasce nos olhos, a visão nasce no coração. Daí que onde não há amor, há cegueira. E onde há cegueira, não há amor.

Páscoa: Deus passou por aqui…

Na cruz de Jesus, Deus passou pela morte

 A palavra “páscoa” traduz o hebraico “pessach” que, como é sabido por todos, significa “passagem”. Trata-se de uma referência à noite em que anjo de Deus passou pelo Egito libertando o povo de Israel de sob o domínio de Faraó que já durava 400 anos. Tal episódio encontra-se relatado em Êxodo 12 e é, sem sombra de dúvida, uma das memórias prediletas do povo judeu. Com efeito, desde aquela noite até o dia de hoje, uma vez por ano, inexoravelmente, Israel celebra esta data. É a festa da Páscoa.

Entretanto, a celebração anual desta festa não é privilégio dos judeus. Nós cristãos também a celebramos fielmente, se bem que desde um prisma diferente. Um prisma que, a rigor, não exclui nem invalida o prisma judaico, mas o transcende. Porque se para os judeus a páscoa é a festa da libertação nacional, para nós cristãos, ela é a festa da libertação universal e total; a comemoração por excelência do triunfo da vida sobre a morte e sobre todos os seus agentes em benefício de toda criação. Por essa razão, na páscoa, cantamos todos juntos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15,55).

Este ponto é preciso estar claro: para nós cristãos, a páscoa é a festa da vida, de sua afirmação e vitória sobre a morte ainda que cruzes façam parte da história. Porque o que aqui celebramos não é outra realidade senão a da passagem triunfal (e misteriosa) de Deus pela morte suscitando vida desde suas entranhas. O que na fé afirmamos, na páscoa celebramos: Deus mesmo, em carne e osso, visitou a nossa história, experimentou as nossas dores, comeu pão e bebeu vinho, sentiu fome, sede, teve medo, riu e chorou. Nasceu criança pobre, vulnerável, entregando-se aos cuidados de José e Maria. Foi circuncidado ao oitavo dia, freqüentou o templo e as festas do povo. Uma vez crescido, tomou partido dos pecadores. Deu valor às crianças e às mulheres, curou os enfermos, libertou os endemoninhados, acolheu a gente marginalizada, questionou os costumes e as tradições religiosas, ensinou o amor e denunciou a injustiça. Viveu sem pecado. Foi morto de forma brutal em uma cruz hedionda. Mas ressuscitou ao terceiro dia. Nas palavras de Pedro: “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38). Em Jesus de Nazaré, Deus mesmo passou entre nós ordenando vida e inaugurando a ressurreição de todas as coisas.

Na Páscoa, portanto, nós cristãos declaramos: o mundo já não terá um fim, mas um futuro – será transfigurado. Toda criação já está sendo redimida, ressuscitada. Por isso, na fé, já não falamos mais em termos de morte e vida, mas de vida e ressurreição. Porque a morte nada mais é do que o ponto de chegada de nossa vida natural ao passo que a ressurreição marca o seu início. Sim, começamos a viver quando ressuscitamos em vida por meio de Jesus Cristo. Dia após dia o nosso corpo vai morrendo, mas em Cristo, somos ressuscitados a cada novo dia, chamados a uma nova existência, a uma experiência de plenitude.

Embora muitas vezes o contexto concreto em que nos encontramos aponte noutra direção – seja a família em crise, a vida profissional ameaçada ou mesmo a conjuntura social caótica –, é necessário sempre de novo lembrar que a cruz não pode conter a ressurreição. Ao terceiro dia, ela acontecerá!!! Haverá dias de pranto, de luto, de sombras, mas o sol brilhará outra vez. Esta promessa foi selada com sangue. Assim, aguardamos o dia bendito em que Deus será “tudo em todos” (1Co 15,28). É isto, precisamente, que na páscoa celebramos: o princípio de nossa libertação total e a promessa de abundância de vida. Aleluia!

