O nascimento da alegria

 
 
Igor

 

“Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele” (Lc 1:14)

 

Não achei graça nenhuma quando 9 meses atrás Karine me contou meio entre os dentes que talvez estivesse grávida de novo; vale dizer: pela terceira vez. Nem foi tanto pela questão financeira, pois não considero realmente que dinheiro seja o fator determinante quando o assunto é planejamento familiar. No meu entender, ninguém jamais deveria condicionar o sonho da família a dinheiro, mas sim rever a forma como pensa, ganha e administra o dinheiro a fim de construir sua família.

Mesmo assim, conquanto no íntimo desejasse mais um rebento correndo pela casa, quase morri do coração com a notícia da possível gravidez, pois temia aquela ciranda incontrolável de noites em claro, fraldas sujas, esposa cheirando a leite e visitas freqüentes ao pediatra como é próprio do ritual de chegada de uma nova criança no pedaço.

Sinceramente, para mim, essa era a questão: o medo da mudança de ritmo que o nascimento de um filho impõe sobre a dinâmica cotidiana e familiar. Afinal, ter um bebêzinho em casa implica, dentre outras coisas, abandonar qualquer pretensão de se manter uma rotina ordenada onde as atividades obedecem uma lógica simples do tipo fazer-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia e dormir durante a noite para, em lugar disso, abraçar um outro tipo de lógica: não dormir de noite, nem fazer-direito-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia.

Foi temendo essa aceleração de minha já frenética rotina que havia decidido fazer uma vasectomia. Só que não deu tempo: Karine já estava mesmo grávida… graças a Deus! Pois ainda no quarto do hospital, ao pegar Igor nos braços pela primeira vez, experimentei pela terceira vez na vida a alegreia indizível de ter um bebezinho para amar e cuidar. É claro que esse gozo extraordinário não elimina o trabalho brutal que vem com ele e lhe é proporcional. Mas, o faz valer a pena. Com efeito, não há nada a que se possa comparar a alegria de carregar junto ao peito um pequenino que chega na vida da gente como um presente-surpresa de Deus.

Hoje, pouco mais de duas semanas após o nascimento de Igor, não consigo nem imaginar mais a vida sem sua meiga e frágil presença. Não sei se saberia dormir novamente sem o calor de seu pequenino corpo amarrado sobre o meu pelo edredon. Não sei como seria levar os meninos para o futebol sem antes nos despedirmos dele beijando-lhe a cabecinha. Não sei como seria não ter sua cadeirinha espremida entre as outras no banco de trás do carro. Enfim, Igor é metáfora e concretização do milagre do amor que lança fora o medo e enche nossa vida de regozijo e alvissareira alegria.

Competência e sabedoria

"O Pensador", de Rodin, na perspectiva da competência capitalista

 

“Como é feliz o homem que acha a sabedoria!” (Pv 3:13)

 

A sociedade contemporânea nos incentiva, em tudo, a buscar competência. Ainda crianças aprendemos na escola: é preciso estudar para passar de ano para mais tarde entrar em uma boa faculdade e sair de lá com um currículo de peso sem o qual não se consegue um bom emprego. E nem se ganha dinheiro.

Assim nos é explicado – e transmitido – o valor da educação e da aquisição de conhecimentos. Tal, no entanto, simultaneamente oculta e releva um grave problema: aprendemos a buscar instrução pelos motivos errados. Passamos anos na escola, aprendemos e estudamos conteúdos diversos visando, em última instância, ganhar dinheiro. Competência, segundo a lógica capitalista, é isso: um currículo impressionante que te prove merecedor de uma boa remuneração.

Porém esta é uma visão demasiadamente estreita da instrumentalidade do conhecimento, da formação intelectual e, mais amplamente, da razão de ser da própria vida. Pois reduz o ser humano à esfera da atividade produtiva negando-lhe sua complexidade e riqueza. O resultado dessa lógica é bem conhecido: nossa sociedade forma excelentes profissionais, porém, pessoas medíocres; gente capaz de administrar corporações gigantescas, mas incapaz de gerir com êxito a própria família. São detentores de grande técnica e eficácia, merecedores de polpudos salários por seu conhecimento e expertise, mas não têm muitas vezes o que dizer o assunto migra para o âmbito da vida privada. Quantos hoje em dia não triunfam profissionalmente ao passo que suas vidas pessoais naufragam de forma vergonhosa e inelutável?

