A contagem do tempo

Como B. Button, todos nascemos idosos

 

“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos a sabedoria” (Sl 90:12)

 

Não sabemos contar o tempo. Em nossos calendários, cada dia que passa é contado como um dia a mais. O mesmo ocorre em relação aos meses do ano: vão crescendo sucessivamente de 1 a 12; como as horas de um relógio. Obedecendo esta mesma lógica, a cada aniversário que completamos, acrescentamos mais uma vela ao bolo e um ano à idade da gente.

Mas o tempo não funciona assim. Ele opera segundo uma outra lógica. Não ganhamos tempo a medida que ele passa. Não acumulamos dias e anos. Nós os perdemos. Cada dia a mais é, na verdade, um dia a menos. Não tenho os anos que minha idade sugere. Estes são os anos que já não tenho mais. Como bem disse Rubem Alves: são “fósforos riscados”. O tempo que realmente tenho, não é tão simples de contar. O dia de amanhã é apenas uma possibilidade.

A rigor, o tempo se conta de forma decrescente. A medida que ele passa, diminuem os anos que temos. Como Benjamim Button, todos nascemos idosos, cheios de anos. Ironicamente, no instante mesmo em que nascemos, começamos também a morrer. Pois, imediatamente, todo o tempo que temos – sem que saibamos quanto – passa a fugir de nós. Como nuvem em meio ao vendaval, ele vai se dissipando velozmente. Nas palavras do salmista: “a vida passa depressa e nós voamos” (Sl 90:10).

Nesta complexa equação da existência terrena, a grande incógnita é, sem dúvida, o dia de nossa morte. Contamos o tempo de forma equivocada porque desconhecemos o dia de nosso último suspiro. Se ao nascer, recebêssemos também uma certidão de óbito, tudo ficaria mais fácil. Poderíamos planejar com segurança nossa vida contando os anos de forma regressiva. Mas aí não teria graça. Viver seria como um assistir filme cujo final já conhecemos de antemão. A beleza da vida reside precisamente no fato de que ela é aberta, como um poema que vai sendo escrito a medida que surge a inspiração.

Mas acaba que tal abertura nos é conveniente. Como, no nível prático, rejeitamos a idéia de vamos morrer – haja vista nossa incontestável obsessão com a juventude – pensamos enganar a morte contando nossos anos para cima, de forma crescente. Preferimos pensar em termos de longevidade a pensar em termos de finitude. Mas afinal estes expedientes se revelam ineficazes. Pois não há mesmo para onde correr: todos caminhamos em direção ao fim inevitável. E insuspeito.

Talvez aí resida o segredo da sabedoria: viver com a consciência de que se está morrendo. Não é verdade que muitas pessoas passam a viver com intencionalidade apenas quando descobrem que estão prestes a morrer? Quantos não mudam completamente suas prioridades após o diagnóstico de um câncer? Ou após sobreviverem a um acidente, seja ele automobilístico ou cardiovascular? Tais experiências-limite nos recordam de nossa mortalidade. Elas berram aos nossos ouvidos: somos efêmeros! É precisamente esta consciência que nos permite “alcançar a sabedoria”. Pois já não há como viver de forma displicente quando se sabe que a morte se avizinha. Nascemos para vida quando nos conscientizamos de que vamos morrer. Daí que o salmista ore a Deus: “ensina-nos a contar os nossos dias”.

No espírito da oração acima, faço aqui uma sugestão: substituamos nossos modernos relógios pelas antigas ampulhetas. Pois elas, melhor que ninguém, compreendem a lógica segundo a qual o tempo trabalha. Enquanto nossos relógios nos empurram apressadamente para frente supondo que há sempre mais tempo para agendarmos ainda um outro compromisso, a ampulheta nos faz parar para pensar: quanto tempo ainda me resta? Ao invés de perguntar: “o que mais posso fazer?”, indaga: “do que preciso abrir mão para não negligenciar o que é essencial?”.

