Noutra direção

Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos: se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:35

Nunca foi intenção da Reforma fundar uma outra igreja ou nova religião. O movimento propunha-se antes a renovar o cristianismo ocidental por meio de um retorno à Palavra de Deus como fonte fundamental e critério definitivo a partir do qual todos os aspectos da fé e da vida cristãs deveriam ser julgados.

Desde essa perspectiva, os reformadores não hesitaram em romper com certos conceitos e práticas da igreja romana tendo o cuidado, entretanto, de manter e preservar todo um patrimônio espiritual, doutrinário, ético e litúrgico milenar constitutivo do próprio cristianismo.

Acontece que tais esforços revelaram-se insuficientes. Os cortes e as revisões reivindicados pelos reformadores foram percebidos pela igreja romana como inaceitáveis. De outra parte, a radicalização crescente do movimento que se alastrava e ganhava novas expressões e agendas levou à interrupção do diálogo e ao confronto aberto. O resultado foi o rompimento definitivo. A Igreja de Cristo já dividida entre Ocidente e Oriente, agora se fragmentava ainda mais.

O fator determinante na fixação da identidade dos novos grupos resultantes do cisma foi o quão profundamente cada um entendeu que seria necessário fazer o corte nas mais diversas questões. Assim, calvinistas, luteranos, anglicanos e anabatistas divergiram não apenas do catolicismo, mas também entre si.

Em virtude da obsessiva preocupação que nutriu pela busca da verdade – busca essa conduzida sob a luz da Sagrada Escritura diversamente lida e interpretada por cada grupo particular – tal fragmentação interna do movimento era inevitável. Uma lógica exclusivista orientou e perpassou todo o processo: “se é desse jeito, então não pode ser de nenhum outro”. Ora, a perpetuação dessa lógica implicaria em sucessivas e intermináveis divisões como de fato veio a ocorrer na história do cristianismo.

Seria possível superar esse quadro? Como? A Conferência Mundial de “Fé e Constituição” ocorrida em Lund, na Suécia, em 1925, apontou um caminho que parece promissor: o de uma convergência que se oriente não no sentido de uns para os outros, mas “de todos na direção de Cristo, no qual está a verdade e a unidade”. Não se trata, portanto, de pedir às diversas igrejas que busquem em seus corpos doutrinários e tradições particulares pontos de convergência e uma base comum. Pois à toda e qualquer experiência cristã no Ocidente subjaz uma base única que consiste de 1500 anos de história e teologia. Ora, se todo esse capital compartilhado não significou até hoje uma base comum ampla e sólida o bastante para inspirar e alicerçar uma convergência de todas as partes entre si, é porque nos encontramos diante da clara necessidade de um outro tipo de esforço.

Após cinco séculos de infindáveis rupturas e subdivisões, não teria chegado o momento de tentarmos algo realmente novo? Algo que não violente às identidades das diferentes tradições cristãs há séculos consolidadas? Será, portanto, que ao invés de partirmos do que temos não deveríamos partir então do que não temos? Será que em lugar de seguirmos buscando saber quem está com a razão, não seria este o momento de nos abrirmos para o fato de que estamos todos parcialmente errados? Será que não deveríamos nos render a realidade de que Deus é mistério inabarcável além de toda compreensão? E se em lugar do sempre insuficiente catafatismo protestante (via afirmativa) nós incorporássemos a nossa teologia o espírito da tradição apofática (via negativa)? Será que ao invés de negarmos a validade da experiência das outras igrejas não seria o caso de as afirmarmos ao lado da nossa? Será que da conjugação de nossas parciais e precárias compreensões particulares de Deus não emergiria uma visão mais abrangente e um pouco mais próxima de como Deus realmente é? Não seria este então o tempo de substituirmos a fracassada lógica exclusivista por uma outra lógica inclusiva e ecumênica?

Uma igreja dividida não pode dar testemunho de um Cristo inteiro. Tampouco tem condições de anunciar a pessoas e nações o Evangelho da reconciliação, do perdão infinito, do amor incondicional de Deus. A Igreja de Jesus Cristo – Católica e Protestante (e também Pentecostal) – encontra-se assim diante da obrigação moral de lutar pelo emergir de um outro momento na história do cristianismo, um novo kairós divino que terá na abertura ao Espírito, na tolerância e na comensalidade seus pilares fundamentais e em Cristo seu horizonte.

