Filho custa caro?

 

O preço de não ter filhos é maior do que os gastos com eles

  

“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá” (Sl 127:3)

 

Dizem por aí que filho custa caro. Não é verdade. Estou esperando o terceiro e posso dizê-lo com conhecimento de causa.

Começa que filho não custa nada para fazer. Depois, até dez ou doze meses, a criança se alimenta basicamente de leite materno e raios solares (fundamentais para ativação da vitamina D sem a qual não há absorção do cálcio reponsável pelo desenvolvimento dos ossos). Durante esse período, a única despesa regular que se tem com o pimpolho são as fraldas descartáveis; afinal, um mínimo de conforto e praticidade é necessário.

É isso. Mais tarde, os gastos se concentram em educação e saúde. Obviamente, tais gastos poderiam ser evitados se vivêssemos num país sério onde as escolas e os hospitais públicos não ofendem à dignidade humana. O mais, é comida. Neste quesito, porém, os recursos se multiplicam: onde comem dois, comem três e onde comem três, comem quatro. Até porque  arroz, feijão, frango e uns tomates não custam tanto dinheiro assim. E se os pais forem mesmo engajados ao ponto de abrirem mão de pegar um cineminha no Plaza para, de vez em quando, assistirem o filme no Shopping São Gonçalo, sobra até uma grana para incrementar a dieta da turma com yogurt, sucrilhos, geléia de mocotó e skiny.

Curiosamente, no entanto, quando falamos em criação de filhos, a primeira coisa que vem a mente das pessoas são planilhas e planilhas de excel, múltiplos extratos bancários e uma enormidade de cobranças de cartão de crédito que retratam uma realidade desesperadora de gastos que beiram o infinito. De modo semelhante, a expressão planejamente familiar evoca logo uma gama de perguntas enlouquecidas ligadas à economia doméstica: o que eu precisarei comprar para sustentar um filho? E se forem dois? Quanto irá custar? O dinheiro vai dar? Não seria mais viável eu desistir da idéia de ser pai ou mãe e trocar de carro?

De onde vem essa paranóia? Por que agimos assim?  Eis aqui o meu palpite: agimos assim em virtude de nossa mentalidade consumista. Estamos tão expostos a cultura do hiperconsumo que passamos a enxergar todas as esferas de nossa vida desde essa perspectiva da aquisição permanente de bens diversos sem os quais a sobrevivência se torna inconcebível. Hoje mesmo tive um exemplo emblemático do modo como a mentalidade consumista opera. Saindo do banco, encontrei na rua uma amiga que está grávida, esperando seu segundo filhinho:

– E aí? Quanto tempo…

– Pois é, estou grávida de novo. Três meses.

– Puxa, que legal! Karine e eu também estamos esperando mais um filho. É nosso terceiro menino.

– Sério?! Que loucura!!! Vocês vão ter que se mudar, né? Eu já estou procurando outro apartamento maior para mim.

Nos despedimos. Ela saiu para um lado e eu, perplexo, saí para o outro. Comprar um apartamento maior??? O que será que leva alguém a pensar que o nascimento de um bebê que mede cerca de 50 cm e pesa por volta de 4kg requer a compra de um apartamento maior? Minha esposa está prestes a dar à luz um bebê humano e não um filhote de dinossauro! Bebês são seres tão pequeninos que cabem dentro da pia da cozinha. Qual a necessidade real de comprarmos um apartamento maior, com um quarto a mais em função da chegada de uma criaturinha tão minúscula?

Aqui reside o problema. Mergulhamos tão fundo nessa loucura consumista que, antes mesmo da criança nascer, já estamos gastando dinheiro comprando enxoval, decorando o quarto, mudando de carro e até de apartamento. De outro lado, quem se preocupa em ler um bom livro sobre criação de filhos? Quantos procuram uma terapia para se tratar a fim de serem melhores pais e mãe para o bebê que irá nascer? Quantos pensam como podem reduzir sua carga horária a fim de estarem com o filhinho que tanto precisará deles? Quantos oram por seus filhos enquanto estão sendo gestados?

Esse é o lado trágico de tudo isso. Confundimos preparação para a chegada do bebê com gastos absurdos e supérfluos. Todos bem o sabemos: criança não precisa de quarto exclusivo nem de enxoval importado. Não precisa de apartamento de luxo nem de minivan com DVD acoplado no teto. Criança precisa é de pai e mãe presentes. Ou, na ausência deles, de adultos saudáveis e interessados, que brinquem com elas, lhes deêm afeto, cuidado e orientação. Tudo mais será supérfluo se isso faltar .

O ponto dessa longa e apaixonada reflexão é o seguinte: filho não é caro. Caro é o preço que se paga para criar filhos segundo o projeto da mentalidade consumista. Caro é o pecado da hiper-sofisticação. Pois como gosta de dizer um amigo querido: “sofisticação é um caminho sem volta”. Uma vez que o escolhemos, é muito difícil voltar atrás. De outra parte, quando mais avançamos nesta estrada, mais sacrifícios nos são exigidos. Inclusive esse: abrir mão de uma das maiores alegrias da vida que é ter a casa cheia de rebentos.

Esse preço, embora não apareça nas planilhas de excel, é bem mais alto do que os gastos realmente indispensáveis para se criar um filho. Ou dois. Ou muitos.

Anúncios

O amor e a visão

Todo amor é amor à primeira vista
Todo amor é amor à primeira vista

 

“Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10:21)

 

Não sei quem foi que disse que o amor nasce no coração. Não é verdade. O amor nasce nos olhos. Ele é uma bem-aventurança da visão. Com efeito, só é amado quem é visto, percebido, notado. Por isso é sábia a expressão “amor à primeira vista”. Afinal, todo amor é à primeira vista. Ou não é amor. Começamos a amar as pessoas no instante mesmo que as enxergamos pela primeira vez. Amar pressupõe ver.