Contrariando a lógica cultural dominante, e vacinando-nos contra o quadro descrito acima, as Escrituras Sagradas nos aconselham a buscar sabedoria antes de competência:  “Procure obter sabedoria” (Pv 4:7).  Pois ela é como “árvore que dá vida a quem a abraça” (Pv 3:18). A sabedoria “é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro […] nada do que você possa desejar se compara a ela. Na mão direita, a sabedoria lhe garante vida longa; na mão esquerda, riquezas e honra. Os caminhos da sabedoria são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são de paz” (Pv 3:14-17).

As citações falam por si mesmas. A sabedoria é a mais elevada de todas as empresas humanas. Ela não exclui a competência, mas a complementa e potencializa. Quem torna-se sábio, tende também a tornar-se melhor profissional. Pois ao adquirir sabedoria, discerne o valor da competência e compreende o lugar de sua carreira no conjunto da vida. Ao invés de tornar-se uma pessoa unidimensional obssecada com o sonho do contra-cheque de cinco dígitos (ao preço de todo o resto), o sábio caminha na direção de tornar-se uma pessoa melhor, plena, integrando as múltiplas dimensões de sua vida e pessoa sem prejuízo de nenhuma delas.

Mas onde podemos encontrar a sabedoria se esta não é ensinada nas escolas nem tampouco nos manuais corporativos? 

Segundo o testemunho das Escrituras Sagradas, “o Senhor é quem dá sabedoria” (Pv 2:6). Ele a dá “livremente e de boa-vontade” a quem dela tem falta e a solicita (Tg 1:5). A sabedoria habita o relacionamento com Deus e a partir dele se irradia. Ela advém da comunhão com o Pai e do hábito de refletir e meditar em sua palavra. Não pode ser comprada por dinheiro. Não pode ser aprendida em cursos aqui ou no exterior. Ela é dom. É graça que nos é dispensada no convívio afetuoso com aquele que é onisciente e fonte de todo conhecimento. A sabedoria é o reflexo da luz divina que se projeta sobre nós quando nos voltamos para contemplar seu rosto amável e cheio de ternura.

A diferença fundamental entre a competência e a sabedoria é que a primeira se restringe ao mundo do trabalho enquanto a última se aplica à totalidade da vida e da pessoa. A sabedoria é fruto do relacionamento com Deus e por isso abarca e abençoa o conjunto de nossa trajetória neste mundo. A competência tem vida breve e se limita aos anos produtivos depois dos quais é inútil. Quem busca sabedoria, encontra todo o resto ao passo que quem busca competência, acha dinheiro – e dinheiro apenas. Depois, o vazio.

A contagem do tempo

Como B. Button, todos nascemos idosos

 

“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos a sabedoria” (Sl 90:12)

 

Não sabemos contar o tempo. Em nossos calendários, cada dia que passa é contado como um dia a mais. O mesmo ocorre em relação aos meses do ano: vão crescendo sucessivamente de 1 a 12; como as horas de um relógio. Obedecendo esta mesma lógica, a cada aniversário que completamos, acrescentamos mais uma vela ao bolo e um ano à idade da gente.

Mas o tempo não funciona assim. Ele opera segundo uma outra lógica. Não ganhamos tempo a medida que ele passa. Não acumulamos dias e anos. Nós os perdemos. Cada dia a mais é, na verdade, um dia a menos. Não tenho os anos que minha idade sugere. Estes são os anos que já não tenho mais. Como bem disse Rubem Alves: são “fósforos riscados”. O tempo que realmente tenho, não é tão simples de contar. O dia de amanhã é apenas uma possibilidade.

A rigor, o tempo se conta de forma decrescente. A medida que ele passa, diminuem os anos que temos. Como Benjamim Button, todos nascemos idosos, cheios de anos. Ironicamente, no instante mesmo em que nascemos, começamos também a morrer. Pois, imediatamente, todo o tempo que temos – sem que saibamos quanto – passa a fugir de nós. Como nuvem em meio ao vendaval, ele vai se dissipando velozmente. Nas palavras do salmista: “a vida passa depressa e nós voamos” (Sl 90:10).