Urge, enfim, que as denominações e tradições cristãs diversas ouçam o convite da Conferência de Lund e dêem as mãos umas às outras para juntas seguirem na direção do único noivo e cabeça do Igreja, aquele que um dia finalmente será “tudo em todos” (1Co 15:28).

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Consumismo religioso

 

Consumidor insatisfeito: "O culto não me acrescentou nada"

 

“Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o Senhor exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (Mq 6:8)

 

O consumismo é um fenômeno recente. Surgiu nas primeiras décadas do séc. XX. Antes disso, como bem apontou Max Weber, a lógica que regia a mentalidade das pessoas com relação ao dinheiro e aos hábitos de consumo era a lógica calvinista da poupança orientada pelo princípio da necessidade. Foi o advento da (1) produção em larga escala, da (2) propaganda e do (3) crédito, entre os anos de 1920 a 1940, que combinados levaram as pessoas a substituírem aquela lógica austera por uma outra de corte mais hedonista orientada pelo princípio do prazer, do bem-estar. Compra-se a partir de agora, não mais para suprir uma necessidade, mas pelo prazer de comprar, pelo bem-estar resultante da experiência da compra.

Em si, o ato de consumir não é negativo ou pecaminoso. Ao contrário: ele movimenta a economia, gera empregos, cria riqueza… Não há nada moralmente errado em consumir. O problema está no que hoje se tem chamado de hiperconsumo. É o comprar frenético, compulsivo, desconectado do princípio da necessidade e do bom senso. É o consumo como meio de obter satisfação e sentido para a vida. Eis aqui a diferença entre o consumidor e o indivíduo consumista: aquele consome visando suprir uma necessidade objetiva, este visando sanar uma demanda do ser, da subjetividade.

Esse ponto precisa estar claro: o consumista não está em busca do bem propriamente dito, mas da satisfação de adquirí-lo. A evidência disso é que ele compra inclusive o que não tem necessidade e, via de regra, o que sua condição financeira não lhe permitiria. Daí que viva sempre endividado. E entediado. Pois a satisfação advinda do consumo, embora real, é fugaz e passageira exigindo sempre novas e sucessivas doses.

O mais grave em tudo isso, porém, é o fato de o consumismo constituir uma lógica e, como tal,  transferir-se para outras esferas da vida das pessoas. Ninguém se engane: o indivíduo consumista não consome apenas bens materiais e mercadorias. Ele consome tudo: cultura, informação, relacionamentos, lazer, moradia, tecnologia, beleza, saúde, sexo, bem-estar e até religião.

Isso foi mais ou menos o que aconteceu com Israel nos dias do profeta Miquéias (Mq 6). O povo deixou de adorar e servir a Deus, para tornar-se consumidor de religião. Com efeito, o consumismo religioso o transformou num povo que se achava no direito de cobrar coisas de Deus enquanto viviam vidas tortas, cheias de pecado e impiedade. Mais que isso: os levou a acreditar que poderiam comprar o favor divino com sacrifícios e holocaustos (v.6-7). Em função de todo esse quadro, a espiritualidade daquela gente se desvirtuou perdendo sua força ética. Esse é o grande problema de nos tornarmos consumidores religiosos: perdemos de vista a exigência ética de transformação inerente a toda genuína experiência religiosa. E então passamos a consumir sermões, estudos bíblicos, louvores, reuniões de oração, livros evangélicos, retiros, etc., sem que essas coisas nos afetem, nos ajudem no processo de nos tornarmos pessoas melhores à semelhança de Cristo.

Não obstante a atitude do povo, Deus deixara muito claro o que esperava (v.8): que eles (1) praticassem a justiça, (2) amessem a fidelidade e (3) andessem humildemente com Deus. Como a lógica do consumismo religioso perverteu a compreensão dessas exigências na espiritualidade de Israel? Como ela perverte tais exigências em nossa espiritualidade hoje?