Em meio à correria desta nossa vida urbana e pós-moderna, a ampulheta nos ajuda a lidar com o tempo de maneira sábia, pois o conta de forma decrescente e poética, exatamente como a vida se desenrola diante de nós. Ainda mais: sempre que a viramos ao romper de cada novo dia somos recordados: todo o tempo que temos é o dia de hoje. O dia de ontem não nos pertence mais e o amanhã pode ou não existir. Vive com sabedoria quem vive um dia de cada vez.

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Escolhe a vida

Andy e Red no pátio da prisão
Andy (Tim Robbins) e Red (Morgan Freeman)

 

“A morte é mais universal que a vida; todo mundo morre, mas nem todo mundo vive” (Alan Sachs)

 

Há filmes que merecem ser vistos mais de uma vez. Este é o caso de  “Um sonho de liberdade”. Cada vez que o assisto, saio sentindo-me recompensado por ter gasto aquele tempo diante da tv.

Uma cena, em particular, chama minha atenção: Andy e Red estão no pátio da prisão conversando sobre a vida do lado de fora daqueles muros. Andy havia sido jogado ali vinte anos atrás por um crime que não cometera enquanto Red se aproximava do trigésimo aniversário de seu encarceramento. Ao ouvir o amigo admitir que estava “institucionalizado” e que temia não mais saber viver como um homem livre, Andy lhe diz, com uma voz profunda e enigmática: “A vida se resume em uma única escolha: ocupar-se de morrer, ou  ocupar-se de viver”. À noite, Andy foge da prisão e dá início a reconstrução de sua vida.

Obviamente, Andy é o personagem principal do filme. Sua inconformidade e ousadia  nos inspiram, nos desafiam, nos chamam a imitá-lo. Mas é com Red que a maioria de nós se identifica. Pois Red representa aquelas pessoas que, na verdade, não desistiram da vida, mas a desaprenderam. Gente que se permitiu “institucionalizar” pelas rotinas das prisões em que se encontram. São pessoas que interiorizaram suas cadeias e aceitaram a realidade presente como o próprio destino.

Embora vivamos aparentemente livres fora dos muros de uma prisão, é bem possível que também tenhamos aceitado e interiorizado algumas das cadeias que insistem em nos aprisonar. Com efeito, quantos de nós não nos habituamos à vida que levamos de tal maneira que já não mais consideramos a hipótese de que ela poderia ser melhor? Quantos de nós não nos permitimos institucionalizar ao ponto de temermos arriscar coisas novas? Quantos de nós já não nos ocupamos mais de viver?

À semelhança de Red – e de um sem número de pessoas –, o povo de Israel também experimentou um alto grau de “institucionalização” após 400 anos de cativeiro no Egito. Por este motivo, à porta da terra prometida, Deus lhes coloca a seguinte alternativa: escolher entre “a vida e o bem” e “a morte e o mal” (Deuteronômio 30:15).

É claro que, consciente e voluntariamente, o povo de Israel jamais escolheria “a morte e o mal”. Mas após tanto tempo vivendo como escravos, era possível que eles temessem viver como gente livre. De modo não-consciente, eles talvez temessem escolher o bem. Mais ainda: eles talvez não soubessem fazê-lo. As palavras que Deus lhes dirije têm como preocupação fazer com que se conscientizem da necessidade de abraçarem uma outra postura diante da vida, pois aquela velha postura institucionalizada não lhes serviria na nova terra. Com efeito, não lhes bastava ter saído do cativeiro egípcio; era preciso que o cativeiro egípcio fosse expurgado de sua alma sob pena de agirem condicionados pela memória de seu passado. Daí o conselho divino: “Escolhe a vida” (Deuteronômio 30:20).