No Evangelho de Marcos há um relato interessante. Um homem rico chega diante de Jesus e lhe pergunta: “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. Segundo a narrativa bíblica, Jesus olha para ele e o ama.

É incrível quanta coisa está subentendida nesta pequena expressão. Esse homem diante de Jesus, por ser uma pessoa de posses, era certamente um rosto conhecido. As pessoas sabiam quem ele era. Decerto, podiam identificá-lo na rua. Mas ninguém jamais olhara para ele como Jesus. Enquanto todos o olhavam notando sua riqueza e abundância, Jesus foi capaz de perceber-lhe a carência: “falta-lhe uma coisa”. Diferente de todo mundo mais, Jesus olha para aquele homem e o vê, o percebe, o enxerga. Por isso o ama.

Jesus estava diante de um miserável. Ele bem o sabia. Aquele homem rico não passava de um desesperado que se valia da própria riqueza para sentir-se importante, amado e acolhido. Em função disso, tinha olhos apenas para dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais amor – pensava. Porém toda riqueza que possuía não foi capaz de ocultar nem suprir-lhe a carência. Jesus viu tudo isso. E mesmo assim o amou. Amou tanto que, desejando salvá-lo,  lhe propôs um desafio: “vende tudo o que tens e dá aos pobres […] depois vem e segue-me”.  

A narrativa prossegue e logo nos revela que ao escutar o desafio, aquele homem ficou triste e retirou-se da presença de Jesus. Ele não sabia como desprender-se daquilo que o aprisionava. Tornara-se um escravo da riqueza que possuía. Não via mais nada, nem ninguém. Estava cego. Foi incapaz de amar e confiar no convite daquele mais amor lhe dedicou.

Aqui reside o clímax da narrativa. De um lado, temos Jesus que vê aquele homem e o ama. De outro, temos aquele homem que não ama nada nem ninguém, que apenas exerga dinheiro e, por isso, é incapaz de ver Jesus. Esse é o outro lado da moeda na dialética entre o amor e a visão: não vemos a quem não amamos. Pois ver pressupõe amar.

Tivesse aquele homem amado Jesus, seus olhos seriam abertos. E, certamente, também os seus ouvidos. Ao invés de ter medo, teria dado ouvidos ao desafio que lhe fora proposto. Afinal, como nos ensina a Palavra noutro lugar, o amor não apenas abre a visão, mas também “lança fora o medo” (1Jo 4:18).

A síntese de tudo o que foi dito é o seguinte: a relação entre o amor e a visão é uma via de mão-dupla. Se de um lado amamos as pessoas porque as vemos, por outro, somente vemos as pessoas quando as amamos. Pois se o amor nasce nos olhos, a visão nasce no coração. Daí que onde não há amor, há cegueira. E onde há cegueira, não há amor.

Vale a pena viver e não voar?

 

 
O homem sempre invejou os pássaros e quis voar

 

“Quem me dera ter asas como a pomba; voaria, voaria…” (Salmo 55:6)

 

Não cheguei a conhecer o Brian. Apenas vi uma foto dele voando de parapente. A foto, estampada nas camisas de cerca de 40 pessoas, era uma forma de homenagear o jovem que morrera num acidente quando sobrevoava a praia de Piratininga. Um vento forte o fizera perder o controle e cair sobre os fios da rede elétrica. Morreu instantaneamente.

Naquela manhã de céu claro e poucas nuvens, sol forte e nenhum vento, estávamos reunidos num círculo solene no centro da rampa do Parque da Cidade a fim de nos despedir do rapaz. Eu estava lá como convidado. Fiz a reflexão que precedeu as homenagens e as palavras de despedida. Lembro-me de ter lido um versículo de Eclesiastes e logo ter colocado a pergunta: “Vale a pena viver e não voar?”.

Essa era, me pareceu, a síntese filosófica e o legado da vida – e morte – de Brian. Foi o que captei de tudo o que busquei ouvir sobre ele. Contaram-me que desde sempre ele quis voar. Mas devido a um pequeno defeito nas mãos, não poderia fazê-lo. Era arriscado demais – diziam-lhe. Seu pai, zeloso, batia na mesma tecla. Brian, porém, não se importava. Sabia que arriscado mesmo era não voar. Arriscado era viver sem jamais tirar os pés do chão. O verdadeiro perigo consistia em passar pela vida sem jamais alçar voô. Por isso Brian nunca deu ouvidos aos que tentavam demovê-lo de perseguir o que sentia como sua vocação.

Persistente, foi capaz de convencer um velho instrutor de voô a treiná-lo. Concordaram que precisaria de um dispositivo que lhe permitisse maior controle do parapente. Uma vez comprado o aparelho, aprendeu logo a manuseá-lo. O velho instrutor que lhe tomara sobre as asas era o melhor de todos. E ele, o mais disciplinado aprendiz. Como de praxe, voou primeiro acoplado ao corpo de seu mestre. Depois, passou a voar sozinho.

A morte de Brian foi um infortúnio. Aconteceu com ele como poderia ter acontecido com qualquer outro. O rapaz controlava com perícia seu planador e executava as manobras com  cautela e inteligência. Mas num sábado – numa daquelas tardes de céu avermelhado – um vento forte e súbito o arrastou para seu destino final; exatamente como seu pai temia.