Nesta complexa equação da existência terrena, a grande incógnita é, sem dúvida, o dia de nossa morte. Contamos o tempo de forma equivocada porque desconhecemos o dia de nosso último suspiro. Se ao nascer, recebêssemos também uma certidão de óbito, tudo ficaria mais fácil. Poderíamos planejar com segurança nossa vida contando os anos de forma regressiva. Mas aí não teria graça. Viver seria como um assistir filme cujo final já conhecemos de antemão. A beleza da vida reside precisamente no fato de que ela é aberta, como um poema que vai sendo escrito a medida que surge a inspiração.

Mas acaba que tal abertura nos é conveniente. Como, no nível prático, rejeitamos a idéia de vamos morrer – haja vista nossa incontestável obsessão com a juventude – pensamos enganar a morte contando nossos anos para cima, de forma crescente. Preferimos pensar em termos de longevidade a pensar em termos de finitude. Mas afinal estes expedientes se revelam ineficazes. Pois não há mesmo para onde correr: todos caminhamos em direção ao fim inevitável. E insuspeito.

Talvez aí resida o segredo da sabedoria: viver com a consciência de que se está morrendo. Não é verdade que muitas pessoas passam a viver com intencionalidade apenas quando descobrem que estão prestes a morrer? Quantos não mudam completamente suas prioridades após o diagnóstico de um câncer? Ou após sobreviverem a um acidente, seja ele automobilístico ou cardiovascular? Tais experiências-limite nos recordam de nossa mortalidade. Elas berram aos nossos ouvidos: somos efêmeros! É precisamente esta consciência que nos permite “alcançar a sabedoria”. Pois já não há como viver de forma displicente quando se sabe que a morte se avizinha. Nascemos para vida quando nos conscientizamos de que vamos morrer. Daí que o salmista ore a Deus: “ensina-nos a contar os nossos dias”.

No espírito da oração acima, faço aqui uma sugestão: substituamos nossos modernos relógios pelas antigas ampulhetas. Pois elas, melhor que ninguém, compreendem a lógica segundo a qual o tempo trabalha. Enquanto nossos relógios nos empurram apressadamente para frente supondo que há sempre mais tempo para agendarmos ainda um outro compromisso, a ampulheta nos faz parar para pensar: quanto tempo ainda me resta? Ao invés de perguntar: “o que mais posso fazer?”, indaga: “do que preciso abrir mão para não negligenciar o que é essencial?”.

Em meio à correria desta nossa vida urbana e pós-moderna, a ampulheta nos ajuda a lidar com o tempo de maneira sábia, pois o conta de forma decrescente e poética, exatamente como a vida se desenrola diante de nós. Ainda mais: sempre que a viramos ao romper de cada novo dia somos recordados: todo o tempo que temos é o dia de hoje. O dia de ontem não nos pertence mais e o amanhã pode ou não existir. Vive com sabedoria quem vive um dia de cada vez.

Comunidade

 
Domingo é dia de festa na Betânia Litorânea: comunhão, adoração, Palavra e folia

 

“Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum” (Atos 2:44)

 

O livro dos Atos dos Apóstolos relata o nascimento e desenvolvimento inicial da igreja; o modo como, desde o princípio, os cristãos se organizaram em comunidades. Segundo se pode perceber pela leitura dos trechos de At 2:42-47 e 4:32-35, dois eram os pilares sobre os quais tal experiência suscitada e mantida pela ação do Espírito Santo se apoiava: uma profunda consciência de grupo e uma fé comum.

A narrativa bíblica exprime de modo quase poético a realidade desta consciência de grupo existente entre os primeiros cristãos ao dizer que “da multidão dos que creram era um o coração e alma”. Mais do que uma mera experiência de uniformidade, os primeiros grupos cristãos viveram a experiência da unidade. Eles eram muitos, eram certamente diferentes, mas estavam juntos, sabiam-se um. Seu sentido de comunidade era tão genuíno e maravilhoso que tinha expressão concreta no cuidado com os menos privilegiados. Com efeito, “nenhum necessitado havia entre eles”, pois tudo repartiam à medida que houvesse carência na comunidade.