O pão-nosso de cada dia

 

O ser humano sente fome: de pão e de Deus

“Colhiam-no, pois, manhã após manhã” (Êx 16:21)

 

Segundo o relato do livro do Êxodo, durante os quarenta anos de peregrinação pelo deserto, o povo de Israel se alimentou de um pão especial, dado por Deus. Diariamente ele amanhecia sobre a superfície do deserto como se fosse uma geada sobre a terra (Êx 16:11-36). O escritor sagrado registra que este “pão de Deus” era branco como semente de coentro e seu sabor, como bolos de mel. A este pão, chamou Israel maná.

Enquanto provisão diária, o maná era dado por Deus sempre pela manhã, ao raiar de cada novo dia. À exceção do dia sexto (quando o maná era recolhido em dobro e uma parte era cozida para o sábado), cumpria aos filhos de Israel a tarefa de recolhê-lo de sobre a terra, segundo a porção de cada família, antes que o calor do sol o derretesse. Embora houvesse abundância, o consumo era regrado. As famílias deveriam buscar o quanto julgassem necessário para o farto sustento de cada dia, mas deveriam consumir tudo: quando guardado para o dia seguinte, o maná estragava. A idéia era não colher de menos de maneira que faltasse, mas também não colher demais, pois nada podia ser desperdiçado. O que porventura restava sobre a terra, derretia. O “pão de Deus” não precisava ser comido todo de uma vez, mas precisava ser comido todo dia. Assim, renovava o Senhor dia após dia a sua bênção sobre o Seu povo.

Da mesma forma como no Antigo Testamento Israel fora instruído por Deus acerca do maná, também Jesus ensina os seus discípulos no Novo Testamento a orarem pelo “pão de cada dia” dizendo: “dá-nos hoje” (Mt 6:11). Na seqüência de seu ensinamento, complementa: “não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? (…) pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas” (Mt 6:31-32).

Com estas palavras, Jesus queria ensinar que o Deus que alimentou o povo de Israel durante os anos de peregrinação pelo deserto é o mesmo Deus que sempre sustentou sua igreja. Da mesma forma que havia maná para os israelitas, houve para os primeiros discípulos e há para nós hoje. A tarefa que nos cabe é a de buscá-lo diariamente: com o suor do nosso rosto e em oração. Pois o maná é também metáfora de Cristo, o “pão vivo descido do céu” (Jo  6:51) que sustenta nossa alma e sacia nossa fome de sentido e eternidade.

Aqui acontece algo interessante. Nos dias do apóstolo Paulo havia aqueles que se empenhavam de tal maneira por buscar o maná espiritual em oração enquanto aguardavam a parusia – segunda vinda de nossa Senhor – que já não se ocupavam de suar o rosto para obter o pão de cada dia. A este respeito, Paulo escreve aos Tessalonicenses orientando que todos devem “trabalhar com as próprias mãos” a fim de não passarem necessidade. E acrescenta: “quem não trabalhar, não coma”. Por outro lado, em nossos dias, existem aqueles que se gastam tanto no esforço cotidiano para conseguir o pão físico que não resta tempo ou força ou mesmo ânimo para buscar o pão espiritual em oração. Estes parecem esquecer que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4:4) e por isto, muitas vezes, vivem fartos fisicamente, mas espiritualmente famintos.

Ambas as posturas são equivocadas. O ideal ensinado por Jesus é que busquemos a cada dia tanto o “pão que perece” quanto o “pão vivo” que farta a alma e dá vida eternamente.

Um detalhe final: o pão que Jesus nos ensina a pedir é sempre “pão nosso”. Também com o maná era assim: o pão caía do céu para todos. Daí a fome magoar tanto o coração de Deus. Mágoa maior do que a fome, só mesmo o desperdício. Jesus nos ensina que o pão deve sempre ser multiplicado; tanto o espiritual quanto o de massa de farinha. Se é pão, é para ser repartido, comido junto, compartilhado. Quem reparte o pão com quem não o tem, torna-se companheiro de Jesus e ovelha bendita no reino de seu Pai (Mt 25:34-40).

Miopia espiritual

Nossa visão é gravemente prejudicada por preconceitos
Nossa visão é prejudicada por nossos preconceitos

Gosto muito de ler crônicas. Dentre as minhas preferidas está “A velha contrabandista”, de Stanislaw Ponte Preta. É a história de uma senhorinha que diariamente cruzava a fronteira do país guiando uma lambreta. O detalhe curioso é que, na garupa da lambreta, ela carregava um enorme saco cheio de areia, que despertava a atenção e a desconfiança dos fiscais da alfândega. Por conta disto, diariamente a revistavam, esvaziando o saco à procura de alguma pista ou evidência de contrabando. No entanto, as operações fracassavam sucessivamente.