Primeiramente, a mentalidade consumista leva a pessoa de fé a identificar a exigência de praticar a justiça com o cumprir prescrições e ritos religiosos (v.3-5). Infelizmente, Israel conheceu isso. Nos dias do profeta Miquéias, o povo de Deus veio a acreditar que sacrificar carneiros e bezerrros era o mesmo que fazer o bem, que fazer valer o direito do orfão e da viúva, do pobre e da terra. Ele passou a crer que consumir rituais e freqüentar o templo equivalia a fazer a vontade de Deus, a ser justo diante de seus olhos. Esse é um grave desvio que a lógica do consumo provoca na experiência religiosa. Ele altera o quadro hermenêutico a partir do qual interpretamos a exigência ética de transformação social e política privatizando e espiritualizando a fé. Teria nossa clássica apatia e indiferença com relação a essas dimensões da vida algo a ver com isso? Cabe perguntar: não é assim que a maioria de nós evangélicos entende as célebres palavras de Jesus sobre a primordialidade do Reino: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33)? Não é verdade que compreendemos tal exigência em termos de leitura disciplinada da bíblia, vida de oração e freqüência assídua aos cultos? Não é assim que garantimos que “todas as coisas” nos sejam acrescentadas? Não estaríamos nós também contaminados por essa lógica consumista? Será que nos tornamos também consumidores de religião?

Em segundo lugar, a lógica do consumo distorce a vida de fé produzindo uma negligência em relação à exigência divina de fidelidade dando ensejo, por conseguinte, a idolatria (v.16). Ao contrário da religiosidade saudável que se compromete com Deus porque o ama, porque desejo contentá-lo e fazê-lo somente para ele, o consumismo religioso é volúvel e mesmo infiel. A causa disso é óbvia: o consumidor religioso não constrói uma relação de amor com Deus, mas de utilidade. Se, portanto, existe uma outra divindade que melhor me serve, então por que não me voltar para ela? Assim operava a espiritualidade de Israel que, a semelhança do que houve nos dias do profeta Elias, ainda vivia flertando com Baal, cocheando entre ele e Iavé, o Senhor. Em nosso caso hoje, a divindade que mais nos seduz é Mamon. E o problema não se restrige apenas aos tele-evangelistas que descaradamente mercadejam o Evangelho vendendo novas formas de indulgências, mas a toda a igreja no país que se vê às voltas com o seguinte dilema: “temos usado nossas riquezas para servir a Deus ou temos usado Deus para enriquecermos?”.  O Senhor tenha misericórdia de nós.

Finalmente, a lógica do consumo perverte a experiência religiosa provocando uma terrível inversão: ao invés de nos tornar mais humildes, nos torna arrogantes em relação a Deus (v.1-3). Lendo o oráculo proferido pelo profeta Miquéias, constamos que o povo estava reclamando de Deus pois acreditava ter direito a melhor sorte a despeito de seus maus caminhos. Sem sombra de dúvida, tal atitude nasce da crença, segundo a lógica consumista, de que o consumidor tem sempre razão, detém toda autoridade e, por isso, encontra-se em lugar de fazer exigências. Cumpria a Deus, reduzido ali a figura de um balconista obediente, atender-lhes os desejos. Deus então os confronta solenimente colocando as coisas em seus devidos lugares e pedindo do povo explicações: “Ouçam o que diz o Senhor: Fique em pé, defenda a sua causa; que as colinas ouçam o que você tem para dizer. Ouçam, ó montes, a acusação do Senhor; escutem, alicerces eternos da terra. Pois o Senhor tem uma acusação contra o seu povo; ele está entrando em juízo contra Israel”. O que o Senhor diria para nós se hoje nos chamasse a sua presença? Será que teria de nos recordar da verdade proferida pelo pregador de Eclesiastes: “Deus está nos céus, e você está na terra, por isso, fale pouco”? Ou, colocando a questão de outro modo: o que nós mereceríamos ouvir dos lábios do Senhor?

O critério definitivo para responder essa pergunta é o mesmo que nos ajudará a discernir se nos mantemos ligados a Deus através de uma relação de adoração e serviço ou se em virtude de uma relação de consumo religioso. Toda essa movimentação, esse ir e vir a igreja, esse monte de retiros e encontros e seminários, as muitas vígilias e reuniões, os livros lidos e os sermões ouvidos tem nos transformado em gente cheia de Deus? Tem efetivamente contribuído para nos fazer pessoas mais parecidas com Cristo? Gente mais cheia de amor, de compaixão, de indignação perante a injustiça e solidariedade para com o necessitado? Ou nos tornamos apenas consumidores de religião?

Essa pergunta, cabe a cada um responder.