O segredo que tornava possível esta unidade altruísta e comprometida decerto era a existência de uma fé comum nutrida e celebrada cotidianamente. Como o texto bíblico deixa claro, os primeiros grupos cristãos diariamente “perseveravam na doutrina dos apóstolos” e “nas orações” partindo o pão eucarístico de “casa em casa”. O que o autor de Atos chamou de doutrina dos apóstolos é o que hoje entendemos como o núcleo fundamental da fé cristã: a encarnação do Verbo divino no homem Jesus de Nazaré, o qual viveu sem pecado, morreu crucificado, ressuscitou ao terceiro dia, e foi elevado aos céus de onde virá novamente em glória. Na experiência diária e doméstica da eucaristia, a igreja nascente celebrava, aprofundava e desenvolvia o mistério de Deus em suas vidas o que lhes conferia poder para amar, aceitar e acolher o outro a despeito de tudo.

Graças a Deus, e ao crescente envolvimento de irmãos e irmãs nos cultos dominicais e células nos lares de nossa recém-formada igreja Betânia Litorânea, temos vivenciado de uma maneira nova e bela essa experiência de ser comunidade. Nestes tempos pós-modernos de hiperindividualismo e laços afetivos frouxos, temos redescoberto a alegria de conviver. E mais importante ainda: temos encontrado Deus em nossas vidas através das vidas de nossos irmãos. Pois na mediação do encontro com o outro, Deus se revela mais “vivo”, mais pessoal ainda e, portanto, mais próximo de cada um de nós. Quem tem caminhado com a gente, pode dar testemunho disto.

 

O caminho sobremodo excelente

O amor é mais excelente dos caminhos (1Co 13)

Diferente de nós ocidentais pós-modernos para quem o amor é percebido como um sentimento, uma emoção, um frio na barriga ou de alguns indivíduos ainda fortemente marcados pela austeridade moderna para quem o amor é uma decisão moral e um compromisso, para o apóstolo Paulo e mais amplamente para a tradição bíblica (Pv 30:18-19), o amor é um caminho.

O fato de ser caminho não significa que no amor não haja sentimento ou compromisso, mas significa que ele inclui estas realidades ao mesmo tempo em que as ultrapassa, engloba e transcende. Com efeito, nas Escrituras, a noção de caminho é metafóra para se falar da vida. A rigor, percorrer um caminho é o mesmo que viver a vida de uma certa maneira, segundo uma certa lógica e desde uma determinada perspectiva. Portanto, trilhar o caminho do amor é viver sob o princípio-amor, é viver na força e sob a dinâmica engendrada por esta realidade tão ordinária e tão sublime que é a substância mesma do próprio Deus em nossas vidas.

Ao escrever aos crentes da cidade de Corinto – tendo diante de si o momento agitado da comunidade que lidava com conflitos, divisões e partidarismos de toda sorte – Paulo oferece em sua primeira carta uma possibilidade de conserto e  solução. Tal, porém, não consistia em atalho simplista para fora do caos, em mero desvio de rota visando contornar os espinhos, mas em caminho na direção do encontro e da comunhão: a vivência concreta e cotidiana do amor. Como preferiu chamar o apóstolo: o caminho “sobremodo excelente” (1Co 12:31). Para Paulo estava claro: somente o amor podia tornar possível a vida comunitária; e, de modo mais particular, a vida-a-dois que não deixa de ser um microcosmos da vida em comunidade.

Para Paulo, então, o amor não é apenas um caminho, mas o caminho. Por quê exatamente? O que a experiência de trilhar o caminho do amor acrescenta e traz às nossas vidas de tão especial? O capítulo 13 da primeira carta aos coríntios é a resposta do apóstolo a esta questão.

1. Somente o amor confere sentido à vida. (vv.1-3)

Nenhuma realidade humana tem o poder de conferir sentido a vida: nem a acumulação de riquezas, nem a fruição dos prazeres, nem a construção de uma imagem pessoal de sucesso, nem a obtenção da admiração das outras pessoas, etc. Somente o amor pode fazê-lo. Nada que eu venha a fazer ou possuir terá proveito ou sentido se faltar o amor. Como disse o apóstolo Paulo, sem amor “nada serei”.