 A mesma preocupação que possuia em relação ao povo de Israel, Deus possui hoje em relação a cada um de nós: não é sua vontade que vivamos aprisionados, ocupados com a morte ao invés de com a vida. Antes deseja ver-nos conscientemente engajados na tarefa diária de nossa libertação sem a qual não é possível viver de forma profunda e verdadeira. Por isso repete para nós a cada novo amanhecer: “Escolhe a vida”. “Escolhe viver para que de fato vivas”. Resta-nos, portanto, ouvir seu amoroso conselho e, a cada dia, escolher novamente a única alternativa válida, pois, do contrário, já teremos abraçado o nosso trágico destino.

A lógica de Francisco e a lógica de Tomé

Sr. Francisco e o rádio que tocava seus sonhos
Francisco e o velho rádio cujas canções embalavam seus sonhos

Assisti, finalmente, o filme 2 Filhos de Francisco, que conta a história da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano. Embora tivesse ouvido muitos comentários positivos a respeito do drama dirigido por Breno Silveira, confesso que não tinha a menor idéia do que me aguardava quando aluguei o DVD, dias atrás, e me sentei diante do velho aparelho de tv de 20 polegadas que eu e minha esposa mantemos em nosso quarto.

O que para mim era uma incógnita, veio a ser uma grata surpresa. Fui profundamente tocado pela poderosa história de Francisco – um lavrador incauto e visionário que apostou todas as suas fichas no sonho improvável de transformar dois de seus nove filhos em astros da música brasileira.

É desnecessário dizer que o sonho de Francisco tornou-se realidade. Mas eis a pergunta que o filme parece querer responder: como? Como é possível um caipira pobre, sem-instrução, e de poucos amigos realizar tal sonho aparentemente impossível? Como Francisco conseguiu aquilo que a maioria das pessoas não conseguiria? O que Francisco possuia que falta à maioria de nós?

A resposta cabe em uma única palavra: fé. Francisco era um homem de fé. Uma fé não-tematizada, certamente. Uma fé talvez não-religiosa (se é que existe fé que não seja religiosa em sua essência e natureza). Mas uma fé verdadeira e profunda. De algum modo que, nem o filme, nem nada é capaz de explicar, Francisco cria que seu sonho era realizável.

A Escritura Sagrada define assim fé: é “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hebreus 11:1). Certamente era isto que o movia: a visão do invisível, a convicção de que o impossível podia acontecer. Diferente de São Tomé que precisou ver para crer, Francisco fez o caminho inverso: creu e, por isto, viu.

Não é novidade o fato de que a maioria de nós, indivíduos modernos maculados pelo vírus do racionalismo cientificista, abraçamos a lógica de Tomé como nossa atitude básica diante da vida. Duvidamos de tudo até que nos provem o contrário. Se não vemos, não cremos. Se não for razoável, taxamos de impossível. Assim, cremos apenas no que faz sentido, no que é provável, previsível, mensurável e conhecido. E desse modo descartamos sem mais uma gama enorme de possibilidades inusitadas e maravilhosas. Afinal, não é verdade que as coisas mais belas e importantes da vida escapam à razão analítica e não se prestam a muitas explicações?

Ora, quem se orienta pelo possível rouba da vida a dimensão do surpreendente, do transcendente, do misterioso. E assim limita demais as suas possibilidades. Em contrapartida, quem crê contra a própria probabilidade das coisas descortina diante de si um universo infindável de alternativas onde mesmo o impoderável é contado como opção.

Quem, à semelhança de São Tomé, espera ver para crer saí perdendo. De outra parte, quem abraça para si a lógica de Francisco, é mais bem-aventurado. Pois, pela fé, chama a existência o futuro ainda desconhecido. Com efeito, a fé de que o sonho impossível pode acontecer é o primeiro passo para sua concretização histórica. Esse foi, me parece o segredo de Francisco. Ao contrário da maioria de nós, o pai de Zezé de Camargo e Luciano viveu todo tempo nesta expectativa, carregando no ventre o futuro que aguardava ver nascer. E um dia, como fruto maduro que cai do pé, o sonho de Francisco nasceu.