A retórica da morte e o Deus da vida

Não se trata de defender marginal, mas de proteger o ser humano.


“Então o Rei dirá às ovelhas à sua direita: “Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram”. Então os justos lhe responderão: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar?” O Rei responderá: “Digo-lhes a verdade: O que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram”. (Mateus 25:34-40)

Todos acompanhamos pelos meios de comunicação a onda de violência que culminou no último domingo na tomada do Complexo do Alemão pelas forças de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro – as Polícias Civil, Militar e Florestal – em conjunto com as forças armadas do Brasil, nomeadamente, a Marinha e o Exército.

As causas de toda essa violência são conhecidas: a (1) desigualdade e injustiça social, a (2) falta de vontade política, a (3) indiferença e conivência do Estado que se beneficia da ignorância e da pobreza da população, o (4) contingente policial reduzido, despreparado e mal-remunerado, a (5) hipocrisia de setores da sociedade que sustentam o tráfico através do consumo de drogas, as (6) limitações da legislação criminal, a (7) corrupção na Polícia, na Política e no Poder Judiciário, a (8) impunidade, a (9) crise do sistema penitenciário, o (10) contrabando de armas, o (11) desrespeito pela vida, etc. A lista é longa. E igualmente extensa é a relação das ações necessárias para virarmos em definitivo essa página. Haverá solução?

Toda essa conjuntura nos afeta profundamente. Como cidadãos, sentimo-nos desprotegidos, vulneráveis, traídos, indignados e – o pior de tudo – sem esperança. Tornarmo-nos, desse modo, presas fáceis de um certo discurso irracional e truculento que vê no extermínio sumário dos atores desse circo de horror a única solução possível para o presente quadro. “Tem de matar todo mundo” – repetimos com gosto de sangue na boca.

Sejamos sinceros: quem não desejou a morte daqueles rapazes pardos e favelados que armados até os dentes chegavam de moto na comunidade da Vila Cruzeiro enquanto zombavam das autoridades instituídas e espalhavam o terror pela cidade? Quem não torceu para que, ao invés da rendição, houvesse uma chacina, um implacável banho de sangue, na manhã do último domingo?

Engana-se, porém, quem imagina que isso solucionaria o problema. Afinal, existem filas e filas de meninos naquela e em diversas outras favelas sonhando com a oportunidade de ocupar os lugares dos traficantes que lá estão hoje. Disto ninguém se engane: os nossos vilões, são os heróis deles para quem, aliás, nós do asfalto, a polícia, e o Estado são os verdadeiros criminosos. Na cabeça dessas crianças, os traficantes mortos na guerra urbana são mártires que pagaram com a própria vida o preço da rebeldia e não-adequação aos padrões questionáveis de uma sociedade hipócrita, egoísta e indiferente.

Já o filme Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles, mostrou como essa lógica opera. Depois vieram Tropa de Elite 1 e 2, deixando claro que quem cria e sustenta o traficante é, de um lado, o usuário de drogas das classes média e alta que hipocritamente fuma seu baseado enquanto discute o problema da violência urbana e, de outro, o governo, que manipula a opinião pública combatendo ou não o problema na medida em que tal ação pode ser ou não revertida em voto.

Como se vê, não é tão fácil como a primeira vista talvez pareça dizer com segurança quem é o vilão e quem é o mocinho nessa história. É também por este motivo que este tipo de discurso simplista e truculento é inadmissível e precisa ser confrontado. Muito para além disso, no entanto, a principal razão para se combater essa retórica da violência reside no fato de que tal constitui grave afronta aos direitos humanos, aos fundamentos do Estado democrático de direito e, sobretudo, ao Deus da vida.

Mas como assim? Por que essa mentalidade representa uma traição ao Deus de Jesus Cristo? Por que, como cristãos, não podemos nos permitir pensar dessa maneira?