De outra parte, onde há amor, há sentido e proveito. Pois o amor reveste de sentido a vida e a morte. Mesmo a realidade absurda e inexplicável do sofrimento humano passa a ter sentido na presença do amor. Pois se é verdade, por um lado, que em si mesmo o sofrimento não tem sentido, é verdade também, por outro, que quando sofremos para que outros parem de sofrer, o sofrimento se torna plausível e, até certo ponto, justificável. Mais ainda: ele confere dignidade e revela-se recompensador. Por isto o martírio é algo tão trágico, mas tão belo. Jesus viveu, sofreu e morreu para que a humanidade não mais tivesse que sofrer e morrer eternamente. Sua vida, seu sofrimento e sua morte tiveram profundo sentido – e proveito.

Quando trilhamos o caminho do amor, aprendemos a viver para amenizar o sofrimento do outro. Isso, obviamente, não significa que recaía sobre nós a responsabilidade de fazer o outro feliz, pois não somos capazes de fazer ninguém feliz. Felicidade é uma conquista pessoal, interior. Contudo, podemos ao menos ajudar o outro a viver de forma mais leve e menos sofrida. Todos deveríamos nos casar pensando nisso: em aliaviar as dores e cargas – o jugo – daqueles a quem amamos. Deveríamos nos perguntar se estamos dispostos até mesmo a sofrer privações e renuncias para que o outro não precise sofrê-las. Obviamente, esta é uma via de mão-dupla, embora Paulo afirme que seja tarefa do marido amar a mulher com tal abnegação (Ef 5:25-27). Este é um objetivo realista e certamente gratificante.

2. O amor nos faz pessoas melhores (vv.4-7)

Ao trilharmos o caminho do amor, deparamo-nos com paisagens diversas, atravessamos estações distintas e enfrentamos tempos variados de fartura e de excassez, de festa e de luto, de contentamento e de frustração. Tais variações demandam de nós flexibilidade e resistência, pois representam desafios que nos puxam para além de nossos limites e exigem superação. Assim, trilhar o caminho do amor implica crescimento, aprendizado, maturação. Nas palavras do apóstolo paulo: é preciso “desistir das coisas de menino” (v.11).

Nos vv. 4-7, Paulo descreve o amor: é paciente, é benigno, não se ufana, não se ensoberbece… tudo sofre, tudo crê, tudo espera… Quem trilha o amor do amor, se expõe a influência destas virtudes e vai assimilando-as paulatinamente. Assim, quem amam vai se transformando em uma nova pessoa mais paciente, mais humilde, mais altruísta, mais bondosa, mais crente, mais cheia de esperança.

Vale notar que todas estas virtudes são virtudes relacionais, isto é, virtudes que orientam-se para a alteridade, para o outro. São virtudes que obedecem a lógica do “auto-esvaziamento” de Filipenses 2:5-9. Quem ama, se esvazia de si mesmo e faz a oração de João Batista tendo em mente a pessoa amada: “importa que ele cresça e eu diminua”. Quem trilha o caminho do amor se torna uma pessoa melhor pois deixa de ser egoísta tornando-se alguém que vive segundo a lógica divina da gratuidade: “minha alegria é ver o outro feliz”. Quem ama de verdade, se torna este tipo de pessoa.

3. O amor nos abre o mistério do inefável (v.8)

Tudo passa nesta vida, mas o amor prossegue na eternidade. É claro que o amor que lá viveremos será diferente deste que conhecemos aqui marcado por nossa ambigüidade. De toda sorte, quem ama, vive no presente – ainda que de forma precária e limitada – o mistério do amor infinito, transcendente e perfeito. Quem ama, vive neste mundo uma espécie de antecipação de nosso destino final com Deus quando ele será “tudo em todos” (1Co 15:28).

O amor humano é assim uma espécie de aperitivo do amor ágape-divino que é o amor como ele deve ser. A experiência do amor humano é, desta forma, um ensaio para a experiência do amor eterno, inefável. O amor do outro é metáfora do amor de Deus por nós. O fato de sermos amados aqui nos remete a experiência de sermos finalmente aceitos e acolhidos na eternidade por Deus, nosso Pai. Bem disse o apóstolo João: “quem ama conhece a Deus”. Com efeito, a experiência de amar uma outra pessoa reveste nossa vida do sublime, do maravilhoso, de tudo o que é mais belo. Aquele pelo que suspira nossa alma nos está acessível através da experiência do amor. Quem ama vive no presente algo da eternidade.