Um dia, consumido pela desconfiança e curiosidade, um fiscal daqueles que após 40 anos de serviço conhece o ofício como poucos, abordou a velhinha e, num tom quase de súplica, lhe propôs um acordo mais ou menos nestes termos: “Eu prometo deixar a senhora passar e mantenho segredo de tudo, se me confidenciar qual é o contrabando que todos os dias a senhora passa por aqui”. A velhinha, após se assegurar de que o fiscal manteria sua palavra, revelou-lhe o segredo: “É a lambreta”.

Gosto desta crônica porque ela denuncia de forma inteligente e bem-humorada um sério defeito que, sem nos darmos conta, possuímos: uma grave limitação visual. De fato, temos enorme dificuldade de enxergar para além da visão objetiva. Nosso olhar parece estar restrito ao padrão do aparente, condicionado a ver segundo o critério do explícito, (ao contrário do Pequeno Príncipe, que aprendeu que “o essencial é invisível aos olhos”). Via de regra, nossos olhos se deixam capturar pelo suspeito, pelos “sacos de areia”, e desconsideram totalmente as “lambretas”. Nossa enfermidade tem nome: miopia – “vista curta, estreiteza de visão, falta de perspicácia”.

No Evangelho segundo João, capítulo 4, há o registro de um encontro de Jesus com uma prostituta samaritana junto a um poço. Tal mulher era estigmatizada pela sociedade da qual fazia parte, era vítima de um olhar (e de um juízo) estereotipado acerca de sua pessoa e história. Este padrão de comportamento era tão entranhado na cultura, que a própria mulher se assustou ao se dar conta de que Jesus falava com ela (João 4:9); afinal, homens não conversavam em público com mulheres, muito menos estrangeiras, sobretudo, prostitutas.

Felizmente, Jesus não olha para as pessoas como nós o fazemos. Seu olhar é muito mais sensível e profundo, mais subjetivo, livre de toda espécie de condicionamentos e preconceitos. Enquanto as pessoas estabelecem seus juízos umas sobre as outras a partir do que vêem, Jesus concentra seu olhar naquilo que os olhos não podem contemplar. Seu foco é o coração, onde nascem todas as ações humanas. Ao contrário da mentalidade predominante, Jesus olhou para aquela mulher e viu nela alguém carente, que buscava nos homens com quem se relacionava uma forma de suprir uma demanda de afeto e provisão. Ao invés de vê-la como uma libertina, Jesus a viu como alguém dominada por uma sede tal que já não era capaz de discernir com clareza suas reais necessidades. Por este motivo, ele olha para ela e diz: “Se conheceras quem te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (João 4:10). Na visão de Jesus, o problema daquela mulher não era “falta de vergonha” ou de caráter, mas sede de sentir-se amada e acolhida, social e espiritualmente.

Fico pensando no modo como muitas vezes agimos. À maneira dos contemporâneos de Jesus, também nos deixamos conduzir pelos mesmos critérios e rejeitamos as pessoas antes mesmos de chegarmos a conhecê-las. Julgamos, tiramos conclusões apressadas, repudiamos e discriminamos quando poderíamos ser usados por Deus para oferecer água às pessoas se compreendêssemos a sede que as movem. Somos, porém, tão reféns do óbvio, do aparente, que negligenciamos o essencial. Mais ainda: temos tanta dificuldade de enxergar que negligenciamos nossa própria sede. Assim, temos água para beber e agimos como se não a tivéssemos ou como se não precisássemos dela, pois estamos todo tempo ocupados correndo atrás das mesmas coisas que condenamos na busca alheia. Tentamos saciar nossa sede de água viva consumindo produtos diversos, estilos de vida, relacionamentos, viagens, diplomas, etc. Nossa miopia é aguda, especialmente quando somos o objeto de nosso próprio olhar.

Que Deus nos ilumine os olhos e ensine a discernir entre lambretas e sacos de areia.

