Até quando, Senhor?

A esperança que se adia adoece o coração
A esperança que se adia adoece o coração

Oração é algo misterioso. Nasce no coração dos seres humanos e floresce diante de Deus. A um só tempo, conhece a alma das pessoas e a face do Senhor. Daí que implique reverência, nudez radical e silêncio. O espírito humano se exprime diante de Deus através da oração.

O Salmo 13 é uma oração belíssima que nasce da tensão entre os largos tempos de Deus e o imediatismo próprio dos seres humanos. Ele é o testemunho de uma alma que percorre na oração o caminho que vai do sofrimento gerado por circunstâncias desfavoráveis ao louvor suscitado pela certeza da bondade divina. Tal caminho é princípio de cura que restaura a alma adoecida pela esperança que tarda em se cumprir. Como veremos, ele consiste em três movimentos internos que aprendidos podem nos fazer mais resistentes no dia da angústia e, finalmente, restituir-nos a alegria.

O primeiro dos três movimentos deste caminho é aquele que vai do sofrimento à lamentação (v.1-2). O salmista não nega sua dor. Ele a admite; a sofre intensamente. Sua aflição é como a nossa: dói para valer. Ele se sente sufocado pelo inimigo que o persegue (v.4) e quatro vezes indaga ao céus: “até quando, Senhor?”. Sua demanda é urgente, mas Deus não tem pressa -parece brincar de esconde-esconde. Pior que a própria adversidade, é sentir-se esquecido por Deus – “Até quando ocultarás de mim o teu rosto?”. Tal conjuntura insustentável move o salmista a queixar-se em oração de forma ousada: “Esquecer-te-ás de mim para sempre?”. Ao invés de ficar murmurando a má sorte que o acomete, ou de encher os ouvidos dos outros com queixumes, o salmista se lamenta aos pés do Senhor. Tal atitude, por estranha que possa nos parecer (quem é o homem para falar assim com Deus?), é justamente a atitude que o Pai espera de nós. Afinal, Ele o único que pode de fato mudar a nossa situação.

O segundo movimento deste caminho de cura é aquele que vai da lamentação à súplica (v.3-4). A conjuntura na qual o salmista se encontra é crítica, mas ele deseja superá-la e viver. Seu lamento, por conseguinte, desemboca numa súplica insistente diante do Senhor: “ilumina-me os olhos”. O salmista precisa enxergar alternativas para sua luta e ter certeza da ação de Deus a seu favor, pois sente-se abandonado. Seus olhos estão cerrados pela angústia como acontece muitas vezes com qualquer um de nós. Somente a luz que irradia do olhar do Pai pode devolver-lhe a esperança. Daí ele orar: “Atenta para mim”. O fato de Deus olhar para nós é prova da sua graça e metáfora do seu favor. Justamente por esta razão é que, em determinados momentos de nossas vidas, nada nos é mais caro do que tal convicção (Sl 17,8). A certeza do olhar de Deus sobre nós é garantia do quanto nossa vida tem importância para Ele e fundamento de esperança que nutrimos de que Ele agirá misericordiosamente em  nosso favor.

O terceiro movimento é aquele que vai da súplica ao louvor (v.5-6). Chama atenção nos versículos finais do Salmo, a súbita  mudança de tom (do desespero para a serenidade).  A súplica veemente e angustiada parece ter produzido no salmista uma nova disposição para enfrentar a problemática com a qual se depara. A ruptura é abrupta e evidente, mas o quê de fato mudou? Nada no salmo nos faz pensar que a situação tenha sido resolvida ou contornada. Porém, o coração do salmista é outro. Já C.S. Lewis dizia: “Minhas orações não mudam a Deus, mas a mim”. Após queixar-se honestamente diante de Deus e de buscar nele o socorro, sua confiança  parece inabalável. As escamas caem de seus olhos permitindo-lhe perceber que, a despeito de tudo, o Senhor tem estado sempre a seu lado. Ele então termina o salmo com um voto de louvor e reconhecimento: “cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”.

Como se deu com o salmista, também em nossa experiência diária somos, vez por outra, solapados por sentimentos de abandono e desamparo por parte de Deus. Vivemos nossas crises sozinhos, pois não percebemos a presença de Deus a nossa volta. Ainda que não tenhamos a coragem de verbalizar, nos perguntamos: “Senhor, até quando?”. Em momentos assim, por meio da oração honesta e ousada, podemos perceber novamente o olhar de Deus sobre nós e, pela fé, confiar que sua mão se movendo em nosso favor, mesmo que as circunstâncias digam que o contrário. Ao final, estaremos também aptos a levantar aos céus um canto de esperança (louvor) ao som do qual seguiremos nosso caminho na certeza inexorável de que não estamos sós.

