O caminho sobremodo excelente

O amor é mais excelente dos caminhos (1Co 13)

Diferente de nós ocidentais pós-modernos para quem o amor é percebido como um sentimento, uma emoção, um frio na barriga ou de alguns indivíduos ainda fortemente marcados pela austeridade moderna para quem o amor é uma decisão moral e um compromisso, para o apóstolo Paulo e mais amplamente para a tradição bíblica (Pv 30:18-19), o amor é um caminho.

O fato de ser caminho não significa que no amor não haja sentimento ou compromisso, mas significa que ele inclui estas realidades ao mesmo tempo em que as ultrapassa, engloba e transcende. Com efeito, nas Escrituras, a noção de caminho é metafóra para se falar da vida. A rigor, percorrer um caminho é o mesmo que viver a vida de uma certa maneira, segundo uma certa lógica e desde uma determinada perspectiva. Portanto, trilhar o caminho do amor é viver sob o princípio-amor, é viver na força e sob a dinâmica engendrada por esta realidade tão ordinária e tão sublime que é a substância mesma do próprio Deus em nossas vidas.

Ao escrever aos crentes da cidade de Corinto – tendo diante de si o momento agitado da comunidade que lidava com conflitos, divisões e partidarismos de toda sorte – Paulo oferece em sua primeira carta uma possibilidade de conserto e  solução. Tal, porém, não consistia em atalho simplista para fora do caos, em mero desvio de rota visando contornar os espinhos, mas em caminho na direção do encontro e da comunhão: a vivência concreta e cotidiana do amor. Como preferiu chamar o apóstolo: o caminho “sobremodo excelente” (1Co 12:31). Para Paulo estava claro: somente o amor podia tornar possível a vida comunitária; e, de modo mais particular, a vida-a-dois que não deixa de ser um microcosmos da vida em comunidade.

Para Paulo, então, o amor não é apenas um caminho, mas o caminho. Por quê exatamente? O que a experiência de trilhar o caminho do amor acrescenta e traz às nossas vidas de tão especial? O capítulo 13 da primeira carta aos coríntios é a resposta do apóstolo a esta questão.

1. Somente o amor confere sentido à vida. (vv.1-3)

Nenhuma realidade humana tem o poder de conferir sentido a vida: nem a acumulação de riquezas, nem a fruição dos prazeres, nem a construção de uma imagem pessoal de sucesso, nem a obtenção da admiração das outras pessoas, etc. Somente o amor pode fazê-lo. Nada que eu venha a fazer ou possuir terá proveito ou sentido se faltar o amor. Como disse o apóstolo Paulo, sem amor “nada serei”.

De outra parte, onde há amor, há sentido e proveito. Pois o amor reveste de sentido a vida e a morte. Mesmo a realidade absurda e inexplicável do sofrimento humano passa a ter sentido na presença do amor. Pois se é verdade, por um lado, que em si mesmo o sofrimento não tem sentido, é verdade também, por outro, que quando sofremos para que outros parem de sofrer, o sofrimento se torna plausível e, até certo ponto, justificável. Mais ainda: ele confere dignidade e revela-se recompensador. Por isto o martírio é algo tão trágico, mas tão belo. Jesus viveu, sofreu e morreu para que a humanidade não mais tivesse que sofrer e morrer eternamente. Sua vida, seu sofrimento e sua morte tiveram profundo sentido – e proveito.

Quando trilhamos o caminho do amor, aprendemos a viver para amenizar o sofrimento do outro. Isso, obviamente, não significa que recaía sobre nós a responsabilidade de fazer o outro feliz, pois não somos capazes de fazer ninguém feliz. Felicidade é uma conquista pessoal, interior. Contudo, podemos ao menos ajudar o outro a viver de forma mais leve e menos sofrida. Todos deveríamos nos casar pensando nisso: em aliaviar as dores e cargas – o jugo – daqueles a quem amamos. Deveríamos nos perguntar se estamos dispostos até mesmo a sofrer privações e renuncias para que o outro não precise sofrê-las. Obviamente, esta é uma via de mão-dupla, embora Paulo afirme que seja tarefa do marido amar a mulher com tal abnegação (Ef 5:25-27). Este é um objetivo realista e certamente gratificante.