“Tenho sede!”

Nossa felicidade está ligada a um nova vocação
Nossa felicidade está ligada a um nova vocação

O indivíduo contemporâneo encontra-se perplexo. O momento histórico em que se encontra, por tratar-se de um tempo de profundas, sucessivas e aceleradas transformações, o faz sentir-se assim. Com efeito, a passagem de um momento cultural para outro – sobretudo esta passagem de um modelo de sociedade moderna, rigidamente assentada sobre a razão e de contornos claramente definidos, para este outro modelo ainda em emergência, pós-moderno, de características fluídas e contornos incertos – produz em todos nós um certo mal-estar, um misto de insegurança e ansiedade com uma sensação de vertigem inebriante e permanente.

Neste turbilhão de sensações e incertezas, o indivíduo contemporâneo fica mesmo sem saber para onde ir – ou a quem recorrer. Por este motivo, à semelhança de Forrest Gump, corre de um lado para outro sem realmente estar indo para lugar nenhum. Às voltas com esta correria frenética, ele sente-se vazio, solitário, deprimido, e muito cansado.

A passagem do Evangelho de João 19:28-30, relata as dores e os sentimentos ambíguos dos últimos instantes de Jesus na cruz do Calvário. Ao contrário de nós, indivíduos pós-modernos atônitos e desnorteados, Jesus está ciente de seu destino e do porquê dele, mas, exatamente como a gente, ele se encontra cansado; e sedendo: “Tenho sede!” – exclama exausto (v.28).

Não nos deixemos enganar: a sede de Jesus na cruz é sede de água. Não se trata de uma figura de linguagem, mas de uma necessidade vital. É sede de quem por 3 anos andou de um lugar para o outro fazendo o bem, se entregando às pessoas, curando enfermos, multiplicando pães, transformando água em vinho, lidando com oposições e intrigas, discipulando os futuros apóstolos, pregando o Evangelho do Reino e convidando as pessoas à conversão. Mas se é certo, por um lado, que sua sede ali era sede de água para beber, de outra parte, é igualmente seguro que sua sede não se restringia a isto. Pois o Jesus que vemos na cruz é certamente alguém vulnerável. É alguém que após três anos de entrega altruísta e apaixonada pelos demais, se encontra agora sozinho, negado por Pedro, traído pelo beijo de Judas, rejeitado pela multidão, e abandonado por Deus: “Deus meu, por que me desamparaste?”. A sede de Jesus na cruz é sede também de sentir-se amado, acolhido…

Paradoxalmente, logo antes de expirar pela última vez, Jesus balbucia duas pequenas palavras que nos permitem pensar que, em meio a todo aquele horror, ele foi capaz de viver a experiência de uma certa realização, de uma quase felicidade: “Está consumado” (v.30). Somente alguém que tem consciência de ter feito a sua parte, de ter cumprido a tarefa que lhe havia sido designada, entrega o seu espírito e se rende, sem receio, aos braços da morte .

Estas palavras de Jesus e os sentimentos que elas carregam convidam-nos a pensar que talvez a nossa porção nesta vida seja também o ser fiel, mais do que o ser feliz – ao menos nos termos em que a felicidade é hoje entendida; esta felicidade que é alcançada pela via do consumo, do prazer ilimitado, do sucesso e da exaltação do próprio ego. Se Jesus ali naquela cruz experimentou algum instante de felicidade, esta foi a felicidade de ter sido fiel a Deus e não a ter ficado rico, de ter aproveitado a vida ao máximo, de ter alcançado o sucesso e a admiração das outras pessoas. Obviamente, isto não significa que Deus não queira a nossa felicidade, mas significa tão somente que a felicidade que ele tem para nós é de outro tipo.

