Epitáfio

Como você gostaria de ser lembrado?

 

Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira. (Rubem Alves)

 

Não estou pensando em morrer. Não mesmo. Mas tenho pensado acerca da morte. Tenho refletido sobre meu último suspiro; aquele depois do qual fecharei os olhos para abrir do outro lado e, finalmente, poder enxergar. Ver como sou visto. 

Há uma imensa sabedoria na morte. E aprender sobre ela revela-se inspiração para a vida. Devíamos planejar a nossa tragetória neste mundo de trás para a frente. Primeiro o fim, então o começo. Pois é a visão de como desejamos ser lembrados que melhor nos orienta sobre as escolhas que temos de fazer. Afinal, o fim que antevemos para nossa breve existência lança luz sobre as opções que temos diante de nós e nos indicam, desse modo, uma direção a seguir. De outra parte, também evita o trauma de ao final de tudo, constatarmos desiludidos: “Que vida foi essa que vivi? Se pudesse, faria tudo diferente!”.

Quando chegar para mim o dia derradeiro, não quero pronunciar essas palavras. Quero antes, como Cristo na cruz do Calvário, dizer: “Está feito”. E render meu espírito a Deus com gratidão e dignidade. Apenas isso. Pois há muito desisitir de pensar que nasci para ser alguém extraordinário. Sou uma pessoa comum e anônima e estou em paz com isso. Se deixar uma pequena marca naqueles com quem convivi mais de perto, já basta. Não tenho a pretensão de escrever meu nome na posteridade. Estou safisteito em tê-lo no livro da vida. É assim gostaria de ser lembrado: como alguém que foi fiel a si mesmo, ao que acreditava, a quem amou e a Deus.

Provavelmente não me ocuparia de tais pensamentos se não tivesse lido com toda igreja o livro “Um mês para viver”. Lemos a obra enquanto jejuávamos e oravámos buscando discernir os caminhos de Deus para nossas vidas pessoais e comunitária. O fizemos na convicção de que tal reflexão nos levaria há uma profunda reorientação de vida e correção de rumo enquanto ainda há tempo. Nesse intuito, ao final dos 30 dias de leitura, fizemos um exercício poderoso: convidamos a todos que escrevessem o próprio epitáfio. No domingo seguinte, aqueles que desejaram, leram o seu breve texto para toda a igreja enquanto celebrávamos a Santa Ceia. Compartilho aqui o que escrevi e li, comovido,  para meus irmãos e irmãs na esperança de viver à altura de cada palavra:

Aqui jaz Leandro Marques.

Esposo amado e amável. Pai sábio e presente. Amigo verdadeiro. Servo fiel. Um homem bom.

Esforçou-se por viver a vida de acordo com o que entendeu do Evangelho, com o que acreditou ser verdadeiro e importante. Deu boas risadas e tentou não acreditar em tudo que diziam a seu respeito, fosse isso bom ou ruim. Buscou em tudo ser uma pessoa inteira. E transparente, na medida do possível. Amou a vida, o semelhante, e a Deus. Gastou-se pela causa do reino de Abbá. Fez o bem. Viveu e morreu como discípulo de Jesus Cristo.

Agora descansa em paz. E deixa saudades…

 

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O nascimento da alegria

 
 
Igor

 

“Ele será motivo de prazer e de alegria para você, e muitos se alegrarão por causa do nascimento dele” (Lc 1:14)

 

Não achei graça nenhuma quando 9 meses atrás Karine me contou meio entre os dentes que talvez estivesse grávida de novo; vale dizer: pela terceira vez. Nem foi tanto pela questão financeira, pois não considero realmente que dinheiro seja o fator determinante quando o assunto é planejamento familiar. No meu entender, ninguém jamais deveria condicionar o sonho da família a dinheiro, mas sim rever a forma como pensa, ganha e administra o dinheiro a fim de construir sua família.

Mesmo assim, conquanto no íntimo desejasse mais um rebento correndo pela casa, quase morri do coração com a notícia da possível gravidez, pois temia aquela ciranda incontrolável de noites em claro, fraldas sujas, esposa cheirando a leite e visitas freqüentes ao pediatra como é próprio do ritual de chegada de uma nova criança no pedaço.

Sinceramente, para mim, essa era a questão: o medo da mudança de ritmo que o nascimento de um filho impõe sobre a dinâmica cotidiana e familiar. Afinal, ter um bebêzinho em casa implica, dentre outras coisas, abandonar qualquer pretensão de se manter uma rotina ordenada onde as atividades obedecem uma lógica simples do tipo fazer-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia e dormir durante a noite para, em lugar disso, abraçar um outro tipo de lógica: não dormir de noite, nem fazer-direito-o-que-se-tem-de-fazer durante o dia.

Foi temendo essa aceleração de minha já frenética rotina que havia decidido fazer uma vasectomia. Só que não deu tempo: Karine já estava mesmo grávida… graças a Deus! Pois ainda no quarto do hospital, ao pegar Igor nos braços pela primeira vez, experimentei pela terceira vez na vida a alegreia indizível de ter um bebezinho para amar e cuidar. É claro que esse gozo extraordinário não elimina o trabalho brutal que vem com ele e lhe é proporcional. Mas, o faz valer a pena. Com efeito, não há nada a que se possa comparar a alegria de carregar junto ao peito um pequenino que chega na vida da gente como um presente-surpresa de Deus.

Hoje, pouco mais de duas semanas após o nascimento de Igor, não consigo nem imaginar mais a vida sem sua meiga e frágil presença. Não sei se saberia dormir novamente sem o calor de seu pequenino corpo amarrado sobre o meu pelo edredon. Não sei como seria levar os meninos para o futebol sem antes nos despedirmos dele beijando-lhe a cabecinha. Não sei como seria não ter sua cadeirinha espremida entre as outras no banco de trás do carro. Enfim, Igor é metáfora e concretização do milagre do amor que lança fora o medo e enche nossa vida de regozijo e alvissareira alegria.