Filho custa caro?

 

O preço de não ter filhos é maior do que os gastos com eles

  

“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá” (Sl 127:3)

 

Dizem por aí que filho custa caro. Não é verdade. Estou esperando o terceiro e posso dizê-lo com conhecimento de causa.

Começa que filho não custa nada para fazer. Depois, até dez ou doze meses, a criança se alimenta basicamente de leite materno e raios solares (fundamentais para ativação da vitamina D sem a qual não há absorção do cálcio reponsável pelo desenvolvimento dos ossos). Durante esse período, a única despesa regular que se tem com o pimpolho são as fraldas descartáveis; afinal, um mínimo de conforto e praticidade é necessário.

É isso. Mais tarde, os gastos se concentram em educação e saúde. Obviamente, tais gastos poderiam ser evitados se vivêssemos num país sério onde as escolas e os hospitais públicos não ofendem à dignidade humana. O mais, é comida. Neste quesito, porém, os recursos se multiplicam: onde comem dois, comem três e onde comem três, comem quatro. Até porque  arroz, feijão, frango e uns tomates não custam tanto dinheiro assim. E se os pais forem mesmo engajados ao ponto de abrirem mão de pegar um cineminha no Plaza para, de vez em quando, assistirem o filme no Shopping São Gonçalo, sobra até uma grana para incrementar a dieta da turma com yogurt, sucrilhos, geléia de mocotó e skiny.

Curiosamente, no entanto, quando falamos em criação de filhos, a primeira coisa que vem a mente das pessoas são planilhas e planilhas de excel, múltiplos extratos bancários e uma enormidade de cobranças de cartão de crédito que retratam uma realidade desesperadora de gastos que beiram o infinito. De modo semelhante, a expressão planejamente familiar evoca logo uma gama de perguntas enlouquecidas ligadas à economia doméstica: o que eu precisarei comprar para sustentar um filho? E se forem dois? Quanto irá custar? O dinheiro vai dar? Não seria mais viável eu desistir da idéia de ser pai ou mãe e trocar de carro?

De onde vem essa paranóia? Por que agimos assim?  Eis aqui o meu palpite: agimos assim em virtude de nossa mentalidade consumista. Estamos tão expostos a cultura do hiperconsumo que passamos a enxergar todas as esferas de nossa vida desde essa perspectiva da aquisição permanente de bens diversos sem os quais a sobrevivência se torna inconcebível. Hoje mesmo tive um exemplo emblemático do modo como a mentalidade consumista opera. Saindo do banco, encontrei na rua uma amiga que está grávida, esperando seu segundo filhinho:

– E aí? Quanto tempo…

– Pois é, estou grávida de novo. Três meses.

– Puxa, que legal! Karine e eu também estamos esperando mais um filho. É nosso terceiro menino.

– Sério?! Que loucura!!! Vocês vão ter que se mudar, né? Eu já estou procurando outro apartamento maior para mim.

Nos despedimos. Ela saiu para um lado e eu, perplexo, saí para o outro. Comprar um apartamento maior??? O que será que leva alguém a pensar que o nascimento de um bebê que mede cerca de 50 cm e pesa por volta de 4kg requer a compra de um apartamento maior? Minha esposa está prestes a dar à luz um bebê humano e não um filhote de dinossauro! Bebês são seres tão pequeninos que cabem dentro da pia da cozinha. Qual a necessidade real de comprarmos um apartamento maior, com um quarto a mais em função da chegada de uma criaturinha tão minúscula?

Aqui reside o problema. Mergulhamos tão fundo nessa loucura consumista que, antes mesmo da criança nascer, já estamos gastando dinheiro comprando enxoval, decorando o quarto, mudando de carro e até de apartamento. De outro lado, quem se preocupa em ler um bom livro sobre criação de filhos? Quantos procuram uma terapia para se tratar a fim de serem melhores pais e mãe para o bebê que irá nascer? Quantos pensam como podem reduzir sua carga horária a fim de estarem com o filhinho que tanto precisará deles? Quantos oram por seus filhos enquanto estão sendo gestados?

Esse é o lado trágico de tudo isso. Confundimos preparação para a chegada do bebê com gastos absurdos e supérfluos. Todos bem o sabemos: criança não precisa de quarto exclusivo nem de enxoval importado. Não precisa de apartamento de luxo nem de minivan com DVD acoplado no teto. Criança precisa é de pai e mãe presentes. Ou, na ausência deles, de adultos saudáveis e interessados, que brinquem com elas, lhes deêm afeto, cuidado e orientação. Tudo mais será supérfluo se isso faltar .