2. O amor nos faz pessoas melhores (vv.4-7)

Ao trilharmos o caminho do amor, deparamo-nos com paisagens diversas, atravessamos estações distintas e enfrentamos tempos variados de fartura e de excassez, de festa e de luto, de contentamento e de frustração. Tais variações demandam de nós flexibilidade e resistência, pois representam desafios que nos puxam para além de nossos limites e exigem superação. Assim, trilhar o caminho do amor implica crescimento, aprendizado, maturação. Nas palavras do apóstolo paulo: é preciso “desistir das coisas de menino” (v.11).

Nos vv. 4-7, Paulo descreve o amor: é paciente, é benigno, não se ufana, não se ensoberbece… tudo sofre, tudo crê, tudo espera… Quem trilha o amor do amor, se expõe a influência destas virtudes e vai assimilando-as paulatinamente. Assim, quem amam vai se transformando em uma nova pessoa mais paciente, mais humilde, mais altruísta, mais bondosa, mais crente, mais cheia de esperança.

Vale notar que todas estas virtudes são virtudes relacionais, isto é, virtudes que orientam-se para a alteridade, para o outro. São virtudes que obedecem a lógica do “auto-esvaziamento” de Filipenses 2:5-9. Quem ama, se esvazia de si mesmo e faz a oração de João Batista tendo em mente a pessoa amada: “importa que ele cresça e eu diminua”. Quem trilha o caminho do amor se torna uma pessoa melhor pois deixa de ser egoísta tornando-se alguém que vive segundo a lógica divina da gratuidade: “minha alegria é ver o outro feliz”. Quem ama de verdade, se torna este tipo de pessoa.

3. O amor nos abre o mistério do inefável (v.8)

Tudo passa nesta vida, mas o amor prossegue na eternidade. É claro que o amor que lá viveremos será diferente deste que conhecemos aqui marcado por nossa ambigüidade. De toda sorte, quem ama, vive no presente – ainda que de forma precária e limitada – o mistério do amor infinito, transcendente e perfeito. Quem ama, vive neste mundo uma espécie de antecipação de nosso destino final com Deus quando ele será “tudo em todos” (1Co 15:28).

O amor humano é assim uma espécie de aperitivo do amor ágape-divino que é o amor como ele deve ser. A experiência do amor humano é, desta forma, um ensaio para a experiência do amor eterno, inefável. O amor do outro é metáfora do amor de Deus por nós. O fato de sermos amados aqui nos remete a experiência de sermos finalmente aceitos e acolhidos na eternidade por Deus, nosso Pai. Bem disse o apóstolo João: “quem ama conhece a Deus”. Com efeito, a experiência de amar uma outra pessoa reveste nossa vida do sublime, do maravilhoso, de tudo o que é mais belo. Aquele pelo que suspira nossa alma nos está acessível através da experiência do amor. Quem ama vive no presente algo da eternidade.

Finalmente, importa frizar, que trilhar o caminho do amor constitui experiência abençoadora, porém demandante. Não é simples esta estrada. Há altos e baixos, curvas sinuosas, cenários belíssimos e outros não tão belos assim. O fundamental, contudo, é seguir caminhando. Prosseguir apesar de adversidades e lutas. Um dia de cada vez. Um dia depois do outro. Todos os dias. Quem trilha o caminho do amor com perservarança, sem se dar conta, pisa a eternidade.

A ressurreição e o ano novo

A ressurreição nos abre o futuro de Deus

É certo pensar que o conjunto de nossas experiências passadas nos diz muito acerca de quem somos e do porquê hoje nos encontramos neste ponto de nossas vidas. Importa esclarecer, todavia, que não é tanto o passado que determina o caminho de nosso existir no mundo, mas sim o futuro. Na realidade, o que queremos ser no futuro tem maior influência sobre nossas vidas do que aquilo que somos hoje ou já fomos um dia. Isto nos sugere as Escrituras quando afirmam “o justo viverá por fé”.

Viver por fé, com efeito, significa viver a partir de uma realidade que não possuímos, de algo que ainda não nos pertence, que nos foge ao tato, mas que nos convida a caminhar. Viver por fé significa, assim, viver seduzido por uma esperança, por uma promessa, por um desejo de chegar. A vida inteira projetada num único suspiro.

