Páscoa: Deus passou por aqui…

Na cruz de Jesus, Deus passou pela morte

 A palavra “páscoa” traduz o hebraico “pessach” que, como é sabido por todos, significa “passagem”. Trata-se de uma referência à noite em que anjo de Deus passou pelo Egito libertando o povo de Israel de sob o domínio de Faraó que já durava 400 anos. Tal episódio encontra-se relatado em Êxodo 12 e é, sem sombra de dúvida, uma das memórias prediletas do povo judeu. Com efeito, desde aquela noite até o dia de hoje, uma vez por ano, inexoravelmente, Israel celebra esta data. É a festa da Páscoa.

Entretanto, a celebração anual desta festa não é privilégio dos judeus. Nós cristãos também a celebramos fielmente, se bem que desde um prisma diferente. Um prisma que, a rigor, não exclui nem invalida o prisma judaico, mas o transcende. Porque se para os judeus a páscoa é a festa da libertação nacional, para nós cristãos, ela é a festa da libertação universal e total; a comemoração por excelência do triunfo da vida sobre a morte e sobre todos os seus agentes em benefício de toda criação. Por essa razão, na páscoa, cantamos todos juntos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15,55).

Este ponto é preciso estar claro: para nós cristãos, a páscoa é a festa da vida, de sua afirmação e vitória sobre a morte ainda que cruzes façam parte da história. Porque o que aqui celebramos não é outra realidade senão a da passagem triunfal (e misteriosa) de Deus pela morte suscitando vida desde suas entranhas. O que na fé afirmamos, na páscoa celebramos: Deus mesmo, em carne e osso, visitou a nossa história, experimentou as nossas dores, comeu pão e bebeu vinho, sentiu fome, sede, teve medo, riu e chorou. Nasceu criança pobre, vulnerável, entregando-se aos cuidados de José e Maria. Foi circuncidado ao oitavo dia, freqüentou o templo e as festas do povo. Uma vez crescido, tomou partido dos pecadores. Deu valor às crianças e às mulheres, curou os enfermos, libertou os endemoninhados, acolheu a gente marginalizada, questionou os costumes e as tradições religiosas, ensinou o amor e denunciou a injustiça. Viveu sem pecado. Foi morto de forma brutal em uma cruz hedionda. Mas ressuscitou ao terceiro dia. Nas palavras de Pedro: “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38). Em Jesus de Nazaré, Deus mesmo passou entre nós ordenando vida e inaugurando a ressurreição de todas as coisas.

Na Páscoa, portanto, nós cristãos declaramos: o mundo já não terá um fim, mas um futuro – será transfigurado. Toda criação já está sendo redimida, ressuscitada. Por isso, na fé, já não falamos mais em termos de morte e vida, mas de vida e ressurreição. Porque a morte nada mais é do que o ponto de chegada de nossa vida natural ao passo que a ressurreição marca o seu início. Sim, começamos a viver quando ressuscitamos em vida por meio de Jesus Cristo. Dia após dia o nosso corpo vai morrendo, mas em Cristo, somos ressuscitados a cada novo dia, chamados a uma nova existência, a uma experiência de plenitude.

Embora muitas vezes o contexto concreto em que nos encontramos aponte noutra direção – seja a família em crise, a vida profissional ameaçada ou mesmo a conjuntura social caótica –, é necessário sempre de novo lembrar que a cruz não pode conter a ressurreição. Ao terceiro dia, ela acontecerá!!! Haverá dias de pranto, de luto, de sombras, mas o sol brilhará outra vez. Esta promessa foi selada com sangue. Assim, aguardamos o dia bendito em que Deus será “tudo em todos” (1Co 15,28). É isto, precisamente, que na páscoa celebramos: o princípio de nossa libertação total e a promessa de abundância de vida. Aleluia!

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Criados para viver eternamente

Queremos viver eternamente cada instante
O relógio marca apenas o tempo que já não temos

A vida é breve. Como declara o poeta sagrado – “Os dias de nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta […] porque tudo passa rapidamente e nós voamos” (Salmo 90:10). Porém, para aqueles que creêm, há uma boa notícia: a vida não termina ao final deste número de anos.

Nós bem o sabemos: o ser humano não foi criado para a finitude e limitação desta vida mundana. Fomos criados para viver para sempre – e em plenitude. Daí que a morte nos cause tanta perplexidade. E a vida terrena, tanta ansiedade. Queremos viver plenamente cada minuto desta nossa vida debaixo do sol. Queremos viver eternamente cada dia.

Este desejo humano é inevitável e universal. Segundo a fé cristã, ele existe em nossos corações porque somos Imago Dei, porque fomos criados à imagem divina para vivermos precisamente desta maneira. Como revela o texto de Eclesiastes 3:1: Deus “pôs no coração humano o anseio pela eternidade”.

Isto que o escritor de Eclesiastes chamou de “anseio pela eternidade” é aquilo que, na teologia, se denomina “necessidade de salvação”. O ser humano sente, intui, que sua vida não é como deveria ser. A partir de sua experiência cotidiana, conclui: a vida deveria ser diferente – mais justa, mais cheia de graça, generosidade, congraçamento e alegria. Enfim, deveria ser melhor.

Esta perene insatisfação com a precariedade de sua vida, leva o ser humano a buscar plenitude (isto é: salvação, eternidade). O problema é que, influenciado pela cultura, ele interpreta e implementa esta busca em termos materialistas imaginando ser possível alcançar a vida plena através da aquisição de certos bens materiais, da assimilação de determinados estilos de vida, e da experiência inebriante do prazer, do sucesso, da admiração e da liberdade auto-centrada. O ser humano, deste modo, perde sua vida tentando salvá-la (Mateus 16:25).

A vida plena pela qual todos ansiamos somente é possível em Deus. Pois a eternidade consiste em “conhecer ao único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo” (João 17:3). Quanto mais o ser humano conhece a Cristo e se relaciona com Ele, mas sua vida se reveste de eternidade. Então o outro lado irrompe em nossa história enchendo-a de sentido e plenitude. Como diz o salmista: “um dia na presença do Senhor vale mais que mil” (Salmo 84:10). Vivemos eternamente quando vivemos com Deus.

Contudo, por ainda fazermos parte de uma realidade marcada pela ambigüidade, esta experiência da vida plenificada, somente nos é possível de forma incipiente, limitada e parcial. Apenas quando fecharmos finalmente os nossos olhos é que experimentaremos a eternidade em toda sua plenitude. Morreremos para ressuscitar. Esta certeza, de um lado, ilumina nossa vida e, de outro, dá sentido a nossa morte. Quem nesta mundo vive com Cristo e com ele vem a morrer, sabe de antemão que também com ele ressuscitará para a eternidade. Quanto a isto, ninguém se engane: decidimos nosso destino eterno hoje, no aqui e agora desta nossa vida terrena.

Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Quem hoje decide abrir-se para a experiência de conhecê-lo, já não morre, mas passa da morte para a vida. Pois para quem vive com Cristo, a vida já não consiste num dinamismo de vida e morte, mas de vida e ressurreição. Toda morte é princípio de algo novo. Assim sendo, a morte em si já não representa um fim, mas o início de um futuro de plenitude e abundância de vida. De outra parte, quem se fecha para Cristo e vive para si mesmo, começa hoje a morrer eternamente…