O ponto dessa longa e apaixonada reflexão é o seguinte: filho não é caro. Caro é o preço que se paga para criar filhos segundo o projeto da mentalidade consumista. Caro é o pecado da hiper-sofisticação. Pois como gosta de dizer um amigo querido: “sofisticação é um caminho sem volta”. Uma vez que o escolhemos, é muito difícil voltar atrás. De outra parte, quando mais avançamos nesta estrada, mais sacrifícios nos são exigidos. Inclusive esse: abrir mão de uma das maiores alegrias da vida que é ter a casa cheia de rebentos.

Esse preço, embora não apareça nas planilhas de excel, é bem mais alto do que os gastos realmente indispensáveis para se criar um filho. Ou dois. Ou muitos.

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Sobre viver e morrer

A morte do meu tio me fez pensar sobre minha vida
A morte nos faz parar para pensar sobre a vida

 

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec 7:2).

 

Hoje sepultei um parente querido: meu tio Célio, irmão mais velho do meu pai. Ele já não vinha muito bem de saúde, é verdade, mas sua morte não deixou de ser uma surpresa.

Enquanto dirigia para o cemitério pensava sobre a vida e a morte. Pensava sobre minha família que de tão grande somente se reúne em ocasiões extremas: ou muito alegres e festivas como casamentos e bodas, ou muito tristes como funerais. Fiquei pensando no sofrimento do meu pai, dos meus tios e tias, meus primos… Pensei também nos que já partiram: tio Nilson, tia Gracinha, Pipe… Pensei na minha avó que morreu sem que eu pudesse me despedir dela – estava morando nos EUA, à época. Pensei em Guto, meu irmão, e na minha mãe que, por não ter condições de suportar a dor, mal fala do meu irmãozinho. Ele hoje seria um homem.

Em meio ao caos urbano e ao barulho de motores e buzinas, pensei em Karine, minha mulher, e em Hugo e Theo, meus dois filhinhos. Imaginei o quão insuportável seria a dor de não tê-los mais. Pensei também na igreja – na Betânia, que há pouco completou 43 anos, e na Betânia Litorânea que ainda está sendo gestada. Vida que segue e vida por nascer.

Pensei em tantas coisas importantes que logo me dei conta do quanto penso pouco sobre elas. Percebi o quanto elegemos prioridades equivocadas e em como gastamos nossa vida correndo atrás do vento. “Vaidade de vaidades”, dizia Salomão, “tudo é vaidade” (Ec 1:2). Será que estamos destinados a viver assim?

A morte do meu tio Célio despertou-me para a necessidade de recobrar a lucidez. Pois me dei conta de que chorei a partida de alguém que, na realidade, nunca conheci. Convivi com tio Celinho toda a minha vida e quantas vezes conversamos para além do trivial? Quantas coisas ele tinha para dizer que nunca lhe foram perguntadas? Quantas estórias para contar que nunca parei para ouvi? Quantos conselhos para oferecer?

É estranho como nossa vida é frágil e vulnerável. E como nossa percepção das coisas é lenta. Perguntei-me: quantas pessoas mais precisarão morrer para que eu me dê conta de que desperdicei a oportunidade de conhecê-las realmente? Quantas pessoas mais precisarei perder para que possa finalmente descobrí-las? Talvez não haja desgraça maior neste mundo do que não perceber que o grande dom da vida é o outro.

Não posso mais seguir vivendo tão destraído e ensimesmado. Solidão, às vezes, é um mal que nos auto-impomos. Quero, a partir de hoje, estar mais perto de quem amo. Quero poder conhecê-los: minha mulher, meus filhos, meus pais, meu Deus, meus amigos. Quero ouvir suas histórias, seus sonhos, suas queixas, seus testemunhos. Hoje, no velório do meu tio Celinho, chorei não apenas sua morte, mas também a minha.

 

Meus filhos também ouvem as minhas orações

Deus não é o único atento às nossas orações
Deus não é o único atento às nossas orações

Todas as noite, sigo o mesmo ritual: escovo os dentes das crianças, levo-as para o quarto, leio uma historinha ou duas, e, finalmente, faço uma oração que começa sempre da mesma maneira: “Obrigado, papai do céu, porque Hugo e Theo são meninos  inteligentes, fortes, saudáveis, e amigos de Jesus”. Depois, então, eles dormem.

