Retrato de um mundo que deu errado

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Aylan Kurdis, 3 anos.

Não há cura para a sua chaga; a sua ferida é mortal […] quem não sofreu por sua crueldade sem limites? (Naum 3:19)

Quem não viu, não se emocionou e se perturbou com a chocante imagem do corpo inanimado do pequenino Aylan? A fotografia que dominou as redes sociais e comoveu o mundo é o retrato emblemático e implacável do fracasso de nosso projeto de civilização. Aylan Kurdis, de apenas 3 anos, morreu afogado com sua mãe Rehab e seu irmãozinho Galip, de 5 anos, quando tentavam fazer de barco a travessia que os levaria para longe do horror instalado em sua terra natal.

A história é muito triste. A família de Aylan fugira da Síria com a intenção de chegar ao Canadá. Partiram movidos pela expectativa de um milagre, pois o governo canadense lhes negara o pedido de asilo político. Eis o plano: de Kobane, no coração do conflito que assola a Síria, para a Turquia de onde cruzariam de barco para a Grécia visando, quem sabe, voar para a cidade de Vancouver onde há mais de 20 anos residem parentes que os ajudariam com a papelada junto à imigração. Mas o plano foi abortado pela tragédia. Aylan naufragou com a pequena embarcação sendo devolvido sem vida à terra pelas águas agitadas do mar que se negou a tragá-lo. Da família, somente o pai Abdullah Kurdis sobreviveu. Ainda outras 6 pessoas morreram no naufrágio.

O mais alarmante é descobrir que a tragédia da família Kurdis não constitui um fato isolado. Desde a Primavera Árabe em 2011, mais de 10 milhões de sírios já foram cadastrados como refugiados políticos e seguem deixando o país em busca de alternativas para sobreviver. O número de vítimas fatais é desconhecido. A história se repete também no Iraque e no Sudão e em outras partes da África gerando um fluxo migratório sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Paralelamente, por motivos sobretudo econômicos, incontáveis contingentes humanos partem de seus países de origem ao sul da linha do Equador e à leste de Greenwich em direção à Europa e à América do Norte num deslocamento silencioso e contínuo que ocorre há mais de 100 anos e torna-se mais vigoroso a cada dia.

A grande questão frequentemente negligenciada e da qual não podemos mais fugir é a seguinte: o que faz com que tantas pessoas em todo o mundo se vejam forçadas a deixarem para trás suas casas, suas famílias e os seus relacionamentos de toda uma vida rumo a uma terra cujo idioma não é o seu, a cultura e culinária não são a sua e o povo não é aquele ao qual pertencem? Mais ainda: o que faz com que toda essa movimentação humana não apenas seja necessária, mas seja necessariamente vivida de forma clandestina e marginal na maioria das vezes?

O que há de errado com o mundo? O que há de errado com esse mundo que nós construímos com base no capital, no mercado, na competição, no consumo, na acumulação e no privilégio? Essa era, no fundo, a incômoda interpelação que o profeta Naum dirigira ao povo de Israel aproximadamente 650 anos antes de Cristo: Cavaleiros atacando, espadas reluzentes e lanças cintilantes! Muitos mortos, montanhas de cadáveres, corpos sem conta, gente tropeçando por cima deles! Tudo por causa do desejo desenfreado […] Não há cura para a sua chaga; a sua ferida é mortal […] quem não sofreu por sua crueldade sem limites?” (Naum 3:3,4,19).

O profeta se refere à Nínive, mas sua profecia se destina e aplica a todas as cidades-nações de sua época, Israel inclusive. Nínive, capital do império Assírio, era para o mundo dos dias do profeta Naum o que Nova York, Londres, Paris, Berlim, Amsterdã, Roma, Toronto, Madri, entre outras, são para o mundo de hoje: o epicentro político e econômico, o ícone máximo do desenvolvimento e do poderio militar, o empreendimento humano que supostamente deu certo; numa palavra: o primeiro mundo. Todos conheciam sua riqueza, seu poder e a força de seu exército. Nínive era invejada. Quem não desejava sua glória? Ao mesmo tempo, era temida. Quem não estremecia pela ameaça que representava? Não foi sem razão que o profeta Jonas negou-se num a evangelizá-la. O esplendor de Nínive custava caro para os povos que pagavam a fatura.

Eis a missão do profeta Naum: dizer a Israel e a quem mais tivesse ouvidos para ouvia sua mensagem que Nínive não servia como ideal e modelo de civilização. O jeito assírio tão admirado e invejado de estabelecer-se no mundo e impor sobre ele sua liderança era insustentável e estava prestes a ruir – o que de fato ocorreu mais ou menos 100 anos depois com a emergência da Babilônia. Deus mesmo deflagraria esse processo, adverte o profeta! Deus mesmo estaria por trás do fim desta história de crueldade e horror disfarçada de sucesso e bem-estar: “Eu estou contra você […] vou levantar o seu vestido até a altura do seu rosto. Mostrarei às nações a sua nudez e aos reinos, as suas vergonhas” (Naum 3:5).