Na seqüência da narrativa evangélica, Jesus morre, ressuscita, se encontra com os discípulos e vai atrás de Pedro que, diante da crucificação, tinha resolvido “retomar” a vida de onde ela havia parado – pois o sonho que nutria no coração não se concretizara: o reino de Deus não viera, Jesus não fora coroado, etc. Pedro, de certo modo, trazia no coração um ideal de felicidade diferente do que Deus tinha para ele. Mas quando, finalmente, Jesus o encontrou, tudo se esclareceu. Três vezes Jesus perguntou a Pedro ao redor de uma fogueira: “Tu me amas?”. Em vista da resposta afirmativa do discípulo, replicou: “Pastoreia então as minhas ovelhas”. Ora, quem como Pedro, diz sim a pergunta de Jesus recebe uma nova vocação: a de ser pastor. Este é o ideal de felicidade que Deus tinha para Pedro e tem para nós: que nos pastoreemos mutuamente, que aprendamos a cuidar uns dos outros. Se formos fieis nisto, saciaremos finalmente a nossa sede de felicidade e encontraremos sentido para as nossas vidas.

Resta, porém, uma pergunta: se a felicidade que Deus tem para nós é outra, como a gente se desprende deste ideal de felicidade narcisista dominante em nossos dias? Como saímos de sob o jugo de termos de “ser felizes” à maneira pós-moderna para abraçarmos o projeto de felicidade que Deus tem para cada um de nós? Bem, é provável que haja mais de um caminho a se trilhar para se alcançar este objetivo. Eu, porém, conheço apenas um. Nas palavras do próprio Cristo de Nazaré: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24).

A igreja e a missão

O Pai que nos criou também tomou a iniciativa de nossa salvação
O Pai que cria também toma a iniciativa de salvar

O que vem primeiro: a igreja ou a missão? É a igreja que tem uma missão ou é a missão que tem uma igreja?

Segundo as narrativas evangélicas, Jesus inicia sua atividade proclamando o Reino de Deus (Mc 1:14-15). E em função deste Reino, orienta e organiza todo seu ministério: conta parábolas para explicá-lo, realiza milagres para revelar que ele já começou a operar nas vidas das pessoas, e chama discípulos para plantar neles a esperança do Reino e o compromisso com sua construção.

Com exceção de duas passagens em Mateus – Mt 16:18 e Mt 18:17 – jamais vemos Jesus falando em igreja. Em contrapartida, a expressão “Reino de Deus” aparece mais de 250 vezes nos Evangelhos, a grande maioria das vezes nos lábios de nosso Senhor.

Teologicamente falando, a igreja nasce no dia de Pentecostes com a descida do Espírito Santo. Antes disto, porém, Jesus já havia entregue a missão a seus discípulos (Mt 28:19-20) que aguardavam reunidos o cumprimento da promessa pela qual seriam capacitados para realizá-la (At 1). Foi com esta finalidade que Jesus os chamou para seguí-lo.

A missão, portanto, é anterior à igreja. Logo, não é a igreja que tem uma missão, mas é a missão tem uma igreja. Esta existe como serva e instrumento daquela. A igreja não existe para enviar, mas existe como enviada.

É fundamental a compreensão acima. Ela, porém, nos coloca uma pergunta: se a missão não é da igreja, de quem é? Ora, a missão é de Deus (João 3:16). Ela foi confiada à igreja, mas ela é de Deus (Missio Dei). Deus é quem deseja salvar e quem, afinal, salva a humanidade. Ele enviou seu filho para realizar esta missão e incumbiu a igreja de continuá-la.

Mas ainda uma última pergunta fica sem resposta: quem é, afinal, este Deus da Missão? O Deus da missão é Abbá, o Pai de Jesus Cristo – um Deus amoroso e solidário que deseja o bem da humanidade. Abba é dinamismo de amor sem limites e fonte de toda ternura e graça. Ele é Trindade.

Segundo a tradição teológica latina, nos tempos eternos somente o Pai era. “Princípio sem princípio, origem sem origem”, dizia Agostinho. Mas por ser amor, o Pai não podia suportar “ser” sozinho. Ele então faz um movimento para fora de si e gera o Filho e, com o Filho, o Espírito. Ainda tomado por este amor que não cabe em si mesmo, Ele se  projeta para além de si mesmo e cria a humanidade para amá-la e ser amado por ela; para incluí-la neste círculo de amor e comunhão.

Abbá, o Deus do Reino é um Deus relacional. Ele nos ama e busca ser amado de volta por nós. Nisto consiste a Missio Dei. E para que este suspiro do coração divino se realize na sua vida e na minha, existe a igreja.