Embora Cristo  nos oriente a fugir das “vãs repetições” quando oramos, sempre que tenho este momento com os meninos, repito estas palavras diante de Deus com a disciplina de quem conduz um tratamento à base de homeopatia. Minha esperança é que não apenas Deus ouça o que digo, mas que meus filhinhos também ouçam tais palavras – e as guardem em seus corações.

Recentemente, fiquei sabendo através de minha sogra que minhas orações estão realmente sendo ouvidas. E que minha esperança não está sendo frustrada. Foi até engraçado. Era um domingo e nós estávamos na casa do meu sogro para um daqueles almoços em que se reúne toda a família. Aguardávamos um convidado especial que vinha comer com a gente.

Quando a campainha tocou, um dos meu sobrinhos correu para a porta e logo foi se apresentando: “Oi. Eu sou o Gabriel. Eu tenho seis anos e sou o neto mais velho”. Imediatamente depois dele, Hugo, meu filhinho primogênito, se aproximou do ilustre convidado e disse com naturalidade: “Oi. Eu sou o Hugo. Eu tenho quatro anos e sou o neto mais inteligente”. Só faltou mesmo o Theozinho chegar depois dizendo: “Oi. Eu sou o Theo. Eu tenho 3 anos e sou amigo de Jesus”.

Esta história singela e bem-humorada confirma e ilustra uma verdade da qual nunca duvidei: nada do que digo para Deus na presença dos meus filhos ou nada do que digo para os meus filhos na presença de Deus, se perde. Antes, cada palavra cumpre o seu destino como uma semente lançada ao solo que finalmente floresce e frutifica. Ora, não é apenas Deus quem ouve nossas orações. Nossos filhos também as ouvem. E o melhor de tudo: o que ouvem determina o que pensam acerca de si mesmos.

Que Deus nos dê sempre boas palavras. E que nunca deixemos de orar com os nossos filhos…

Paternidade e sacerdócio

 

Com a paternidade vem o privilégio do pastoreio dos filhos.

Quando hoje penso sobre a minha infância, lembro-me do meu pai como a principal referência espiritual que tinha. A imagem dele ajoelhado à beira da cama orando no início do dia me acompanha até hoje. Lembro-me com carinho e saudade dos cultos domésticos que ele conduzia e dos dias de jejum. Lembro-me também (como esquecer?) do bordão que ele repetia incansável ao longo dos rebeldes e turbulentos anos de minha adolescência: “A Bíblia ensina que os pais devem inculcar nos filhos a Palavra de Deus (Dt 6,7). Inculcar. Sabe o que isto significa? Significa repetir até entrar na cabeça”. Posso ainda ouví-lo com clareza. Meu pai era – e continua sendo – um homem temente a Deus. De tudo que me deu na vida, nada foi ou será mais precioso do que este exemplo.

Alguém talvez pudesse alegar que estou escrevendo estas coisas apenas porque hoje celebramos o dia dos pais. Ora, num certo sentido, isto é verdade. Mas, no fundo, estou escrevendo estas linhas porque não posso evitar de fazê-lo. Não posso me eximir de falar sobre um exemplo que marcou tão decisivamente a minha vida quando a minha volta cresce o número de homens cujo compromisso espiritual com seus filhos se resume em levá-los à igreja. São homens crentes que por necessidade ou conveniência “tercerizaram” a formação espiritual de seu filhos delegando-a à igreja ou deixando-a inteiramente a cargo das mães.  

Há um relato belíssimo no livro de Jó que revela o compromisso que este homem possuia com a vida espiritual de seus filhos: “[…] chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles. Assim fazia Jó continuamente” (Jó 1,5). Como fica claro por esta passagem, na antigüidade, era dever do homem cuidar da vida espiritual de sua esposa e seus filhos ensinando-lhes as tradições familiares e a vida piedosa. O pai era assim a referência e a autoridade espiritual de toda a família. Ele era o sacerdote, o pastor de seus filhos e de toda sua casa. Portanto, esta compreensão atual da figura do pastor da igreja como o primeiro responsável pela formação espiritual das crianças e adolescentes da comunidade de fé é equivocada.