Finalmente, importa frizar, que trilhar o caminho do amor constitui experiência abençoadora, porém demandante. Não é simples esta estrada. Há altos e baixos, curvas sinuosas, cenários belíssimos e outros não tão belos assim. O fundamental, contudo, é seguir caminhando. Prosseguir apesar de adversidades e lutas. Um dia de cada vez. Um dia depois do outro. Todos os dias. Quem trilha o caminho do amor com perservarança, sem se dar conta, pisa a eternidade.

A ressurreição e o ano novo

A ressurreição nos abre o futuro de Deus

É certo pensar que o conjunto de nossas experiências passadas nos diz muito acerca de quem somos e do porquê hoje nos encontramos neste ponto de nossas vidas. Importa esclarecer, todavia, que não é tanto o passado que determina o caminho de nosso existir no mundo, mas sim o futuro. Na realidade, o que queremos ser no futuro tem maior influência sobre nossas vidas do que aquilo que somos hoje ou já fomos um dia. Isto nos sugere as Escrituras quando afirmam “o justo viverá por fé”.

Viver por fé, com efeito, significa viver a partir de uma realidade que não possuímos, de algo que ainda não nos pertence, que nos foge ao tato, mas que nos convida a caminhar. Viver por fé significa, assim, viver seduzido por uma esperança, por uma promessa, por um desejo de chegar. A vida inteira projetada num único suspiro.

Segundo afirmação da teologia cristã, o suspiro profundo do coração humano é contemplar o rosto de Deus: vê-lo como somos vistos. Esta é nossa fome básica, nosso anseio fundamental. Vivemos, de fato, ainda que inconscientemente, em busca de sua face. Sim, vivemos em busca de Deus, fonte e destino da vida! Por trás de todos os nossos projetos, de todos os nossos amores, de todos os nossos desejos de consumo, de todas as nossas lágrimas, e mesmo por trás de toda nossa luta neste  mundo de contradições, subsiste um impulso incontrolável por  encontrá-lo. Fora  dele,  que  sentido  tem  a  vida? Fora dele, há vida? Por isto o queremos tanto: desejamos viver, viver para sempre. Desejamos viver de forma abundante, plena, como a ressurreição nos permitirá.

Infelizmente, falamos pouco sobre o tema da ressurreição. Isto porque quase não falamos sobre um outro tema de importância igualmente capital: a cruz. Esquecemo-nos, assim, sem mais, do clímax da história, do acontecimento único no tempo que nos abriu futuro e a eternidade: em um homem pobre e simples, Deus mesmo passou entre nós levando consigo a chave da morte vencida na cruz e na ressurreição. Com base nisto confessamos: não existe mais morte e vida, mas somente vida e ressurreição. Em Jesus, a vida não terá um fim, mas um futuro. Quando perdemos isto de vista, tudo a nossa volta cheira a mofo e perde a cor. Com efeito, a fé na cruz-ressurreição de Jesus nos permite, já agora em vida, ressurgir, nascer de novo, tentar outra vez. Pouco importam as frustrações e fracassos de outrora. Ele fez – e faz – novas todas as coisas. Crer em Jesus Cristo implica viver em constante renovação de vida.

Concretamente, isto quer dizer que a pessoa que eu hoje sou não é simplesmente o resultado dos passos de um tempo que ficou para trás, mas é, sobretudo, misericórdia e graça do senhor que me permitiu chegar até aqui e agora me convida a fazer diferente. Hoje é, portanto, oportunidade e kairós de Deus para mim. A fé na cruz-ressurreição me convida a sonhar, a caminhar em uma nova direção. Agora sei onde posso chegar, e por isso saberei escolher o caminho. Não é o passado, afinal, que me dirá para onde estou indo, mas o futuro aberto e garantido pela cruz-ressurreição de Cristo.

Que neste novo ano nós possamos ressuscitar muitas vezes e nascer sempre outra vez para vida que Deus tem para nós. Que, ao lado disto, nos sejam concedidos novos sonhos que nos animem a seguir em frente. E, finalmente, que nossa alma transborde de alegria. Feliz ano novo!