Por uma razão decisiva: a vida é um direito concedido por Deus aos seres humanos e uma responsabilidade atribuída à igreja por Jesus Cristo. À luz dessa verdade, a fome, a nudez, a enfermidade, a indiferença, o desamparo, e a violência dentre tantas outras coisas se revelam forças contrárias ao dom outorgado por Deus a nós. São forças antagônicas ao querer divino, ao Reino de Deus e à vida abundante em Cristo Jesus; forças de morte que ameaçam e podem fazer morrer a vida. Ora, era justamente visando combater e cancelar tais forças que Jesus curava os enfermos, libertava os endemoninhados, acolhia os menosprezados e alimentava a multidão quando esta tinha fome. Ele sabia o valor da vida humana e esforçava-se por afirmá-la, defendê-la, promovê-la, e plenificá-la. A ética e a retórica de Jesus não eram a da morte, mas da vida, do novo nascimento, da ressurreição. Daí que ele andasse “por toda parte fazendo o bem” (At 10:38). Mais tarde, incumbiria a igreja desta gratificante tarefa.

Precisamente por essa razão não podemos nos unir ao coro daqueles que pedem a morte de quem quer que seja, especialmente de traficantes e bandidos que, em grande medida, ajudamos a criar. Não nos esqueçamos que dois mil anos atrás a opinião pública também pediu a morte de Jesus. A violência a nossa volta não pode nos tornar violentos. Seria uma dupla derrota. Portanto, ao invés de engrossarmos as fileiras das forças de morte aliando-nos aquele que veio matar, roubar e destruir, e traindo assim nossa vocação fundamental como igreja de Jesus Cristo, cumpre-nos agir em todo tempo como pacificadores, como agentes de paz e reconciliação. Afinal, estamos a serviço da vida. Esta é a marca inconfundível nos distinguirá no último dia como ovelhas de Jesus: a solidariedade dirigida a essa gente para quem o mundo deu as costas e Jesus abriu os braços na cruz do Calvário ao preço da própria vida.

Vocação

Deus tem te chamado para quê? E para onde?
Deus tem te chamado para quê? E para onde?

Vocação é um chamado. Ou melhor, dois. Um que vem de dentro, que habita a nossa alma, e um outro que vem de fora e pertence ao domínio do mundo. Aquele primeiro é um chamado de amor, este último, de responsabilidade. Aquele, um chamado para ser. Este, para servir. Ambos nascem em Deus, mas concretizam-se no tempo e na História.

O simples recurso à etimologia da palavra nos ajuda muito: voc-ação. Do latim “voc-” (variação de “vox”, de onde vem “voz”) e “ação” (ato ou efeito de agir, movimento, atitude). Vocação, portanto, quer dizer: voz que chama, que interpela, que convida à ação. Daí que vocação seja sempre um “chamado a ser-para”, isto é, uma voz que articula em nível profundo identidade e missão, ser e realizar. Dois exemplos: o primeiro, em nível pessoal-profissional e o segundo, em nível eclesial-comunitário. Pois é certo que o conceito se aplica em ambos os domínios.

Pensemos na figura de um jovem que sonha tornar-se um advogado. Ele é alguém em cujo coração arde a chama da justiça. Sua bandeira é a da vida e da retidão. De Deus, recebeu o dom do discernimento. É alguém capaz de expressar-se com clareza, de argumentar e persuadir. Cursou até uma faculdade de Direito. Todo esse potencial, no entanto, não faz dele um advogado (procurador da causa do outro). Pois para vir a sê-lo, precisará dar um passo para fora de si e se colocar a serviço de seu semelhante no interesse da justiça. E assim, quanto mais o jovem for capaz de sair si em direção àqueles que necessitam ser defendidos e ter seu direito assegurado, tanto mais advogado ele será.

Em nível eclesial, devemos considerar que nossa vocação é ser Igreja de Jesus Cristo para o mundo de hoje. Isso significa que os dons e talentos, a paz e a alegria, a força e a unção que do Santo Espírito recebemos são necessariamente para serem usados no mundo e a serviço do mundo, hoje, para a glória de Deus. Pois assim como para ser advogado não basta possuir um diploma ou ter as habilidades que a função requer, para ser Igreja de Jesus Cristo, não basta possuir dons espirituais ou estar organizado em torno de uma fé comum. Para além disso (mas não sem isso), ser Igreja exige também contato com o mundo, conhecimento de seus suspiros e necessidades e, afinal, o estender voluntário de nossas mãos como serviço e culto ao próprio Cristo (Mt 25,31-46). E assim, quanto mais a igreja saí de si e se abre para o mundo com suas ambigüidades e contradições, tanto mais Igreja de Jesus Cristo ela é.