Por que Deus faria isso? Por duas razões: acabar com o cinismo e a maldade daquele sistema e assim quebrar seu feitiço e sua sedução sobre as nações; e desmascarar a hipocrisia de Israel que apontava o dedo para Nínive, mas a invejava, que se queixava de suas perversidades, mas as reproduzia domesticamente – pois o que se dava em Nínive em escala mundial, acontecia também em Israel em escala local!!!

Alguém perguntaria: por que Deus permitiu que as chocantes imagens da tragédia de Aylan invadissem as telas de nossos computadores, tablets, celulares e televisores, ocupando as manchetes de jornais e revistas e não nos permitindo evitá-la? O profeta Naum responderia: para acabar com o cinismo e a hipocrisia; o cinismo de nossa civilização que se vangloria de ter criado um mundo sensacional e maravilhoso – o que é uma deslavada mentira – e a hipocrisia de nossa sociedade brasileira que finge que nada disso acontece aqui em nosso país.

Ora, quem defenderá que o histórico deslocamento de pessoas de todas as partes do país para as grandes cidades da região sudeste brasileira não obedece à mesma lógica dos fluxos migratórios que há décadas se destinam à Europa e aos EUA? Quem negará que a favelização das cidades brasileiras constitui fenômeno análogo ao histórico empobrecimento e abandono do continente africano por parte dos países desenvolvidos? Subjaz a tudo isso, uma mesma realidade: a concentração de renda e oportunidades nas mãos de uma minoria que detém o controle dos meios de produção e o acesso aos bens de consumo ficando todos os demais à margem do sistema e do sonho capitalista de felicidade. O que acontece aqui em escala nacional, reproduz o que acontece lá fora em escala global.

É tão grave e desanimadora a situação no Brasil hoje que mesmo quem não tem necessidade do ponto-de-vista econômico está deixando o país ou cogitando fazê-lo. Mas a profecia de Naum está aí para nos dizer que essa é uma solução ilusória. Fugir não vai funcionar. O problema que existe aqui é o mesmo que existe lá. Mudam a proporção e os contornos, é verdade. Mas, em essência, é o mesmo problema. O mundo globalizado é regido por uma única lógica. Como sentencia o apóstolo João em sua primeira carta: “o mundo todo jaz no maligno” (1João 5:19).

A profecia de Naum está aí, no entanto, para nos lembrar que a Assíria ruiu. E ruirá novamente. Pois um tal modelo de civilização é insustentável. O mundo que nós construímos e estamos tentando salvar, também está condenado. Ele já deu errado, fracassou, e agora afundando como a embarcação em que viajava a família Kurdis. Talvez tenha sido para nos mostrar isso, para nos fazer enxergar o destino trágico daqueles que neste mundo estão excluídos dos meios de produção e do acesso aos bens de consumo, para nos fazer ouvir perplexos o grito inaudível desses milhões e milhões em todo o planeta que são tratados como descartáveis, como o resto incômodo de uma equação civilizatória que não fecha nem se resolve, que Deus permitiu isso.

Cabe lembrar que esse nosso mundo que assiste indiferente a tragédia de tantos e tantos Aylans é também o mundo que segue tentando empurrar Deus para fora do barco de nossa sociedade e cultura, buscando exilá-lo de sua própria criação. Esse mesmo mundo clivado ao meio pelo desigualdade de condições e oportunidades, que produz e consome irresponsavelmente e depois compartilha no facebook as manchetes de jornais e revistas perguntam cinicamente “Onde está Deus em meio a tudo isso?”.

A imagem do pequeno Aylan morto à beira-mar é o retrato de nossas vergonhas expostas, a fotografia do que está oculto sob nossos discursos, um oráculo profético endereçado contra nosso o estilo de vida e o mundo que criamos. Ela denuncia a falência de nosso projeto civilizatório e a monstruosidade do que nos tornamos. Ao mesmo tempo, nos chama à responsabilidade e à mudança. Cumpre-nos assumir a derrota e recomeçar desde outras premissas. Substituir os pilares dessa civilização moribunda por outros novos e mais promissores como os valores do Reino de Deus compartilhados todas as religiões: humildade, solidariedade, serviço, perdão, cooperação, compaixão, generosidade, contentamento, misericórdia, altruísmo, abnegação, amor. Em duas palavras: arrependimento e conversão. Eis o caminho diante de nós.

Que Deus nos guie e guarde na travessia.