A oração mais sábia

Não precisamos tanto de descanso quanto de renovação
Não preciso tanto de descanso, mas de renovação

 

“[…] os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40:31).

 

O ritmo de nossas vidas é extremamente acelerado. As 24 horas do dia nunca são suficientes para tudo o que precisamos fazer. São muitas as camisas que temos de vestir. No meu caso, a de pai, marido, pastor, provedor, conselheiro, mestre, líder, capelão, amigo, filho, discípulo, pregador, administrador, etc. Todas estas demandas requerem enorme energia e uma alta capacidade de fazer malabarismos. (Sinto-me, muitas vezes, como aqueles meninos  jogando limões nos sinais de trânsito preocupado em não deixar nenhum deles cair).

Quando chega o fim do dia – ou da semana, ou do mês – o cansaço é brutal. Fomos além de nosso limite e, ainda assim, muita coisa ficou por ser feita. Vencido pela fadiga, nosso corpo se rende à preguiça e ao sono. A única oração que sabemos fazer é: eu preciso descansar. Mas mesmo para isto, o tempo não parece ser suficiente. Comentando sobre um livro que leu, um amigo me disse, dias atrás: nosso problema, na realidade, não é falta de tempo, mas falta de energia. Estamos exaustos não porque nos falte tempo para tudo o que precisamos fazer, mas porque concentramos nosso tempo nas atividades que mais nos roubam energia e deixamos de fazer justamente aquelas coisas que tem o poder de renovar a nossa energia.

Imediatamente, me lembrei do Pastor Pablo, missionário de nossa igreja no Peru. No ano passado, quando esteve na Igreja Betânia, ele relatou que após cinco anos no campo missionário servindo a Deus com grave escassez de recursos humanos e materiais, seu coração estava desanimado, seu corpo exausto e sua mente fixa na idéia de parar. Ele estava a ponto de desistir de tudo. Incessantemente, repetia para Deus: “Da-me um tempo de descanso”. Até que Deus falou-lhe ao coração: “Pablo, meu filho, você não precisa de descanso, você precisa de um renovo. Eu vou te renovar”.

Lembrei-me destas palavras como se Deus as tivesse dizendo para mim. E logo constatei que minhas orações estavam equivocadas. Mais sábio do que orar por descanso é orar por renovação. Até por que os limões continuam no ar e não podemos permitir que caiam ao chão. Por isto, tenho buscado este aprendizado. Quero orar desta forma a cada dia: “Renova-me, Senhor; renova as minhas energias. E ajuda-me a discernir as minhas reais prioridades. Livra-me de gastar meu tempo apenas com o que rouba as minhas forças e me permite-me não negligenciar aquelas pequenas coisas sagradas que me enchem a alma e trazem alegria”.

Em meio à loucura desta nossa vida pós-moderna, urbana, e hiper-acelarada, orar por renovação é, não apenas uma necessidade, mas também um ato de lucidez e de sabedoria. De outra parte, é igualmente importante passar em revista nossos hábitos e rotinas. E então prosseguir.

Que Deus nos renove hoje e a cada dia.

Transparências do divino

Quem enxerga o humano, vê Deus. E vice-versa
Quem enxerga o humano, vê Deus. E vice-versa

Os gregos antigos concebiam o divino como a absoluta transcendência. Já os pagãos o compreendiam em termos de uma imanência radical – o divino era a própria criação, cada ser e cada coisa. Para a fé bíblica, no entanto, o divino – Deus – está para além de ambas as categorias. Ele não é nem transcendência apenas, nem imanência apenas. Deus é transparência. Nas Escrituras, Deus se manifesta simultaneamente na criação e através dela, sem, no entanto, se confundir com ela. Como disse Teilhard de Chardin: “Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão e Deus, mas Deus é Deus”.

A visão grega de Deus pressupunha que o mundo e a criação eram maus e imperfeitos. Deus, portanto, não poderia ser deste mundo nem se fazer conhecer nele de modo objetivo. O imperfeito não pode abrigar a perfeição, pensavam. O paganismo obedecia lógica inversa: Deus é tudo e tudo é Deus. Logo, todas as coisas são sagradas – daí que cultuassem o sol, a lua, os rios, os animais, etc. O perfeito é imperfeito. O criador e a criatura são uma e a mesma realidade.