Ora, o que acima foi dito pode ser colocado num simples esquema: potencialidade + necessidade = vocação. Quer dizer: do encontro do chamado ao ser que vem de dentro – nossos dons e talentos inatos – com o chamado ao serviço que vem de fora – os desafios e as urgências do contexto em que estamos inseridos – é que emerge a nossa vocação (quer como indivíduo, quer como igreja). Tal encontro, porém, ocorre na medida em que nos abrimos à ação do Espírito Santo em nossas vidas. Ele, com efeito, é quem nos ensina a ouvir e a unir poderosamente essas duas vozes. Aqui parece oportuno lembrar a intuição do grande teólogo suíço Karl Barth que dizia que o mesmo Espírito que fala conosco por meio da leitura das Escrituras, fala conosco também por meio da leitura dos jornais.

Importa assinalar, à guisa de conclusão, que mais fundamental do que possuir uma vocação é deixar-se possuir por ela. Pois por aí passa o caminho de nossa felicidade e realização como Igreja de Jesus Cristo e como seres humanos no mundo.

Sobre viver e morrer

A morte do meu tio me fez pensar sobre minha vida
A morte nos faz parar para pensar sobre a vida

 

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec 7:2).

 

Hoje sepultei um parente querido: meu tio Célio, irmão mais velho do meu pai. Ele já não vinha muito bem de saúde, é verdade, mas sua morte não deixou de ser uma surpresa.

Enquanto dirigia para o cemitério pensava sobre a vida e a morte. Pensava sobre minha família que de tão grande somente se reúne em ocasiões extremas: ou muito alegres e festivas como casamentos e bodas, ou muito tristes como funerais. Fiquei pensando no sofrimento do meu pai, dos meus tios e tias, meus primos… Pensei também nos que já partiram: tio Nilson, tia Gracinha, Pipe… Pensei na minha avó que morreu sem que eu pudesse me despedir dela – estava morando nos EUA, à época. Pensei em Guto, meu irmão, e na minha mãe que, por não ter condições de suportar a dor, mal fala do meu irmãozinho. Ele hoje seria um homem.

Em meio ao caos urbano e ao barulho de motores e buzinas, pensei em Karine, minha mulher, e em Hugo e Theo, meus dois filhinhos. Imaginei o quão insuportável seria a dor de não tê-los mais. Pensei também na igreja – na Betânia, que há pouco completou 43 anos, e na Betânia Litorânea que ainda está sendo gestada. Vida que segue e vida por nascer.

Pensei em tantas coisas importantes que logo me dei conta do quanto penso pouco sobre elas. Percebi o quanto elegemos prioridades equivocadas e em como gastamos nossa vida correndo atrás do vento. “Vaidade de vaidades”, dizia Salomão, “tudo é vaidade” (Ec 1:2). Será que estamos destinados a viver assim?

A morte do meu tio Célio despertou-me para a necessidade de recobrar a lucidez. Pois me dei conta de que chorei a partida de alguém que, na realidade, nunca conheci. Convivi com tio Celinho toda a minha vida e quantas vezes conversamos para além do trivial? Quantas coisas ele tinha para dizer que nunca lhe foram perguntadas? Quantas estórias para contar que nunca parei para ouvi? Quantos conselhos para oferecer?

É estranho como nossa vida é frágil e vulnerável. E como nossa percepção das coisas é lenta. Perguntei-me: quantas pessoas mais precisarão morrer para que eu me dê conta de que desperdicei a oportunidade de conhecê-las realmente? Quantas pessoas mais precisarei perder para que possa finalmente descobrí-las? Talvez não haja desgraça maior neste mundo do que não perceber que o grande dom da vida é o outro.

Não posso mais seguir vivendo tão destraído e ensimesmado. Solidão, às vezes, é um mal que nos auto-impomos. Quero, a partir de hoje, estar mais perto de quem amo. Quero poder conhecê-los: minha mulher, meus filhos, meus pais, meu Deus, meus amigos. Quero ouvir suas histórias, seus sonhos, suas queixas, seus testemunhos. Hoje, no velório do meu tio Celinho, chorei não apenas sua morte, mas também a minha.

 

A igreja e a missão

O Pai que nos criou também tomou a iniciativa de nossa salvação
O Pai que cria também toma a iniciativa de salvar

O que vem primeiro: a igreja ou a missão? É a igreja que tem uma missão ou é a missão que tem uma igreja?