Embora precoce e dramática, a morte de Brian teve algo de confortante: ele morreu fazendo o que mais amava. Morreu como desejava ter vivido. O garoto voador despediu-se da vida nos ares, olhando-a de cima. Seu corpo não foi sepultado. Não merecia. Não pertecia a terra. Por isso suas cinzas foram lançadas ao vento sobre as águas da Baía de Guanabara. Foi uma cena extraordinária: acoplado ao velho instrutor, o pai enlutado disse adeus ao filho num voô derradeiro. E o entregou a Deus.

Falei pouco naquela manhã. Não conhecia o Brian e nada entendo de parapentes. Nunca saltei ou voei num daqueles planadores coloridos. Mas confesso que naquele dia, após o que ouvi e vi, fui seduzido pela idéia. Entendi que precisava voar. Quem não precisa? Curiosamente, o perigoso esporte radical tornou-se para mim a mais bela metáfora para a aventura de viver. E então conclui: não; não vale a pena passar a vida preso ao chão. O suspiro do salmista por asas, tornou-se de repente, minha prece mais sincera, minha mais profunda oração.

 

O gosto amargo da derrota

A tristeza dos jogadores não foi pior que a do torcedor: foi a mesma.

 

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola” (Nelson Rodrigues)

 

Já se vão alguns dias desde a eliminação do Brasil na Copa, mas o gosto amargo da derrota contra a Holanda persiste ainda na boca. No esforço por trazer alívio e conforto aos nossos corações dilacerados, jornalistas e torcedores apelam para a racionalidade cínica: futebol é apenas um esporte.  E a Copa do Mundo não passa de um circo armado para ser lucrativo e alienante desviando nossa atenção de temas mais nobres, blá blá blá.

Perdoem-me o destempero, mas não consigo pensar assim. Futebol não é apenas um esporte. E Copa do Mundo está muito longe de ser apenas um circo espalhafatoso e inebriante que acontece a cada quatro anos. Muito pelo contrário. Para nós brasileiros, futebol é coisa séria. Tem a ver com a nossa identidade, com a nossa auto-estima, com quem somos enquanto povo e com nossa auto-compreensão enquanto nação.

Imagino que os mais politizados irão descordar, mas o futebol é disparado o principal elemento pelo qual somos conhecidos e reconhecidos mundo afora. A camisa amarela da seleção canarinho é mais popular que a bandeira nacional. Tudo bem que somos conhecidos também como a pátria do samba, do carnaval, da bossa-nova e do butt lift. Mas todos bem o sabemos: acima de tudo, somos o país do futebol.

A questão é simples de entender: nenhum outro país ganhou cinco vezes a competição esportiva mais badalada do planeta – 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Somos os únicos pentacampeões mudiais. Itália, Alemanha, França e Inglaterra são potências político-econômicas que, no mundo da bola, nos invejam e se esforçam por nos destronar. Se em outros do domínio da cultura e da sociedade esses países nos fazem sentir bárbaros e inferiores, aqui a direção do vetor se inverte e o complexo de inferioridade se manifesta de lá para cá: eles gostariam de ser como nós.

Isso o futebol tem de extraordinário: ele realiza simbolicamente nossas aspirações mais profundas. No campo de nossa psiquê, a seleção canarinho é o Brasil que deu certo. Apenas aqui, na geopolítica da bola, o Brasil cumpriu seu destino utópico encarnando e exibindo nos gramados do planeta toda a sua grandeza. O futuro chegou. E não foi graças a golpes militares e planos econômicos. Nossos heróis não são revolucionários nem aristocrátas. Não são intelectuais, políticos ou sacerdotes. São jogadores de futebol.

Leônidas, Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Amarildo, Gérson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Zico, Nelinho, Falcão, Sócrates, Careca, Bebeto, Romário, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho dentre tantos outros – eis os artesãos de nossa  maioridade internacional. A esses homens da bola devemos o resgate de nossa subjetividade antes marcada pela exploração e pela ignomínia.

É precisamente por isso que sofremos e choramos quando assistimos perplexos nosso escrete ser eliminado de uma Copa do Mundo. Quando a seleção canarinho é derrotada, perde o país inteiro. Sua derrota, é a nossa derrota. Sua vergonha, nossa vergonha. Para nós brasileiros, a seleção é muito mais do que um time: ela representa nossos defeitos e nossas virtudes. Quando ela lança a bola, mata no peito, dribla o adversário e faz gol, o fazemos 190 milhões de brasileiros. Tinha razão o grande Nelson Rodrigues: ela é a “pátria em chuteiras”, a metáfora mais elegante do povo brasileiro.

Daí que derrotas como esta contra Holanda amarguem tanto em nossa boca: tememos voltar a ser apenas o país do butt lift

A contagem do tempo

Como B. Button, todos nascemos idosos

 

“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos a sabedoria” (Sl 90:12)

 

Não sabemos contar o tempo. Em nossos calendários, cada dia que passa é contado como um dia a mais. O mesmo ocorre em relação aos meses do ano: vão crescendo sucessivamente de 1 a 12; como as horas de um relógio. Obedecendo esta mesma lógica, a cada aniversário que completamos, acrescentamos mais uma vela ao bolo e um ano à idade da gente.

Mas o tempo não funciona assim. Ele opera segundo uma outra lógica. Não ganhamos tempo a medida que ele passa. Não acumulamos dias e anos. Nós os perdemos. Cada dia a mais é, na verdade, um dia a menos. Não tenho os anos que minha idade sugere. Estes são os anos que já não tenho mais. Como bem disse Rubem Alves: são “fósforos riscados”. O tempo que realmente tenho, não é tão simples de contar. O dia de amanhã é apenas uma possibilidade.