Não creio que estas noções sejam desconhecidas da maioria. Todavia, com freqüência, não as vemos em exercício nos lares cristãos por aí. É uma pena. Pois o exercício da paternidade constitui a principal oportunidade que Deus nos dá de nos transformarmos em pessoas melhores. Todos sabemos: educar consiste em encarnar o ensino que se busca transmitir a fim de que nossas palavras ganhem textura e longevidade nas vidas de nossos filhinhos. Como diz o famoso provérbio: “Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele”. Não se trata de mostrar o caminho, de indicá-lo, mas de trilhá-lo ao lado do seu filho. Ser a educação que se quer passar.

Aqui reside a oportunidade de transformação que a paternidade representa. Pois para ser exemplo para o meu filho, preciso primeiro mudar. E se a saúde espiritual do meu filho não for motivação suficiente para que eu busque em Deus esta transformação, o que será?

Que neste dia dos pais cada homem a quem foi dado o privilégio e a bênção da paternidade possa se voltar para o exemplo do meu pai – José Marques – e de tantos outros como ele para se inspirar e encontrar um norte para o qual possa seguir alegre e cheio de esperança.

Feliz Dia dos Pais.

A lógica de Francisco e a lógica de Tomé

Sr. Francisco e o rádio que tocava seus sonhos
Francisco e o velho rádio cujas canções embalavam seus sonhos

Assisti, finalmente, o filme 2 Filhos de Francisco, que conta a história da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano. Embora tivesse ouvido muitos comentários positivos a respeito do drama dirigido por Breno Silveira, confesso que não tinha a menor idéia do que me aguardava quando aluguei o DVD, dias atrás, e me sentei diante do velho aparelho de tv de 20 polegadas que eu e minha esposa mantemos em nosso quarto.

O que para mim era uma incógnita, veio a ser uma grata surpresa. Fui profundamente tocado pela poderosa história de Francisco – um lavrador incauto e visionário que apostou todas as suas fichas no sonho improvável de transformar dois de seus nove filhos em astros da música brasileira.

É desnecessário dizer que o sonho de Francisco tornou-se realidade. Mas eis a pergunta que o filme parece querer responder: como? Como é possível um caipira pobre, sem-instrução, e de poucos amigos realizar tal sonho aparentemente impossível? Como Francisco conseguiu aquilo que a maioria das pessoas não conseguiria? O que Francisco possuia que falta à maioria de nós?

A resposta cabe em uma única palavra: fé. Francisco era um homem de fé. Uma fé não-tematizada, certamente. Uma fé talvez não-religiosa (se é que existe fé que não seja religiosa em sua essência e natureza). Mas uma fé verdadeira e profunda. De algum modo que, nem o filme, nem nada é capaz de explicar, Francisco cria que seu sonho era realizável.

A Escritura Sagrada define assim fé: é “a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hebreus 11:1). Certamente era isto que o movia: a visão do invisível, a convicção de que o impossível podia acontecer. Diferente de São Tomé que precisou ver para crer, Francisco fez o caminho inverso: creu e, por isto, viu.

Não é novidade o fato de que a maioria de nós, indivíduos modernos maculados pelo vírus do racionalismo cientificista, abraçamos a lógica de Tomé como nossa atitude básica diante da vida. Duvidamos de tudo até que nos provem o contrário. Se não vemos, não cremos. Se não for razoável, taxamos de impossível. Assim, cremos apenas no que faz sentido, no que é provável, previsível, mensurável e conhecido. E desse modo descartamos sem mais uma gama enorme de possibilidades inusitadas e maravilhosas. Afinal, não é verdade que as coisas mais belas e importantes da vida escapam à razão analítica e não se prestam a muitas explicações?

Ora, quem se orienta pelo possível rouba da vida a dimensão do surpreendente, do transcendente, do misterioso. E assim limita demais as suas possibilidades. Em contrapartida, quem crê contra a própria probabilidade das coisas descortina diante de si um universo infindável de alternativas onde mesmo o impoderável é contado como opção.

Quem, à semelhança de São Tomé, espera ver para crer saí perdendo. De outra parte, quem abraça para si a lógica de Francisco, é mais bem-aventurado. Pois, pela fé, chama a existência o futuro ainda desconhecido. Com efeito, a fé de que o sonho impossível pode acontecer é o primeiro passo para sua concretização histórica. Esse foi, me parece o segredo de Francisco. Ao contrário da maioria de nós, o pai de Zezé de Camargo e Luciano viveu todo tempo nesta expectativa, carregando no ventre o futuro que aguardava ver nascer. E um dia, como fruto maduro que cai do pé, o sonho de Francisco nasceu.