Segundo as narrativas evangélicas, Jesus inicia sua atividade proclamando o Reino de Deus (Mc 1:14-15). E em função deste Reino, orienta e organiza todo seu ministério: conta parábolas para explicá-lo, realiza milagres para revelar que ele já começou a operar nas vidas das pessoas, e chama discípulos para plantar neles a esperança do Reino e o compromisso com sua construção.

Com exceção de duas passagens em Mateus – Mt 16:18 e Mt 18:17 – jamais vemos Jesus falando em igreja. Em contrapartida, a expressão “Reino de Deus” aparece mais de 250 vezes nos Evangelhos, a grande maioria das vezes nos lábios de nosso Senhor.

Teologicamente falando, a igreja nasce no dia de Pentecostes com a descida do Espírito Santo. Antes disto, porém, Jesus já havia entregue a missão a seus discípulos (Mt 28:19-20) que aguardavam reunidos o cumprimento da promessa pela qual seriam capacitados para realizá-la (At 1). Foi com esta finalidade que Jesus os chamou para seguí-lo.

A missão, portanto, é anterior à igreja. Logo, não é a igreja que tem uma missão, mas é a missão tem uma igreja. Esta existe como serva e instrumento daquela. A igreja não existe para enviar, mas existe como enviada.

É fundamental a compreensão acima. Ela, porém, nos coloca uma pergunta: se a missão não é da igreja, de quem é? Ora, a missão é de Deus (João 3:16). Ela foi confiada à igreja, mas ela é de Deus (Missio Dei). Deus é quem deseja salvar e quem, afinal, salva a humanidade. Ele enviou seu filho para realizar esta missão e incumbiu a igreja de continuá-la.

Mas ainda uma última pergunta fica sem resposta: quem é, afinal, este Deus da Missão? O Deus da missão é Abbá, o Pai de Jesus Cristo – um Deus amoroso e solidário que deseja o bem da humanidade. Abba é dinamismo de amor sem limites e fonte de toda ternura e graça. Ele é Trindade.

Segundo a tradição teológica latina, nos tempos eternos somente o Pai era. “Princípio sem princípio, origem sem origem”, dizia Agostinho. Mas por ser amor, o Pai não podia suportar “ser” sozinho. Ele então faz um movimento para fora de si e gera o Filho e, com o Filho, o Espírito. Ainda tomado por este amor que não cabe em si mesmo, Ele se  projeta para além de si mesmo e cria a humanidade para amá-la e ser amado por ela; para incluí-la neste círculo de amor e comunhão.

Abbá, o Deus do Reino é um Deus relacional. Ele nos ama e busca ser amado de volta por nós. Nisto consiste a Missio Dei. E para que este suspiro do coração divino se realize na sua vida e na minha, existe a igreja.

A Importância da Igreja

A igreja é uma referência imprescindível
A igreja é uma referência vital para a sociedade

As profecias pessimistas dos mestres da suspeita – Marx, Freud e Nietzsche – estavam erradas: apesar dos duros golpes que sofreu durante a modernidade, Deus não morreu, a religião não desapareceu do mapa e nem tampouco a igreja fechou em definitivo as suas portas. Muito pelo contrário. A religião hoje está de volta e com força total. E, alimentadas por este retorno do sagrado, as igrejas estão multiplicando-se por toda parte, experimentando um crescimento como há muito não se via.

Não obstante este novo momento cultural, muitas pessoas seguem se perguntando pela importância da igreja, sobre que tipo de diferença ela faz na sociedade. Aponto aqui duas razões pelas quais entendo ser a igreja importante para a sociedade contemporânea.

Primeiramente, a igreja é importante porque ela é um raro contraponto ao individualismo reinante em nossos dias. Nestes tempos altamente competitivos onde o outro cada vez mais é percebido como alguém que concorre comigo por um lugar ao sol, valores como o altruísmo, a generosidade e a gratuidade tendem a desaparecer. A sociedade, no entanto, não pode prescindir deles, pois constituem importante contrapeso para a manutenção do equilíbrio da relação eu-tu sobre a qual a vida social se edifica. Ao cultivar e encorajar a vivência cotidiana de tais valores, a igreja contribui significativamente para a saúde social impedindo-nos de tomar o caminho sem volta do egocentrismo absoluto.

