Noutra direção

Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos: se vocês se amarem uns aos outros” (João 13:35

Nunca foi intenção da Reforma fundar uma outra igreja ou nova religião. O movimento propunha-se antes a renovar o cristianismo ocidental por meio de um retorno à Palavra de Deus como fonte fundamental e critério definitivo a partir do qual todos os aspectos da fé e da vida cristãs deveriam ser julgados.

Desde essa perspectiva, os reformadores não hesitaram em romper com certos conceitos e práticas da igreja romana tendo o cuidado, entretanto, de manter e preservar todo um patrimônio espiritual, doutrinário, ético e litúrgico milenar constitutivo do próprio cristianismo.

Acontece que tais esforços revelaram-se insuficientes. Os cortes e as revisões reivindicados pelos reformadores foram percebidos pela igreja romana como inaceitáveis. De outra parte, a radicalização crescente do movimento que se alastrava e ganhava novas expressões e agendas levou à interrupção do diálogo e ao confronto aberto. O resultado foi o rompimento definitivo. A Igreja de Cristo já dividida entre Ocidente e Oriente, agora se fragmentava ainda mais.

O fator determinante na fixação da identidade dos novos grupos resultantes do cisma foi o quão profundamente cada um entendeu que seria necessário fazer o corte nas mais diversas questões. Assim, calvinistas, luteranos, anglicanos e anabatistas divergiram não apenas do catolicismo, mas também entre si.

Em virtude da obsessiva preocupação que nutriu pela busca da verdade – busca essa conduzida sob a luz da Sagrada Escritura diversamente lida e interpretada por cada grupo particular – tal fragmentação interna do movimento era inevitável. Uma lógica exclusivista orientou e perpassou todo o processo: “se é desse jeito, então não pode ser de nenhum outro”. Ora, a perpetuação dessa lógica implicaria em sucessivas e intermináveis divisões como de fato veio a ocorrer na história do cristianismo.

Seria possível superar esse quadro? Como? A Conferência Mundial de “Fé e Constituição” ocorrida em Lund, na Suécia, em 1925, apontou um caminho que parece promissor: o de uma convergência que se oriente não no sentido de uns para os outros, mas “de todos na direção de Cristo, no qual está a verdade e a unidade”. Não se trata, portanto, de pedir às diversas igrejas que busquem em seus corpos doutrinários e tradições particulares pontos de convergência e uma base comum. Pois à toda e qualquer experiência cristã no Ocidente subjaz uma base única que consiste de 1500 anos de história e teologia. Ora, se todo esse capital compartilhado não significou até hoje uma base comum ampla e sólida o bastante para inspirar e alicerçar uma convergência de todas as partes entre si, é porque nos encontramos diante da clara necessidade de um outro tipo de esforço.

Após cinco séculos de infindáveis rupturas e subdivisões, não teria chegado o momento de tentarmos algo realmente novo? Algo que não violente às identidades das diferentes tradições cristãs há séculos consolidadas? Será, portanto, que ao invés de partirmos do que temos não deveríamos partir então do que não temos? Será que em lugar de seguirmos buscando saber quem está com a razão, não seria este o momento de nos abrirmos para o fato de que estamos todos parcialmente errados? Será que não deveríamos nos render a realidade de que Deus é mistério inabarcável além de toda compreensão? E se em lugar do sempre insuficiente catafatismo protestante (via afirmativa) nós incorporássemos a nossa teologia o espírito da tradição apofática (via negativa)? Será que ao invés de negarmos a validade da experiência das outras igrejas não seria o caso de as afirmarmos ao lado da nossa? Será que da conjugação de nossas parciais e precárias compreensões particulares de Deus não emergiria uma visão mais abrangente e um pouco mais próxima de como Deus realmente é? Não seria este então o tempo de substituirmos a fracassada lógica exclusivista por uma outra lógica inclusiva e ecumênica?

Uma igreja dividida não pode dar testemunho de um Cristo inteiro. Tampouco tem condições de anunciar a pessoas e nações o Evangelho da reconciliação, do perdão infinito, do amor incondicional de Deus. A Igreja de Jesus Cristo – Católica e Protestante (e também Pentecostal) – encontra-se assim diante da obrigação moral de lutar pelo emergir de um outro momento na história do cristianismo, um novo kairós divino que terá na abertura ao Espírito, na tolerância e na comensalidade seus pilares fundamentais e em Cristo seu horizonte.

Urge, enfim, que as denominações e tradições cristãs diversas ouçam o convite da Conferência de Lund e dêem as mãos umas às outras para juntas seguirem na direção do único noivo e cabeça do Igreja, aquele que um dia finalmente será “tudo em todos” (1Co 15:28).