O gosto amargo da derrota

A tristeza dos jogadores não foi pior que a do torcedor: foi a mesma.

 

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola” (Nelson Rodrigues)

 

Já se vão alguns dias desde a eliminação do Brasil na Copa, mas o gosto amargo da derrota contra a Holanda persiste ainda na boca. No esforço por trazer alívio e conforto aos nossos corações dilacerados, jornalistas e torcedores apelam para a racionalidade cínica: futebol é apenas um esporte.  E a Copa do Mundo não passa de um circo armado para ser lucrativo e alienante desviando nossa atenção de temas mais nobres, blá blá blá.

Perdoem-me o destempero, mas não consigo pensar assim. Futebol não é apenas um esporte. E Copa do Mundo está muito longe de ser apenas um circo espalhafatoso e inebriante que acontece a cada quatro anos. Muito pelo contrário. Para nós brasileiros, futebol é coisa séria. Tem a ver com a nossa identidade, com a nossa auto-estima, com quem somos enquanto povo e com nossa auto-compreensão enquanto nação.

Imagino que os mais politizados irão descordar, mas o futebol é disparado o principal elemento pelo qual somos conhecidos e reconhecidos mundo afora. A camisa amarela da seleção canarinho é mais popular que a bandeira nacional. Tudo bem que somos conhecidos também como a pátria do samba, do carnaval, da bossa-nova e do butt lift. Mas todos bem o sabemos: acima de tudo, somos o país do futebol.

A questão é simples de entender: nenhum outro país ganhou cinco vezes a competição esportiva mais badalada do planeta – 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Somos os únicos pentacampeões mudiais. Itália, Alemanha, França e Inglaterra são potências político-econômicas que, no mundo da bola, nos invejam e se esforçam por nos destronar. Se em outros do domínio da cultura e da sociedade esses países nos fazem sentir bárbaros e inferiores, aqui a direção do vetor se inverte e o complexo de inferioridade se manifesta de lá para cá: eles gostariam de ser como nós.

Isso o futebol tem de extraordinário: ele realiza simbolicamente nossas aspirações mais profundas. No campo de nossa psiquê, a seleção canarinho é o Brasil que deu certo. Apenas aqui, na geopolítica da bola, o Brasil cumpriu seu destino utópico encarnando e exibindo nos gramados do planeta toda a sua grandeza. O futuro chegou. E não foi graças a golpes militares e planos econômicos. Nossos heróis não são revolucionários nem aristocrátas. Não são intelectuais, políticos ou sacerdotes. São jogadores de futebol.

Leônidas, Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Amarildo, Gérson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Zico, Nelinho, Falcão, Sócrates, Careca, Bebeto, Romário, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho dentre tantos outros – eis os artesãos de nossa  maioridade internacional. A esses homens da bola devemos o resgate de nossa subjetividade antes marcada pela exploração e pela ignomínia.

É precisamente por isso que sofremos e choramos quando assistimos perplexos nosso escrete ser eliminado de uma Copa do Mundo. Quando a seleção canarinho é derrotada, perde o país inteiro. Sua derrota, é a nossa derrota. Sua vergonha, nossa vergonha. Para nós brasileiros, a seleção é muito mais do que um time: ela representa nossos defeitos e nossas virtudes. Quando ela lança a bola, mata no peito, dribla o adversário e faz gol, o fazemos 190 milhões de brasileiros. Tinha razão o grande Nelson Rodrigues: ela é a “pátria em chuteiras”, a metáfora mais elegante do povo brasileiro.

Daí que derrotas como esta contra Holanda amarguem tanto em nossa boca: tememos voltar a ser apenas o país do butt lift

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s