Segundo afirmação da teologia cristã, o suspiro profundo do coração humano é contemplar o rosto de Deus: vê-lo como somos vistos. Esta é nossa fome básica, nosso anseio fundamental. Vivemos, de fato, ainda que inconscientemente, em busca de sua face. Sim, vivemos em busca de Deus, fonte e destino da vida! Por trás de todos os nossos projetos, de todos os nossos amores, de todos os nossos desejos de consumo, de todas as nossas lágrimas, e mesmo por trás de toda nossa luta neste  mundo de contradições, subsiste um impulso incontrolável por  encontrá-lo. Fora  dele,  que  sentido  tem  a  vida? Fora dele, há vida? Por isto o queremos tanto: desejamos viver, viver para sempre. Desejamos viver de forma abundante, plena, como a ressurreição nos permitirá.

Infelizmente, falamos pouco sobre o tema da ressurreição. Isto porque quase não falamos sobre um outro tema de importância igualmente capital: a cruz. Esquecemo-nos, assim, sem mais, do clímax da história, do acontecimento único no tempo que nos abriu futuro e a eternidade: em um homem pobre e simples, Deus mesmo passou entre nós levando consigo a chave da morte vencida na cruz e na ressurreição. Com base nisto confessamos: não existe mais morte e vida, mas somente vida e ressurreição. Em Jesus, a vida não terá um fim, mas um futuro. Quando perdemos isto de vista, tudo a nossa volta cheira a mofo e perde a cor. Com efeito, a fé na cruz-ressurreição de Jesus nos permite, já agora em vida, ressurgir, nascer de novo, tentar outra vez. Pouco importam as frustrações e fracassos de outrora. Ele fez – e faz – novas todas as coisas. Crer em Jesus Cristo implica viver em constante renovação de vida.

Concretamente, isto quer dizer que a pessoa que eu hoje sou não é simplesmente o resultado dos passos de um tempo que ficou para trás, mas é, sobretudo, misericórdia e graça do senhor que me permitiu chegar até aqui e agora me convida a fazer diferente. Hoje é, portanto, oportunidade e kairós de Deus para mim. A fé na cruz-ressurreição me convida a sonhar, a caminhar em uma nova direção. Agora sei onde posso chegar, e por isso saberei escolher o caminho. Não é o passado, afinal, que me dirá para onde estou indo, mas o futuro aberto e garantido pela cruz-ressurreição de Cristo.

Que neste novo ano nós possamos ressuscitar muitas vezes e nascer sempre outra vez para vida que Deus tem para nós. Que, ao lado disto, nos sejam concedidos novos sonhos que nos animem a seguir em frente. E, finalmente, que nossa alma transborde de alegria. Feliz ano novo!

A esperança cristã

Esperamos contra a própria esperança
Esperamos contra a própria esperança

A esperança cristã se funda na promessa divina de que a criação e, particularmente, a vida humana não se limitam a esta experiência terrena, mas a extrapolam adentrando o mais-além – a eternidade – onde serão plenificadas e celebradas eternamente (Jo 11:25-26; 1Co 15:19; Rm 8:18-25). Assim, o mundo e os seres humanos não terão um fim, mas um futuro: o futuro de Deus onde Ele mesmo “será tudo em todos” (1Co 15:28).

Ao contrário do que talvez imagine o senso comum, a esperança cristã não está reservada para a plenitude escatológica, mas se manifesta já no presente onde Deus se revela e atua. Assim, já podemos experimentar hoje algo do porvir celestial onde finalmente serão enxugadas as lágrimas de nossos olhos. Porém, o fazemos de forma incipiente, parcial, ambígüa e precária (pois vivemos ainda sob a influência do pecado).

As clássicas promessas de Deus a Abraão e ao povo de Israel – terra, descendência, proteção e livramento – são metáforas do destino que Deus tem para aqueles que se abrem para um caminhar com Ele (Gn 12:1-3; Ex 3:7-12). Porém mais do meras metáforas são também antecipações, “aperitivos”, de nossa salvação final. Assim, a partir de pequenas experiências cotidianas da graça e benevolência de Deus, podemos ter uma idéia, um gostinho, de como será o nosso futuro.

