Comunidade

 
Domingo é dia de festa na Betânia Litorânea: comunhão, adoração, Palavra e folia

 

“Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum” (Atos 2:44)

 

O livro dos Atos dos Apóstolos relata o nascimento e desenvolvimento inicial da igreja; o modo como, desde o princípio, os cristãos se organizaram em comunidades. Segundo se pode perceber pela leitura dos trechos de At 2:42-47 e 4:32-35, dois eram os pilares sobre os quais tal experiência suscitada e mantida pela ação do Espírito Santo se apoiava: uma profunda consciência de grupo e uma fé comum.

A narrativa bíblica exprime de modo quase poético a realidade desta consciência de grupo existente entre os primeiros cristãos ao dizer que “da multidão dos que creram era um o coração e alma”. Mais do que uma mera experiência de uniformidade, os primeiros grupos cristãos viveram a experiência da unidade. Eles eram muitos, eram certamente diferentes, mas estavam juntos, sabiam-se um. Seu sentido de comunidade era tão genuíno e maravilhoso que tinha expressão concreta no cuidado com os menos privilegiados. Com efeito, “nenhum necessitado havia entre eles”, pois tudo repartiam à medida que houvesse carência na comunidade.

O segredo que tornava possível esta unidade altruísta e comprometida decerto era a existência de uma fé comum nutrida e celebrada cotidianamente. Como o texto bíblico deixa claro, os primeiros grupos cristãos diariamente “perseveravam na doutrina dos apóstolos” e “nas orações” partindo o pão eucarístico de “casa em casa”. O que o autor de Atos chamou de doutrina dos apóstolos é o que hoje entendemos como o núcleo fundamental da fé cristã: a encarnação do Verbo divino no homem Jesus de Nazaré, o qual viveu sem pecado, morreu crucificado, ressuscitou ao terceiro dia, e foi elevado aos céus de onde virá novamente em glória. Na experiência diária e doméstica da eucaristia, a igreja nascente celebrava, aprofundava e desenvolvia o mistério de Deus em suas vidas o que lhes conferia poder para amar, aceitar e acolher o outro a despeito de tudo.

Graças a Deus, e ao crescente envolvimento de irmãos e irmãs nos cultos dominicais e células nos lares de nossa recém-formada igreja Betânia Litorânea, temos vivenciado de uma maneira nova e bela essa experiência de ser comunidade. Nestes tempos pós-modernos de hiperindividualismo e laços afetivos frouxos, temos redescoberto a alegria de conviver. E mais importante ainda: temos encontrado Deus em nossas vidas através das vidas de nossos irmãos. Pois na mediação do encontro com o outro, Deus se revela mais “vivo”, mais pessoal ainda e, portanto, mais próximo de cada um de nós. Quem tem caminhado com a gente, pode dar testemunho disto.

 

Anúncios

Páscoa: Deus passou por aqui…

Na cruz de Jesus, Deus passou pela morte

 A palavra “páscoa” traduz o hebraico “pessach” que, como é sabido por todos, significa “passagem”. Trata-se de uma referência à noite em que anjo de Deus passou pelo Egito libertando o povo de Israel de sob o domínio de Faraó que já durava 400 anos. Tal episódio encontra-se relatado em Êxodo 12 e é, sem sombra de dúvida, uma das memórias prediletas do povo judeu. Com efeito, desde aquela noite até o dia de hoje, uma vez por ano, inexoravelmente, Israel celebra esta data. É a festa da Páscoa.

Entretanto, a celebração anual desta festa não é privilégio dos judeus. Nós cristãos também a celebramos fielmente, se bem que desde um prisma diferente. Um prisma que, a rigor, não exclui nem invalida o prisma judaico, mas o transcende. Porque se para os judeus a páscoa é a festa da libertação nacional, para nós cristãos, ela é a festa da libertação universal e total; a comemoração por excelência do triunfo da vida sobre a morte e sobre todos os seus agentes em benefício de toda criação. Por essa razão, na páscoa, cantamos todos juntos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15,55).