Uma segunda razão pela qual julgo ser importante a presença da igreja na sociedade tem a ver com a esperança que ela encarna e proclama. Neste nosso contexto brasileiro de tantas más-notícias, a igreja insiste rebeldemente em ser um foco irradiador da boa-notícia de salvação e esperança do reino de Deus. Contra todas as evidências contrárias, a igreja teimosamente anuncia o triunfo do bem sobre o mal, a vitória da vida sobre a morte, o êxito da saúde sobre a doença, etc. E este anuncio é imprescindível, pois livra-nos do fatalismo e da depressão.

Enfim, a igreja é importante pois contribui fundamentalmente para a saúde social através do incentivo à gratuidade e ao altruísmo bem como por meio do anúncio insistente de uma esperança rebelde a todo enquadramento melancólico e fatalista. Ademais, a igreja constitui sinal e metáfora da nova humanidade redimida que tanto necessitamos ver emergir.

Paternidade e sacerdócio

 

Com a paternidade vem o privilégio do pastoreio dos filhos.

Quando hoje penso sobre a minha infância, lembro-me do meu pai como a principal referência espiritual que tinha. A imagem dele ajoelhado à beira da cama orando no início do dia me acompanha até hoje. Lembro-me com carinho e saudade dos cultos domésticos que ele conduzia e dos dias de jejum. Lembro-me também (como esquecer?) do bordão que ele repetia incansável ao longo dos rebeldes e turbulentos anos de minha adolescência: “A Bíblia ensina que os pais devem inculcar nos filhos a Palavra de Deus (Dt 6,7). Inculcar. Sabe o que isto significa? Significa repetir até entrar na cabeça”. Posso ainda ouví-lo com clareza. Meu pai era – e continua sendo – um homem temente a Deus. De tudo que me deu na vida, nada foi ou será mais precioso do que este exemplo.

Alguém talvez pudesse alegar que estou escrevendo estas coisas apenas porque hoje celebramos o dia dos pais. Ora, num certo sentido, isto é verdade. Mas, no fundo, estou escrevendo estas linhas porque não posso evitar de fazê-lo. Não posso me eximir de falar sobre um exemplo que marcou tão decisivamente a minha vida quando a minha volta cresce o número de homens cujo compromisso espiritual com seus filhos se resume em levá-los à igreja. São homens crentes que por necessidade ou conveniência “tercerizaram” a formação espiritual de seu filhos delegando-a à igreja ou deixando-a inteiramente a cargo das mães.  

Há um relato belíssimo no livro de Jó que revela o compromisso que este homem possuia com a vida espiritual de seus filhos: “[…] chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles. Assim fazia Jó continuamente” (Jó 1,5). Como fica claro por esta passagem, na antigüidade, era dever do homem cuidar da vida espiritual de sua esposa e seus filhos ensinando-lhes as tradições familiares e a vida piedosa. O pai era assim a referência e a autoridade espiritual de toda a família. Ele era o sacerdote, o pastor de seus filhos e de toda sua casa. Portanto, esta compreensão atual da figura do pastor da igreja como o primeiro responsável pela formação espiritual das crianças e adolescentes da comunidade de fé é equivocada.

Não creio que estas noções sejam desconhecidas da maioria. Todavia, com freqüência, não as vemos em exercício nos lares cristãos por aí. É uma pena. Pois o exercício da paternidade constitui a principal oportunidade que Deus nos dá de nos transformarmos em pessoas melhores. Todos sabemos: educar consiste em encarnar o ensino que se busca transmitir a fim de que nossas palavras ganhem textura e longevidade nas vidas de nossos filhinhos. Como diz o famoso provérbio: “Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele”. Não se trata de mostrar o caminho, de indicá-lo, mas de trilhá-lo ao lado do seu filho. Ser a educação que se quer passar.

Aqui reside a oportunidade de transformação que a paternidade representa. Pois para ser exemplo para o meu filho, preciso primeiro mudar. E se a saúde espiritual do meu filho não for motivação suficiente para que eu busque em Deus esta transformação, o que será?

Que neste dia dos pais cada homem a quem foi dado o privilégio e a bênção da paternidade possa se voltar para o exemplo do meu pai – José Marques – e de tantos outros como ele para se inspirar e encontrar um norte para o qual possa seguir alegre e cheio de esperança.

Feliz Dia dos Pais.