A esperança cristã

Esperamos contra a própria esperança
Esperamos contra a própria esperança

A esperança cristã se funda na promessa divina de que a criação e, particularmente, a vida humana não se limitam a esta experiência terrena, mas a extrapolam adentrando o mais-além – a eternidade – onde serão plenificadas e celebradas eternamente (Jo 11:25-26; 1Co 15:19; Rm 8:18-25). Assim, o mundo e os seres humanos não terão um fim, mas um futuro: o futuro de Deus onde Ele mesmo “será tudo em todos” (1Co 15:28).

Ao contrário do que talvez imagine o senso comum, a esperança cristã não está reservada para a plenitude escatológica, mas se manifesta já no presente onde Deus se revela e atua. Assim, já podemos experimentar hoje algo do porvir celestial onde finalmente serão enxugadas as lágrimas de nossos olhos. Porém, o fazemos de forma incipiente, parcial, ambígüa e precária (pois vivemos ainda sob a influência do pecado).

As clássicas promessas de Deus a Abraão e ao povo de Israel – terra, descendência, proteção e livramento – são metáforas do destino que Deus tem para aqueles que se abrem para um caminhar com Ele (Gn 12:1-3; Ex 3:7-12). Porém mais do meras metáforas são também antecipações, “aperitivos”, de nossa salvação final. Assim, a partir de pequenas experiências cotidianas da graça e benevolência de Deus, podemos ter uma idéia, um gostinho, de como será o nosso futuro.

Vivemos, portanto, sob a dinâmica do “já e ainda-não”. Com efeito, já hoje experimentamos algo da salvação que nos está prometida, contudo ainda-não de forma plena. Esta é uma experiência progressiva: a cada dia vamos morrendo para o pecado que habita em nós e no mundo e ressuscitamos para Deus.

Ora, a esperança cristã é dinâmica. Não se trata de um aguardar apático e inerte da vinda de Deus. Antes, é um caminhar com ele, na força de seu Espiríto e na direção de sua pessoa e vontade. Quanto mais esta esperança ilumina nossa vida, mais celestial, mais abundante, mais “eterna” ela se torna.

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A igreja e a missão

O Pai que nos criou também tomou a iniciativa de nossa salvação
O Pai que cria também toma a iniciativa de salvar

O que vem primeiro: a igreja ou a missão? É a igreja que tem uma missão ou é a missão que tem uma igreja?

Segundo as narrativas evangélicas, Jesus inicia sua atividade proclamando o Reino de Deus (Mc 1:14-15). E em função deste Reino, orienta e organiza todo seu ministério: conta parábolas para explicá-lo, realiza milagres para revelar que ele já começou a operar nas vidas das pessoas, e chama discípulos para plantar neles a esperança do Reino e o compromisso com sua construção.

Com exceção de duas passagens em Mateus – Mt 16:18 e Mt 18:17 – jamais vemos Jesus falando em igreja. Em contrapartida, a expressão “Reino de Deus” aparece mais de 250 vezes nos Evangelhos, a grande maioria das vezes nos lábios de nosso Senhor.

Teologicamente falando, a igreja nasce no dia de Pentecostes com a descida do Espírito Santo. Antes disto, porém, Jesus já havia entregue a missão a seus discípulos (Mt 28:19-20) que aguardavam reunidos o cumprimento da promessa pela qual seriam capacitados para realizá-la (At 1). Foi com esta finalidade que Jesus os chamou para seguí-lo.

A missão, portanto, é anterior à igreja. Logo, não é a igreja que tem uma missão, mas é a missão tem uma igreja. Esta existe como serva e instrumento daquela. A igreja não existe para enviar, mas existe como enviada.

É fundamental a compreensão acima. Ela, porém, nos coloca uma pergunta: se a missão não é da igreja, de quem é? Ora, a missão é de Deus (João 3:16). Ela foi confiada à igreja, mas ela é de Deus (Missio Dei). Deus é quem deseja salvar e quem, afinal, salva a humanidade. Ele enviou seu filho para realizar esta missão e incumbiu a igreja de continuá-la.

Mas ainda uma última pergunta fica sem resposta: quem é, afinal, este Deus da Missão? O Deus da missão é Abbá, o Pai de Jesus Cristo – um Deus amoroso e solidário que deseja o bem da humanidade. Abba é dinamismo de amor sem limites e fonte de toda ternura e graça. Ele é Trindade.

Segundo a tradição teológica latina, nos tempos eternos somente o Pai era. “Princípio sem princípio, origem sem origem”, dizia Agostinho. Mas por ser amor, o Pai não podia suportar “ser” sozinho. Ele então faz um movimento para fora de si e gera o Filho e, com o Filho, o Espírito. Ainda tomado por este amor que não cabe em si mesmo, Ele se  projeta para além de si mesmo e cria a humanidade para amá-la e ser amado por ela; para incluí-la neste círculo de amor e comunhão.

Abbá, o Deus do Reino é um Deus relacional. Ele nos ama e busca ser amado de volta por nós. Nisto consiste a Missio Dei. E para que este suspiro do coração divino se realize na sua vida e na minha, existe a igreja.