A esperança cristã

Esperamos contra a própria esperança
Esperamos contra a própria esperança

A esperança cristã se funda na promessa divina de que a criação e, particularmente, a vida humana não se limitam a esta experiência terrena, mas a extrapolam adentrando o mais-além – a eternidade – onde serão plenificadas e celebradas eternamente (Jo 11:25-26; 1Co 15:19; Rm 8:18-25). Assim, o mundo e os seres humanos não terão um fim, mas um futuro: o futuro de Deus onde Ele mesmo “será tudo em todos” (1Co 15:28).

Ao contrário do que talvez imagine o senso comum, a esperança cristã não está reservada para a plenitude escatológica, mas se manifesta já no presente onde Deus se revela e atua. Assim, já podemos experimentar hoje algo do porvir celestial onde finalmente serão enxugadas as lágrimas de nossos olhos. Porém, o fazemos de forma incipiente, parcial, ambígüa e precária (pois vivemos ainda sob a influência do pecado).

As clássicas promessas de Deus a Abraão e ao povo de Israel – terra, descendência, proteção e livramento – são metáforas do destino que Deus tem para aqueles que se abrem para um caminhar com Ele (Gn 12:1-3; Ex 3:7-12). Porém mais do meras metáforas são também antecipações, “aperitivos”, de nossa salvação final. Assim, a partir de pequenas experiências cotidianas da graça e benevolência de Deus, podemos ter uma idéia, um gostinho, de como será o nosso futuro.

Vivemos, portanto, sob a dinâmica do “já e ainda-não”. Com efeito, já hoje experimentamos algo da salvação que nos está prometida, contudo ainda-não de forma plena. Esta é uma experiência progressiva: a cada dia vamos morrendo para o pecado que habita em nós e no mundo e ressuscitamos para Deus.

Ora, a esperança cristã é dinâmica. Não se trata de um aguardar apático e inerte da vinda de Deus. Antes, é um caminhar com ele, na força de seu Espiríto e na direção de sua pessoa e vontade. Quanto mais esta esperança ilumina nossa vida, mais celestial, mais abundante, mais “eterna” ela se torna.

A igreja e a missão

O Pai que nos criou também tomou a iniciativa de nossa salvação
O Pai que cria também toma a iniciativa de salvar

O que vem primeiro: a igreja ou a missão? É a igreja que tem uma missão ou é a missão que tem uma igreja?

Segundo as narrativas evangélicas, Jesus inicia sua atividade proclamando o Reino de Deus (Mc 1:14-15). E em função deste Reino, orienta e organiza todo seu ministério: conta parábolas para explicá-lo, realiza milagres para revelar que ele já começou a operar nas vidas das pessoas, e chama discípulos para plantar neles a esperança do Reino e o compromisso com sua construção.

Com exceção de duas passagens em Mateus – Mt 16:18 e Mt 18:17 – jamais vemos Jesus falando em igreja. Em contrapartida, a expressão “Reino de Deus” aparece mais de 250 vezes nos Evangelhos, a grande maioria das vezes nos lábios de nosso Senhor.

Teologicamente falando, a igreja nasce no dia de Pentecostes com a descida do Espírito Santo. Antes disto, porém, Jesus já havia entregue a missão a seus discípulos (Mt 28:19-20) que aguardavam reunidos o cumprimento da promessa pela qual seriam capacitados para realizá-la (At 1). Foi com esta finalidade que Jesus os chamou para seguí-lo.

A missão, portanto, é anterior à igreja. Logo, não é a igreja que tem uma missão, mas é a missão tem uma igreja. Esta existe como serva e instrumento daquela. A igreja não existe para enviar, mas existe como enviada.

É fundamental a compreensão acima. Ela, porém, nos coloca uma pergunta: se a missão não é da igreja, de quem é? Ora, a missão é de Deus (João 3:16). Ela foi confiada à igreja, mas ela é de Deus (Missio Dei). Deus é quem deseja salvar e quem, afinal, salva a humanidade. Ele enviou seu filho para realizar esta missão e incumbiu a igreja de continuá-la.

Mas ainda uma última pergunta fica sem resposta: quem é, afinal, este Deus da Missão? O Deus da missão é Abbá, o Pai de Jesus Cristo – um Deus amoroso e solidário que deseja o bem da humanidade. Abba é dinamismo de amor sem limites e fonte de toda ternura e graça. Ele é Trindade.

Segundo a tradição teológica latina, nos tempos eternos somente o Pai era. “Princípio sem princípio, origem sem origem”, dizia Agostinho. Mas por ser amor, o Pai não podia suportar “ser” sozinho. Ele então faz um movimento para fora de si e gera o Filho e, com o Filho, o Espírito. Ainda tomado por este amor que não cabe em si mesmo, Ele se  projeta para além de si mesmo e cria a humanidade para amá-la e ser amado por ela; para incluí-la neste círculo de amor e comunhão.

Abbá, o Deus do Reino é um Deus relacional. Ele nos ama e busca ser amado de volta por nós. Nisto consiste a Missio Dei. E para que este suspiro do coração divino se realize na sua vida e na minha, existe a igreja.