A rigor, o tempo se conta de forma decrescente. A medida que ele passa, diminuem os anos que temos. Como Benjamim Button, todos nascemos idosos, cheios de anos. Ironicamente, no instante mesmo em que nascemos, começamos também a morrer. Pois, imediatamente, todo o tempo que temos – sem que saibamos quanto – passa a fugir de nós. Como nuvem em meio ao vendaval, ele vai se dissipando velozmente. Nas palavras do salmista: “a vida passa depressa e nós voamos” (Sl 90:10).

Nesta complexa equação da existência terrena, a grande incógnita é, sem dúvida, o dia de nossa morte. Contamos o tempo de forma equivocada porque desconhecemos o dia de nosso último suspiro. Se ao nascer, recebêssemos também uma certidão de óbito, tudo ficaria mais fácil. Poderíamos planejar com segurança nossa vida contando os anos de forma regressiva. Mas aí não teria graça. Viver seria como um assistir filme cujo final já conhecemos de antemão. A beleza da vida reside precisamente no fato de que ela é aberta, como um poema que vai sendo escrito a medida que surge a inspiração.

Mas acaba que tal abertura nos é conveniente. Como, no nível prático, rejeitamos a idéia de vamos morrer – haja vista nossa incontestável obsessão com a juventude – pensamos enganar a morte contando nossos anos para cima, de forma crescente. Preferimos pensar em termos de longevidade a pensar em termos de finitude. Mas afinal estes expedientes se revelam ineficazes. Pois não há mesmo para onde correr: todos caminhamos em direção ao fim inevitável. E insuspeito.

Talvez aí resida o segredo da sabedoria: viver com a consciência de que se está morrendo. Não é verdade que muitas pessoas passam a viver com intencionalidade apenas quando descobrem que estão prestes a morrer? Quantos não mudam completamente suas prioridades após o diagnóstico de um câncer? Ou após sobreviverem a um acidente, seja ele automobilístico ou cardiovascular? Tais experiências-limite nos recordam de nossa mortalidade. Elas berram aos nossos ouvidos: somos efêmeros! É precisamente esta consciência que nos permite “alcançar a sabedoria”. Pois já não há como viver de forma displicente quando se sabe que a morte se avizinha. Nascemos para vida quando nos conscientizamos de que vamos morrer. Daí que o salmista ore a Deus: “ensina-nos a contar os nossos dias”.

No espírito da oração acima, faço aqui uma sugestão: substituamos nossos modernos relógios pelas antigas ampulhetas. Pois elas, melhor que ninguém, compreendem a lógica segundo a qual o tempo trabalha. Enquanto nossos relógios nos empurram apressadamente para frente supondo que há sempre mais tempo para agendarmos ainda um outro compromisso, a ampulheta nos faz parar para pensar: quanto tempo ainda me resta? Ao invés de perguntar: “o que mais posso fazer?”, indaga: “do que preciso abrir mão para não negligenciar o que é essencial?”.

Em meio à correria desta nossa vida urbana e pós-moderna, a ampulheta nos ajuda a lidar com o tempo de maneira sábia, pois o conta de forma decrescente e poética, exatamente como a vida se desenrola diante de nós. Ainda mais: sempre que a viramos ao romper de cada novo dia somos recordados: todo o tempo que temos é o dia de hoje. O dia de ontem não nos pertence mais e o amanhã pode ou não existir. Vive com sabedoria quem vive um dia de cada vez.

Comunidade

 
Domingo é dia de festa na Betânia Litorânea: comunhão, adoração, Palavra e folia

 

“Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum” (Atos 2:44)

 

O livro dos Atos dos Apóstolos relata o nascimento e desenvolvimento inicial da igreja; o modo como, desde o princípio, os cristãos se organizaram em comunidades. Segundo se pode perceber pela leitura dos trechos de At 2:42-47 e 4:32-35, dois eram os pilares sobre os quais tal experiência suscitada e mantida pela ação do Espírito Santo se apoiava: uma profunda consciência de grupo e uma fé comum.

A narrativa bíblica exprime de modo quase poético a realidade desta consciência de grupo existente entre os primeiros cristãos ao dizer que “da multidão dos que creram era um o coração e alma”. Mais do que uma mera experiência de uniformidade, os primeiros grupos cristãos viveram a experiência da unidade. Eles eram muitos, eram certamente diferentes, mas estavam juntos, sabiam-se um. Seu sentido de comunidade era tão genuíno e maravilhoso que tinha expressão concreta no cuidado com os menos privilegiados. Com efeito, “nenhum necessitado havia entre eles”, pois tudo repartiam à medida que houvesse carência na comunidade.

O segredo que tornava possível esta unidade altruísta e comprometida decerto era a existência de uma fé comum nutrida e celebrada cotidianamente. Como o texto bíblico deixa claro, os primeiros grupos cristãos diariamente “perseveravam na doutrina dos apóstolos” e “nas orações” partindo o pão eucarístico de “casa em casa”. O que o autor de Atos chamou de doutrina dos apóstolos é o que hoje entendemos como o núcleo fundamental da fé cristã: a encarnação do Verbo divino no homem Jesus de Nazaré, o qual viveu sem pecado, morreu crucificado, ressuscitou ao terceiro dia, e foi elevado aos céus de onde virá novamente em glória. Na experiência diária e doméstica da eucaristia, a igreja nascente celebrava, aprofundava e desenvolvia o mistério de Deus em suas vidas o que lhes conferia poder para amar, aceitar e acolher o outro a despeito de tudo.