Num certo sentido, pode-se dizer que a concepção bíblica de Deus é uma síntese das concepções grega e pagã. O Deus inefável, o Totalmente Outro, se oferece a nós na figura ordinária de um homem comum, em tudo igual a nós, exceto no pecado: Jesus de Nazaré. Nele o divino irrompe na história humana transfigurando-a desde suas entranhas. A perfeição fecunda a imperfeição abrindo-lhe assim possibilidades infinitas. Somente por isto é possível oferecermos um copo d’água a alguém que tem sede e deste modo agradarmos a Deus. De outra parte, já não mais faz sentido adorarmos a Deus se continuamos indiferentes às necessidades de nosso irmão. Nisto se resume a categoria bíblica da transparência: quem enxerga o semelhante, vê Deus. E vice-versa. Nada é, portanto, meramente o que aparenta ser.

O que foi dito acima pode ser expresso de outra maneira: por trás de cada crepúsculo, de cada alvorecer, de cada poema, de cada ritmo, de cada gesto de amor e cuidado, de cada sorriso infantil, de tudo aquilo que é belo e bom, está Deus. Pois ele é a fonte de toda bondade e toda virtude. Através destas coisas, O enxergamos e apenas quando olhamos através Dele é que realmente percebemos a beleza do mundo criado. O perfeito aprimora o imperfeito e o imperfeito aponta para a perfeição permitindo-nos experimentá-la indiretamente.

Enfim, como um vidro que nos permite ver o que está do outro lado, Deus não é, nem imanência, nem transcendência, mas transparência. Enxergamos Deus através do humano e compreendemos o humano quando olhamos para Deus. Nossa vida, portanto, não é algo sem-sentido, mas é sacramento do divino, uma métafora que nos ajuda a pensar sobre aquele que é cheio de compaixão e de ternura.

Meus filhos também ouvem as minhas orações

Deus não é o único atento às nossas orações
Deus não é o único atento às nossas orações

Todas as noite, sigo o mesmo ritual: escovo os dentes das crianças, levo-as para o quarto, leio uma historinha ou duas, e, finalmente, faço uma oração que começa sempre da mesma maneira: “Obrigado, papai do céu, porque Hugo e Theo são meninos  inteligentes, fortes, saudáveis, e amigos de Jesus”. Depois, então, eles dormem.

Embora Cristo  nos oriente a fugir das “vãs repetições” quando oramos, sempre que tenho este momento com os meninos, repito estas palavras diante de Deus com a disciplina de quem conduz um tratamento à base de homeopatia. Minha esperança é que não apenas Deus ouça o que digo, mas que meus filhinhos também ouçam tais palavras – e as guardem em seus corações.

Recentemente, fiquei sabendo através de minha sogra que minhas orações estão realmente sendo ouvidas. E que minha esperança não está sendo frustrada. Foi até engraçado. Era um domingo e nós estávamos na casa do meu sogro para um daqueles almoços em que se reúne toda a família. Aguardávamos um convidado especial que vinha comer com a gente.

Quando a campainha tocou, um dos meu sobrinhos correu para a porta e logo foi se apresentando: “Oi. Eu sou o Gabriel. Eu tenho seis anos e sou o neto mais velho”. Imediatamente depois dele, Hugo, meu filhinho primogênito, se aproximou do ilustre convidado e disse com naturalidade: “Oi. Eu sou o Hugo. Eu tenho quatro anos e sou o neto mais inteligente”. Só faltou mesmo o Theozinho chegar depois dizendo: “Oi. Eu sou o Theo. Eu tenho 3 anos e sou amigo de Jesus”.

Esta história singela e bem-humorada confirma e ilustra uma verdade da qual nunca duvidei: nada do que digo para Deus na presença dos meus filhos ou nada do que digo para os meus filhos na presença de Deus, se perde. Antes, cada palavra cumpre o seu destino como uma semente lançada ao solo que finalmente floresce e frutifica. Ora, não é apenas Deus quem ouve nossas orações. Nossos filhos também as ouvem. E o melhor de tudo: o que ouvem determina o que pensam acerca de si mesmos.

Que Deus nos dê sempre boas palavras. E que nunca deixemos de orar com os nossos filhos…