Este ponto é preciso estar claro: para nós cristãos, a páscoa é a festa da vida, de sua afirmação e vitória sobre a morte ainda que cruzes façam parte da história. Porque o que aqui celebramos não é outra realidade senão a da passagem triunfal (e misteriosa) de Deus pela morte suscitando vida desde suas entranhas. O que na fé afirmamos, na páscoa celebramos: Deus mesmo, em carne e osso, visitou a nossa história, experimentou as nossas dores, comeu pão e bebeu vinho, sentiu fome, sede, teve medo, riu e chorou. Nasceu criança pobre, vulnerável, entregando-se aos cuidados de José e Maria. Foi circuncidado ao oitavo dia, freqüentou o templo e as festas do povo. Uma vez crescido, tomou partido dos pecadores. Deu valor às crianças e às mulheres, curou os enfermos, libertou os endemoninhados, acolheu a gente marginalizada, questionou os costumes e as tradições religiosas, ensinou o amor e denunciou a injustiça. Viveu sem pecado. Foi morto de forma brutal em uma cruz hedionda. Mas ressuscitou ao terceiro dia. Nas palavras de Pedro: “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38). Em Jesus de Nazaré, Deus mesmo passou entre nós ordenando vida e inaugurando a ressurreição de todas as coisas.

Na Páscoa, portanto, nós cristãos declaramos: o mundo já não terá um fim, mas um futuro – será transfigurado. Toda criação já está sendo redimida, ressuscitada. Por isso, na fé, já não falamos mais em termos de morte e vida, mas de vida e ressurreição. Porque a morte nada mais é do que o ponto de chegada de nossa vida natural ao passo que a ressurreição marca o seu início. Sim, começamos a viver quando ressuscitamos em vida por meio de Jesus Cristo. Dia após dia o nosso corpo vai morrendo, mas em Cristo, somos ressuscitados a cada novo dia, chamados a uma nova existência, a uma experiência de plenitude.

Embora muitas vezes o contexto concreto em que nos encontramos aponte noutra direção – seja a família em crise, a vida profissional ameaçada ou mesmo a conjuntura social caótica –, é necessário sempre de novo lembrar que a cruz não pode conter a ressurreição. Ao terceiro dia, ela acontecerá!!! Haverá dias de pranto, de luto, de sombras, mas o sol brilhará outra vez. Esta promessa foi selada com sangue. Assim, aguardamos o dia bendito em que Deus será “tudo em todos” (1Co 15,28). É isto, precisamente, que na páscoa celebramos: o princípio de nossa libertação total e a promessa de abundância de vida. Aleluia!

O segredo da alegria

O coração alegre aformoseia o rosto
O coração alegre aformoseia o rosto

Segundo o Evangelho de São João, Jesus certa feita foi a um casamento em Caná da Galiléia onde, lá pelas tantas, o vinho da festa acabou. Maria, sua mãe, talvez preocupada com o constrangimento que tal incidente provocaria, compartilhou com Jesus o problema e, àqueles que serviam os convidados, deu o seguinte conselho: “Fazei tudo o que ele vos disser”. O resto da história é conhecido: Jesus transforma água em vinho e o mestre-sala se admira do fato de que o melhor vinho tivesse sido servido apenas perto do fim da festa.

Não é incomum na Bíblia Sagrada a figura do vinho ser associada à alegria. Com efeito, no relato em questão, esta associação está presente. Acabar o vinho, neste caso, significa acabar a alegria, terminar a festa. Maria, que sabia do compromisso de Jesus com a alegria e com esta dimensão festiva da vida, se dirige a ele relatando-lhe tudo.

Embora antecipasse que de algum modo Jesus interviria na situação, o que nem Maria nem ninguém mais poderia imaginar, era que a água transformada em vinho viesse a ser melhor do que todo o vinho servido até então. Com efeito, é precisamente acerca disto que o episódio nos fala: a alegria que Jesus traz e constitui é melhor do que qualquer outra alegria que já possamos ter experimentado.

Muitas vezes em nossas vidas, a despeito das coisas que possuímos, das possibilidades que temos, ou das experiências que vivemos, a alegria que experimentamos parece não ser tão alegre assim. Pode até ser que num primeiro momento a gente não se dê conta da palidez ou da falta de vitalidade desta alegria sem Cristo. Mas uma vez que experimentamos a alegria que Jesus é e nos oferece, percebemos então que havíamos nos acostumado com algo muito aquém do que está a nossa disposição. E, perplexos, fazemos como o mestre-sala daquela festa que não entende como alguém que tem um vinho tão precioso a sua disposição não faz logo uso do mesmo.

Este episódio tem muito a nos ensinar. Aqui, no entanto, gostaria de sublinhar apenas duas coisas: Primeiro, que existe uma alegria mais alvissareira, mais plena, e que está acessível a qualquer um de nós. Segundo, que esta alegria, na realidade, não tem a ver com as coisas que compramos ou circunstâncias que vivemos, mas com uma pessoa que se a oferece a nós. Para experimentá-la, no entanto, é imperativo ouvir o conselho dado por Maria aos trabalhadores da festa: “Fazei tudo o que ele vos mandar”. A obediência a Cristo é o segredo da alegria.