Meus filhos também ouvem as minhas orações

Deus não é o único atento às nossas orações
Deus não é o único atento às nossas orações

Todas as noite, sigo o mesmo ritual: escovo os dentes das crianças, levo-as para o quarto, leio uma historinha ou duas, e, finalmente, faço uma oração que começa sempre da mesma maneira: “Obrigado, papai do céu, porque Hugo e Theo são meninos  inteligentes, fortes, saudáveis, e amigos de Jesus”. Depois, então, eles dormem.

Embora Cristo  nos oriente a fugir das “vãs repetições” quando oramos, sempre que tenho este momento com os meninos, repito estas palavras diante de Deus com a disciplina de quem conduz um tratamento à base de homeopatia. Minha esperança é que não apenas Deus ouça o que digo, mas que meus filhinhos também ouçam tais palavras – e as guardem em seus corações.

Recentemente, fiquei sabendo através de minha sogra que minhas orações estão realmente sendo ouvidas. E que minha esperança não está sendo frustrada. Foi até engraçado. Era um domingo e nós estávamos na casa do meu sogro para um daqueles almoços em que se reúne toda a família. Aguardávamos um convidado especial que vinha comer com a gente.

Quando a campainha tocou, um dos meu sobrinhos correu para a porta e logo foi se apresentando: “Oi. Eu sou o Gabriel. Eu tenho seis anos e sou o neto mais velho”. Imediatamente depois dele, Hugo, meu filhinho primogênito, se aproximou do ilustre convidado e disse com naturalidade: “Oi. Eu sou o Hugo. Eu tenho quatro anos e sou o neto mais inteligente”. Só faltou mesmo o Theozinho chegar depois dizendo: “Oi. Eu sou o Theo. Eu tenho 3 anos e sou amigo de Jesus”.

Esta história singela e bem-humorada confirma e ilustra uma verdade da qual nunca duvidei: nada do que digo para Deus na presença dos meus filhos ou nada do que digo para os meus filhos na presença de Deus, se perde. Antes, cada palavra cumpre o seu destino como uma semente lançada ao solo que finalmente floresce e frutifica. Ora, não é apenas Deus quem ouve nossas orações. Nossos filhos também as ouvem. E o melhor de tudo: o que ouvem determina o que pensam acerca de si mesmos.

Que Deus nos dê sempre boas palavras. E que nunca deixemos de orar com os nossos filhos…

A Importância da Igreja

A igreja é uma referência imprescindível
A igreja é uma referência vital para a sociedade

As profecias pessimistas dos mestres da suspeita – Marx, Freud e Nietzsche – estavam erradas: apesar dos duros golpes que sofreu durante a modernidade, Deus não morreu, a religião não desapareceu do mapa e nem tampouco a igreja fechou em definitivo as suas portas. Muito pelo contrário. A religião hoje está de volta e com força total. E, alimentadas por este retorno do sagrado, as igrejas estão multiplicando-se por toda parte, experimentando um crescimento como há muito não se via.

Não obstante este novo momento cultural, muitas pessoas seguem se perguntando pela importância da igreja, sobre que tipo de diferença ela faz na sociedade. Aponto aqui duas razões pelas quais entendo ser a igreja importante para a sociedade contemporânea.

Primeiramente, a igreja é importante porque ela é um raro contraponto ao individualismo reinante em nossos dias. Nestes tempos altamente competitivos onde o outro cada vez mais é percebido como alguém que concorre comigo por um lugar ao sol, valores como o altruísmo, a generosidade e a gratuidade tendem a desaparecer. A sociedade, no entanto, não pode prescindir deles, pois constituem importante contrapeso para a manutenção do equilíbrio da relação eu-tu sobre a qual a vida social se edifica. Ao cultivar e encorajar a vivência cotidiana de tais valores, a igreja contribui significativamente para a saúde social impedindo-nos de tomar o caminho sem volta do egocentrismo absoluto.

Uma segunda razão pela qual julgo ser importante a presença da igreja na sociedade tem a ver com a esperança que ela encarna e proclama. Neste nosso contexto brasileiro de tantas más-notícias, a igreja insiste rebeldemente em ser um foco irradiador da boa-notícia de salvação e esperança do reino de Deus. Contra todas as evidências contrárias, a igreja teimosamente anuncia o triunfo do bem sobre o mal, a vitória da vida sobre a morte, o êxito da saúde sobre a doença, etc. E este anuncio é imprescindível, pois livra-nos do fatalismo e da depressão.

Enfim, a igreja é importante pois contribui fundamentalmente para a saúde social através do incentivo à gratuidade e ao altruísmo bem como por meio do anúncio insistente de uma esperança rebelde a todo enquadramento melancólico e fatalista. Ademais, a igreja constitui sinal e metáfora da nova humanidade redimida que tanto necessitamos ver emergir.