Graças a Deus, e ao crescente envolvimento de irmãos e irmãs nos cultos dominicais e células nos lares de nossa recém-formada igreja Betânia Litorânea, temos vivenciado de uma maneira nova e bela essa experiência de ser comunidade. Nestes tempos pós-modernos de hiperindividualismo e laços afetivos frouxos, temos redescoberto a alegria de conviver. E mais importante ainda: temos encontrado Deus em nossas vidas através das vidas de nossos irmãos. Pois na mediação do encontro com o outro, Deus se revela mais “vivo”, mais pessoal ainda e, portanto, mais próximo de cada um de nós. Quem tem caminhado com a gente, pode dar testemunho disto.

 

O caminho sobremodo excelente

O amor é mais excelente dos caminhos (1Co 13)

Diferente de nós ocidentais pós-modernos para quem o amor é percebido como um sentimento, uma emoção, um frio na barriga ou de alguns indivíduos ainda fortemente marcados pela austeridade moderna para quem o amor é uma decisão moral e um compromisso, para o apóstolo Paulo e mais amplamente para a tradição bíblica (Pv 30:18-19), o amor é um caminho.

O fato de ser caminho não significa que no amor não haja sentimento ou compromisso, mas significa que ele inclui estas realidades ao mesmo tempo em que as ultrapassa, engloba e transcende. Com efeito, nas Escrituras, a noção de caminho é metafóra para se falar da vida. A rigor, percorrer um caminho é o mesmo que viver a vida de uma certa maneira, segundo uma certa lógica e desde uma determinada perspectiva. Portanto, trilhar o caminho do amor é viver sob o princípio-amor, é viver na força e sob a dinâmica engendrada por esta realidade tão ordinária e tão sublime que é a substância mesma do próprio Deus em nossas vidas.

Ao escrever aos crentes da cidade de Corinto – tendo diante de si o momento agitado da comunidade que lidava com conflitos, divisões e partidarismos de toda sorte – Paulo oferece em sua primeira carta uma possibilidade de conserto e  solução. Tal, porém, não consistia em atalho simplista para fora do caos, em mero desvio de rota visando contornar os espinhos, mas em caminho na direção do encontro e da comunhão: a vivência concreta e cotidiana do amor. Como preferiu chamar o apóstolo: o caminho “sobremodo excelente” (1Co 12:31). Para Paulo estava claro: somente o amor podia tornar possível a vida comunitária; e, de modo mais particular, a vida-a-dois que não deixa de ser um microcosmos da vida em comunidade.

Para Paulo, então, o amor não é apenas um caminho, mas o caminho. Por quê exatamente? O que a experiência de trilhar o caminho do amor acrescenta e traz às nossas vidas de tão especial? O capítulo 13 da primeira carta aos coríntios é a resposta do apóstolo a esta questão.

1. Somente o amor confere sentido à vida. (vv.1-3)

Nenhuma realidade humana tem o poder de conferir sentido a vida: nem a acumulação de riquezas, nem a fruição dos prazeres, nem a construção de uma imagem pessoal de sucesso, nem a obtenção da admiração das outras pessoas, etc. Somente o amor pode fazê-lo. Nada que eu venha a fazer ou possuir terá proveito ou sentido se faltar o amor. Como disse o apóstolo Paulo, sem amor “nada serei”.

De outra parte, onde há amor, há sentido e proveito. Pois o amor reveste de sentido a vida e a morte. Mesmo a realidade absurda e inexplicável do sofrimento humano passa a ter sentido na presença do amor. Pois se é verdade, por um lado, que em si mesmo o sofrimento não tem sentido, é verdade também, por outro, que quando sofremos para que outros parem de sofrer, o sofrimento se torna plausível e, até certo ponto, justificável. Mais ainda: ele confere dignidade e revela-se recompensador. Por isto o martírio é algo tão trágico, mas tão belo. Jesus viveu, sofreu e morreu para que a humanidade não mais tivesse que sofrer e morrer eternamente. Sua vida, seu sofrimento e sua morte tiveram profundo sentido – e proveito.

Quando trilhamos o caminho do amor, aprendemos a viver para amenizar o sofrimento do outro. Isso, obviamente, não significa que recaía sobre nós a responsabilidade de fazer o outro feliz, pois não somos capazes de fazer ninguém feliz. Felicidade é uma conquista pessoal, interior. Contudo, podemos ao menos ajudar o outro a viver de forma mais leve e menos sofrida. Todos deveríamos nos casar pensando nisso: em aliaviar as dores e cargas – o jugo – daqueles a quem amamos. Deveríamos nos perguntar se estamos dispostos até mesmo a sofrer privações e renuncias para que o outro não precise sofrê-las. Obviamente, esta é uma via de mão-dupla, embora Paulo afirme que seja tarefa do marido amar a mulher com tal abnegação (Ef 5:25-27). Este é um objetivo realista e certamente gratificante.

2. O amor nos faz pessoas melhores (vv.4-7)

Ao trilharmos o caminho do amor, deparamo-nos com paisagens diversas, atravessamos estações distintas e enfrentamos tempos variados de fartura e de excassez, de festa e de luto, de contentamento e de frustração. Tais variações demandam de nós flexibilidade e resistência, pois representam desafios que nos puxam para além de nossos limites e exigem superação. Assim, trilhar o caminho do amor implica crescimento, aprendizado, maturação. Nas palavras do apóstolo paulo: é preciso “desistir das coisas de menino” (v.11).

Nos vv. 4-7, Paulo descreve o amor: é paciente, é benigno, não se ufana, não se ensoberbece… tudo sofre, tudo crê, tudo espera… Quem trilha o amor do amor, se expõe a influência destas virtudes e vai assimilando-as paulatinamente. Assim, quem amam vai se transformando em uma nova pessoa mais paciente, mais humilde, mais altruísta, mais bondosa, mais crente, mais cheia de esperança.