Vivemos, portanto, sob a dinâmica do “já e ainda-não”. Com efeito, já hoje experimentamos algo da salvação que nos está prometida, contudo ainda-não de forma plena. Esta é uma experiência progressiva: a cada dia vamos morrendo para o pecado que habita em nós e no mundo e ressuscitamos para Deus.

Ora, a esperança cristã é dinâmica. Não se trata de um aguardar apático e inerte da vinda de Deus. Antes, é um caminhar com ele, na força de seu Espiríto e na direção de sua pessoa e vontade. Quanto mais esta esperança ilumina nossa vida, mais celestial, mais abundante, mais “eterna” ela se torna.

Criados para viver eternamente

Queremos viver eternamente cada instante
O relógio marca apenas o tempo que já não temos

A vida é breve. Como declara o poeta sagrado – “Os dias de nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta […] porque tudo passa rapidamente e nós voamos” (Salmo 90:10). Porém, para aqueles que creêm, há uma boa notícia: a vida não termina ao final deste número de anos.

Nós bem o sabemos: o ser humano não foi criado para a finitude e limitação desta vida mundana. Fomos criados para viver para sempre – e em plenitude. Daí que a morte nos cause tanta perplexidade. E a vida terrena, tanta ansiedade. Queremos viver plenamente cada minuto desta nossa vida debaixo do sol. Queremos viver eternamente cada dia.

Este desejo humano é inevitável e universal. Segundo a fé cristã, ele existe em nossos corações porque somos Imago Dei, porque fomos criados à imagem divina para vivermos precisamente desta maneira. Como revela o texto de Eclesiastes 3:1: Deus “pôs no coração humano o anseio pela eternidade”.

Isto que o escritor de Eclesiastes chamou de “anseio pela eternidade” é aquilo que, na teologia, se denomina “necessidade de salvação”. O ser humano sente, intui, que sua vida não é como deveria ser. A partir de sua experiência cotidiana, conclui: a vida deveria ser diferente – mais justa, mais cheia de graça, generosidade, congraçamento e alegria. Enfim, deveria ser melhor.

Esta perene insatisfação com a precariedade de sua vida, leva o ser humano a buscar plenitude (isto é: salvação, eternidade). O problema é que, influenciado pela cultura, ele interpreta e implementa esta busca em termos materialistas imaginando ser possível alcançar a vida plena através da aquisição de certos bens materiais, da assimilação de determinados estilos de vida, e da experiência inebriante do prazer, do sucesso, da admiração e da liberdade auto-centrada. O ser humano, deste modo, perde sua vida tentando salvá-la (Mateus 16:25).

A vida plena pela qual todos ansiamos somente é possível em Deus. Pois a eternidade consiste em “conhecer ao único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo” (João 17:3). Quanto mais o ser humano conhece a Cristo e se relaciona com Ele, mas sua vida se reveste de eternidade. Então o outro lado irrompe em nossa história enchendo-a de sentido e plenitude. Como diz o salmista: “um dia na presença do Senhor vale mais que mil” (Salmo 84:10). Vivemos eternamente quando vivemos com Deus.

Contudo, por ainda fazermos parte de uma realidade marcada pela ambigüidade, esta experiência da vida plenificada, somente nos é possível de forma incipiente, limitada e parcial. Apenas quando fecharmos finalmente os nossos olhos é que experimentaremos a eternidade em toda sua plenitude. Morreremos para ressuscitar. Esta certeza, de um lado, ilumina nossa vida e, de outro, dá sentido a nossa morte. Quem nesta mundo vive com Cristo e com ele vem a morrer, sabe de antemão que também com ele ressuscitará para a eternidade. Quanto a isto, ninguém se engane: decidimos nosso destino eterno hoje, no aqui e agora desta nossa vida terrena.

Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Quem hoje decide abrir-se para a experiência de conhecê-lo, já não morre, mas passa da morte para a vida. Pois para quem vive com Cristo, a vida já não consiste num dinamismo de vida e morte, mas de vida e ressurreição. Toda morte é princípio de algo novo. Assim sendo, a morte em si já não representa um fim, mas o início de um futuro de plenitude e abundância de vida. De outra parte, quem se fecha para Cristo e vive para si mesmo, começa hoje a morrer eternamente…