Vale notar que todas estas virtudes são virtudes relacionais, isto é, virtudes que orientam-se para a alteridade, para o outro. São virtudes que obedecem a lógica do “auto-esvaziamento” de Filipenses 2:5-9. Quem ama, se esvazia de si mesmo e faz a oração de João Batista tendo em mente a pessoa amada: “importa que ele cresça e eu diminua”. Quem trilha o caminho do amor se torna uma pessoa melhor pois deixa de ser egoísta tornando-se alguém que vive segundo a lógica divina da gratuidade: “minha alegria é ver o outro feliz”. Quem ama de verdade, se torna este tipo de pessoa.

3. O amor nos abre o mistério do inefável (v.8)

Tudo passa nesta vida, mas o amor prossegue na eternidade. É claro que o amor que lá viveremos será diferente deste que conhecemos aqui marcado por nossa ambigüidade. De toda sorte, quem ama, vive no presente – ainda que de forma precária e limitada – o mistério do amor infinito, transcendente e perfeito. Quem ama, vive neste mundo uma espécie de antecipação de nosso destino final com Deus quando ele será “tudo em todos” (1Co 15:28).

O amor humano é assim uma espécie de aperitivo do amor ágape-divino que é o amor como ele deve ser. A experiência do amor humano é, desta forma, um ensaio para a experiência do amor eterno, inefável. O amor do outro é metáfora do amor de Deus por nós. O fato de sermos amados aqui nos remete a experiência de sermos finalmente aceitos e acolhidos na eternidade por Deus, nosso Pai. Bem disse o apóstolo João: “quem ama conhece a Deus”. Com efeito, a experiência de amar uma outra pessoa reveste nossa vida do sublime, do maravilhoso, de tudo o que é mais belo. Aquele pelo que suspira nossa alma nos está acessível através da experiência do amor. Quem ama vive no presente algo da eternidade.

Finalmente, importa frizar, que trilhar o caminho do amor constitui experiência abençoadora, porém demandante. Não é simples esta estrada. Há altos e baixos, curvas sinuosas, cenários belíssimos e outros não tão belos assim. O fundamental, contudo, é seguir caminhando. Prosseguir apesar de adversidades e lutas. Um dia de cada vez. Um dia depois do outro. Todos os dias. Quem trilha o caminho do amor com perservarança, sem se dar conta, pisa a eternidade.

Páscoa: Deus passou por aqui…

Na cruz de Jesus, Deus passou pela morte

 A palavra “páscoa” traduz o hebraico “pessach” que, como é sabido por todos, significa “passagem”. Trata-se de uma referência à noite em que anjo de Deus passou pelo Egito libertando o povo de Israel de sob o domínio de Faraó que já durava 400 anos. Tal episódio encontra-se relatado em Êxodo 12 e é, sem sombra de dúvida, uma das memórias prediletas do povo judeu. Com efeito, desde aquela noite até o dia de hoje, uma vez por ano, inexoravelmente, Israel celebra esta data. É a festa da Páscoa.

Entretanto, a celebração anual desta festa não é privilégio dos judeus. Nós cristãos também a celebramos fielmente, se bem que desde um prisma diferente. Um prisma que, a rigor, não exclui nem invalida o prisma judaico, mas o transcende. Porque se para os judeus a páscoa é a festa da libertação nacional, para nós cristãos, ela é a festa da libertação universal e total; a comemoração por excelência do triunfo da vida sobre a morte e sobre todos os seus agentes em benefício de toda criação. Por essa razão, na páscoa, cantamos todos juntos: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15,55).

Este ponto é preciso estar claro: para nós cristãos, a páscoa é a festa da vida, de sua afirmação e vitória sobre a morte ainda que cruzes façam parte da história. Porque o que aqui celebramos não é outra realidade senão a da passagem triunfal (e misteriosa) de Deus pela morte suscitando vida desde suas entranhas. O que na fé afirmamos, na páscoa celebramos: Deus mesmo, em carne e osso, visitou a nossa história, experimentou as nossas dores, comeu pão e bebeu vinho, sentiu fome, sede, teve medo, riu e chorou. Nasceu criança pobre, vulnerável, entregando-se aos cuidados de José e Maria. Foi circuncidado ao oitavo dia, freqüentou o templo e as festas do povo. Uma vez crescido, tomou partido dos pecadores. Deu valor às crianças e às mulheres, curou os enfermos, libertou os endemoninhados, acolheu a gente marginalizada, questionou os costumes e as tradições religiosas, ensinou o amor e denunciou a injustiça. Viveu sem pecado. Foi morto de forma brutal em uma cruz hedionda. Mas ressuscitou ao terceiro dia. Nas palavras de Pedro: “andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38). Em Jesus de Nazaré, Deus mesmo passou entre nós ordenando vida e inaugurando a ressurreição de todas as coisas.

Na Páscoa, portanto, nós cristãos declaramos: o mundo já não terá um fim, mas um futuro – será transfigurado. Toda criação já está sendo redimida, ressuscitada. Por isso, na fé, já não falamos mais em termos de morte e vida, mas de vida e ressurreição. Porque a morte nada mais é do que o ponto de chegada de nossa vida natural ao passo que a ressurreição marca o seu início. Sim, começamos a viver quando ressuscitamos em vida por meio de Jesus Cristo. Dia após dia o nosso corpo vai morrendo, mas em Cristo, somos ressuscitados a cada novo dia, chamados a uma nova existência, a uma experiência de plenitude.

Embora muitas vezes o contexto concreto em que nos encontramos aponte noutra direção – seja a família em crise, a vida profissional ameaçada ou mesmo a conjuntura social caótica –, é necessário sempre de novo lembrar que a cruz não pode conter a ressurreição. Ao terceiro dia, ela acontecerá!!! Haverá dias de pranto, de luto, de sombras, mas o sol brilhará outra vez. Esta promessa foi selada com sangue. Assim, aguardamos o dia bendito em que Deus será “tudo em todos” (1Co 15,28). É isto, precisamente, que na páscoa celebramos: o princípio de nossa libertação total e a promessa de abundância de vida. Aleluia!

O pão-nosso de cada dia

 

O ser humano sente fome: de pão e de Deus

“Colhiam-no, pois, manhã após manhã” (Êx 16:21)

 

Segundo o relato do livro do Êxodo, durante os quarenta anos de peregrinação pelo deserto, o povo de Israel se alimentou de um pão especial, dado por Deus. Diariamente ele amanhecia sobre a superfície do deserto como se fosse uma geada sobre a terra (Êx 16:11-36). O escritor sagrado registra que este “pão de Deus” era branco como semente de coentro e seu sabor, como bolos de mel. A este pão, chamou Israel maná.

Enquanto provisão diária, o maná era dado por Deus sempre pela manhã, ao raiar de cada novo dia. À exceção do dia sexto (quando o maná era recolhido em dobro e uma parte era cozida para o sábado), cumpria aos filhos de Israel a tarefa de recolhê-lo de sobre a terra, segundo a porção de cada família, antes que o calor do sol o derretesse. Embora houvesse abundância, o consumo era regrado. As famílias deveriam buscar o quanto julgassem necessário para o farto sustento de cada dia, mas deveriam consumir tudo: quando guardado para o dia seguinte, o maná estragava. A idéia era não colher de menos de maneira que faltasse, mas também não colher demais, pois nada podia ser desperdiçado. O que porventura restava sobre a terra, derretia. O “pão de Deus” não precisava ser comido todo de uma vez, mas precisava ser comido todo dia. Assim, renovava o Senhor dia após dia a sua bênção sobre o Seu povo.

Da mesma forma como no Antigo Testamento Israel fora instruído por Deus acerca do maná, também Jesus ensina os seus discípulos no Novo Testamento a orarem pelo “pão de cada dia” dizendo: “dá-nos hoje” (Mt 6:11). Na seqüência de seu ensinamento, complementa: “não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? (…) pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas” (Mt 6:31-32).

Com estas palavras, Jesus queria ensinar que o Deus que alimentou o povo de Israel durante os anos de peregrinação pelo deserto é o mesmo Deus que sempre sustentou sua igreja. Da mesma forma que havia maná para os israelitas, houve para os primeiros discípulos e há para nós hoje. A tarefa que nos cabe é a de buscá-lo diariamente: com o suor do nosso rosto e em oração. Pois o maná é também metáfora de Cristo, o “pão vivo descido do céu” (Jo  6:51) que sustenta nossa alma e sacia nossa fome de sentido e eternidade.

Aqui acontece algo interessante. Nos dias do apóstolo Paulo havia aqueles que se empenhavam de tal maneira por buscar o maná espiritual em oração enquanto aguardavam a parusia – segunda vinda de nossa Senhor – que já não se ocupavam de suar o rosto para obter o pão de cada dia. A este respeito, Paulo escreve aos Tessalonicenses orientando que todos devem “trabalhar com as próprias mãos” a fim de não passarem necessidade. E acrescenta: “quem não trabalhar, não coma”. Por outro lado, em nossos dias, existem aqueles que se gastam tanto no esforço cotidiano para conseguir o pão físico que não resta tempo ou força ou mesmo ânimo para buscar o pão espiritual em oração. Estes parecem esquecer que “nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4:4) e por isto, muitas vezes, vivem fartos fisicamente, mas espiritualmente famintos.

Ambas as posturas são equivocadas. O ideal ensinado por Jesus é que busquemos a cada dia tanto o “pão que perece” quanto o “pão vivo” que farta a alma e dá vida eternamente.

Um detalhe final: o pão que Jesus nos ensina a pedir é sempre “pão nosso”. Também com o maná era assim: o pão caía do céu para todos. Daí a fome magoar tanto o coração de Deus. Mágoa maior do que a fome, só mesmo o desperdício. Jesus nos ensina que o pão deve sempre ser multiplicado; tanto o espiritual quanto o de massa de farinha. Se é pão, é para ser repartido, comido junto, compartilhado. Quem reparte o pão com quem não o tem, torna-se companheiro de Jesus e ovelha bendita no reino de seu Pai (Mt 25:34-40).

Deus e o terremoto no Haiti

 

Onde estava Deus na tragédia do Haiti?

“Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonastes? (Mc 15:34) 

 

Os números são assustadores. As imagens, chocantes. Diante do caos absoluto instaurado no Haiti, encontramo-nos perplexos. Alguns chegam até a titubear na fé: por que um Deus bom e todo-poderoso permite que algo assim aconteça?

A conclusão apressada – e, no fundo, simplista – a que muitos chegam é resultante do seguinte raciocínio: se Deus é bom, mas não evita a trágedia e o sofrimento humano, só pode ser porque não tem poder para fazê-lo. Logo, ele é impotente. Outros, seguindo a mesma lógica, concluirão que Deus não é bom, pois se ele é todo-poderoso para evitar a tragédia e o sofrimento, mas não o faz, é porque, na realidade, é indiferente a tudo que nos sucede.

A despeito de tragédias e da presença do sem-sentido no mundo, da realidade do sofrimento lancinante e do desespero da morte, a revelação bíblica nos assegura: Deus é sim BOM e TODO-PODEROSO. Ora, diante de tal afirmação, a questão passa então a ser: como articular a realidade do sofrimento humano com a bondade e o poder soberano de Deus?

A ídeia aqui não é responder esta questão milenar. Tampouco tentar, de alguma forma, esgotar o assunto. A intenção, na verdade, é bem mais modesta: trata-se tão-somente de tecer algumas considerações que nos sirvam de marcos de referência fundamentais para pensarmos a questão na perspectiva de quem crê (e deseja seguir crendo). São 3, portanto, as considerações que quero fazer:

 1.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que existe uma resposta para o problema do sofrimento ainda que nós não a conheçamos.

O fato de não possuirmos uma resposta definitiva para o questão do sofrimento não significa que tal resposta não exista. Deus é diferente de nós. Ele é, como se diz no jargão teológico, o Totalmente Outro. Nós, de outra parte, somos seres ambíguos e limitados. Sabemos que existem coisas que nos escapam, nos transcendem, que estão além de nossa compreensão. Deus, porém, conhece o que desconhecemos e vê o que não vemos. Não temos uma resposta para o dilema do sofrimento humano, mas cremos que Deus a tem. Portanto, dizer que Deus não é bom, nem todo-poderoso apenas porque não temos uma resposta satisfatória para a questão em jogo aqui é como concluir que o ar não existe apenas porque não o podemos ver. Como pessoas de fé, assumimos nossa limitação: não sabemos. Contudo, cremos que Deus sabe. E assim aguardamos com esperança o dia em tudo nos será revelado. Afinal, a fé é a certeza de que existe uma resposta sobretudo onde não existe uma resposta aparente. 

2.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que ele não é o causador destes males que nos sucedem e fazem sofrer.

No Novo Testamento, o Deus revelado em Jesus Cristo nem de longe é um Deus iracundo, punitivo, sádico, que ordena sobre nós o mal e é indiferente ao nosso sofrimento. Muito pelo contrário. Ele é um Deus que se faz um de nós, que se coloca ao nosso lado, sofre nossas dores, conhece nossa limitação, chora diante do nosso luto. É um Deus que experimenta o medo, a angústia, a perplexidade. Ele é Emanuel, Deus conosco, Deus como a gente. Como podemos constatar pelo texto de Mc 15:34, o sofrimento da cruz escandaliza o próprio Cristo. Mesmo assim, ele exclama: “Meu Deus, Meu Deus”. Jesus sabia que apesar de tudo, Deus era com ele e por ele. Sabia que Deus não poderia ser o seu algoz posto que era Abbá, paizinho de amor perfeito e infinito. Da mesma forma, Abbá não poderia estar na origem do que aconteceu no Haiti. Daí que se alguém nos perguntasse: “onde estava Deus na tragédia do Haiti?”, responderíamos sem hesitar: ele estava ao lado daqueles que ficaram orfãos, daqueles que perderam seus filhos, daqueles que viram seus queridos morrerem soterrados. Ele estava entre os escrombros chorando a dor dos enlutados, consolando os desesperados, e levando nos braços, de volta para casa celestial, seus filhos e filhas amados cujas vidas foram ceifadas. Deus não é o causador de todo este sofrimento, mas ele é vítima como qualquer um de nós. E isto não porque seja um Deus impotente, mas porque é um Deus solidário.

3.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso e nós somos sua imagem e semelhança, temos de crer também que é possível conferirmos um sentido à realidade absurda do sofrimento.

Embora a primeira vista o sofrimento seja uma realidade sem-sentido, é possível atribuir-lhe um sentido na medida em que sofremos para erradicar o sofrimento dos outros ou minimizá-lo de alguma forma. Sempre que alguém sofre para que outra pessoa deixe de sofrer ou sofra menos um pouco, o sofrimento passa a ter um sentido. Pois este é o sentido do sofrimento vicário de Cristo. Ele sofreu na cruz para que nós tivéssemos uma esperança, um futuro, uma liberdade verdadeira, a vida abundante e a eternidade. Quando sofro para que alguém deixe de sofrer, me torno participante dos sofrimentos de Cristo o que confere não apenas sentido ao meu sofrimento, mas virtude, beleza e transcendência. Isto, obviamente, nada tem a ver com o fato de algumas pessoas – e mesmo nações inteiras – sofrerem sob a exploração capitalista para que outros enriqueçam e vivam nababescamente. O ponto aqui é precisamente a antítese deste quadro. Trata-se do sofrimento daqueles que lutam por um mundo mais justo, mais fraterno, mais aberto ao mistério do divino e mais cheio de compaixão pelo próximo. É na busca desta nova humanidade transfigurada e liberta do egoísmo, da injustiça, da exploração, e do pecado que o sofrimento ganha sentido.

Em suma. Não temos uma resposta crente plenamente satisfatória para a questão da coexistência do sofrimento humano com a realidade de Deus. Mas, na fé, confiamos que tal resposta existe. E reafirmamos com convicção a bondade e onipotência de nosso Senhor. Com base nisto, também afirmamos que Deus não pode estar na origem de calamidades como esta que assola o Haiti, mas está, na verdade, do outro lado, do nosso lado, do lado daqueles que sofrem e choram tal desgraça. Finalmente, sublinhamos que a realidade absurda do sofrimento pode sim ser revestida de um sentido quando nos tornamos participantes dos sofrimentos de Cristo, isto é, quando sofremos para que outros deixem de sofrer. Que esta verdade esteja clara para todos nós: o brado de Jesus na cruz – “por que me abandonastes?” – é mesmo grito de milhares de crucificados mundo afora que aguardam que alguém sofra com eles o preço de sua libertação.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.