Competência e sabedoria

"O Pensador", de Rodin, na perspectiva da competência capitalista

 

“Como é feliz o homem que acha a sabedoria!” (Pv 3:13)

 

A sociedade contemporânea nos incentiva, em tudo, a buscar competência. Ainda crianças aprendemos na escola: é preciso estudar para passar de ano para mais tarde entrar em uma boa faculdade e sair de lá com um currículo de peso sem o qual não se consegue um bom emprego. E nem se ganha dinheiro.

Assim nos é explicado – e transmitido – o valor da educação e da aquisição de conhecimentos. Tal, no entanto, simultaneamente oculta e releva um grave problema: aprendemos a buscar instrução pelos motivos errados. Passamos anos na escola, aprendemos e estudamos conteúdos diversos visando, em última instância, ganhar dinheiro. Competência, segundo a lógica capitalista, é isso: um currículo impressionante que te prove merecedor de uma boa remuneração.

Porém esta é uma visão demasiadamente estreita da instrumentalidade do conhecimento, da formação intelectual e, mais amplamente, da razão de ser da própria vida. Pois reduz o ser humano à esfera da atividade produtiva negando-lhe sua complexidade e riqueza. O resultado dessa lógica é bem conhecido: nossa sociedade forma excelentes profissionais, porém, pessoas medíocres; gente capaz de administrar corporações gigantescas, mas incapaz de gerir com êxito a própria família. São detentores de grande técnica e eficácia, merecedores de polpudos salários por seu conhecimento e expertise, mas não têm muitas vezes o que dizer o assunto migra para o âmbito da vida privada. Quantos hoje em dia não triunfam profissionalmente ao passo que suas vidas pessoais naufragam de forma vergonhosa e inelutável?

Contrariando a lógica cultural dominante, e vacinando-nos contra o quadro descrito acima, as Escrituras Sagradas nos aconselham a buscar sabedoria antes de competência:  “Procure obter sabedoria” (Pv 4:7).  Pois ela é como “árvore que dá vida a quem a abraça” (Pv 3:18). A sabedoria “é mais proveitosa do que a prata e rende mais do que o ouro […] nada do que você possa desejar se compara a ela. Na mão direita, a sabedoria lhe garante vida longa; na mão esquerda, riquezas e honra. Os caminhos da sabedoria são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são de paz” (Pv 3:14-17).

As citações falam por si mesmas. A sabedoria é a mais elevada de todas as empresas humanas. Ela não exclui a competência, mas a complementa e potencializa. Quem torna-se sábio, tende também a tornar-se melhor profissional. Pois ao adquirir sabedoria, discerne o valor da competência e compreende o lugar de sua carreira no conjunto da vida. Ao invés de tornar-se uma pessoa unidimensional obssecada com o sonho do contra-cheque de cinco dígitos (ao preço de todo o resto), o sábio caminha na direção de tornar-se uma pessoa melhor, plena, integrando as múltiplas dimensões de sua vida e pessoa sem prejuízo de nenhuma delas.

Mas onde podemos encontrar a sabedoria se esta não é ensinada nas escolas nem tampouco nos manuais corporativos? 

Segundo o testemunho das Escrituras Sagradas, “o Senhor é quem dá sabedoria” (Pv 2:6). Ele a dá “livremente e de boa-vontade” a quem dela tem falta e a solicita (Tg 1:5). A sabedoria habita o relacionamento com Deus e a partir dele se irradia. Ela advém da comunhão com o Pai e do hábito de refletir e meditar em sua palavra. Não pode ser comprada por dinheiro. Não pode ser aprendida em cursos aqui ou no exterior. Ela é dom. É graça que nos é dispensada no convívio afetuoso com aquele que é onisciente e fonte de todo conhecimento. A sabedoria é o reflexo da luz divina que se projeta sobre nós quando nos voltamos para contemplar seu rosto amável e cheio de ternura.

A diferença fundamental entre a competência e a sabedoria é que a primeira se restringe ao mundo do trabalho enquanto a última se aplica à totalidade da vida e da pessoa. A sabedoria é fruto do relacionamento com Deus e por isso abarca e abençoa o conjunto de nossa trajetória neste mundo. A competência tem vida breve e se limita aos anos produtivos depois dos quais é inútil. Quem busca sabedoria, encontra todo o resto ao passo que quem busca competência, acha dinheiro – e dinheiro apenas. Depois, o vazio.

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Filho custa caro?

 

O preço de não ter filhos é maior do que os gastos com eles

  

“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá” (Sl 127:3)

 

Dizem por aí que filho custa caro. Não é verdade. Estou esperando o terceiro e posso dizê-lo com conhecimento de causa.

Começa que filho não custa nada para fazer. Depois, até dez ou doze meses, a criança se alimenta basicamente de leite materno e raios solares (fundamentais para ativação da vitamina D sem a qual não há absorção do cálcio reponsável pelo desenvolvimento dos ossos). Durante esse período, a única despesa regular que se tem com o pimpolho são as fraldas descartáveis; afinal, um mínimo de conforto e praticidade é necessário.

É isso. Mais tarde, os gastos se concentram em educação e saúde. Obviamente, tais gastos poderiam ser evitados se vivêssemos num país sério onde as escolas e os hospitais públicos não ofendem à dignidade humana. O mais, é comida. Neste quesito, porém, os recursos se multiplicam: onde comem dois, comem três e onde comem três, comem quatro. Até porque  arroz, feijão, frango e uns tomates não custam tanto dinheiro assim. E se os pais forem mesmo engajados ao ponto de abrirem mão de pegar um cineminha no Plaza para, de vez em quando, assistirem o filme no Shopping São Gonçalo, sobra até uma grana para incrementar a dieta da turma com yogurt, sucrilhos, geléia de mocotó e skiny.

Curiosamente, no entanto, quando falamos em criação de filhos, a primeira coisa que vem a mente das pessoas são planilhas e planilhas de excel, múltiplos extratos bancários e uma enormidade de cobranças de cartão de crédito que retratam uma realidade desesperadora de gastos que beiram o infinito. De modo semelhante, a expressão planejamente familiar evoca logo uma gama de perguntas enlouquecidas ligadas à economia doméstica: o que eu precisarei comprar para sustentar um filho? E se forem dois? Quanto irá custar? O dinheiro vai dar? Não seria mais viável eu desistir da idéia de ser pai ou mãe e trocar de carro?

De onde vem essa paranóia? Por que agimos assim?  Eis aqui o meu palpite: agimos assim em virtude de nossa mentalidade consumista. Estamos tão expostos a cultura do hiperconsumo que passamos a enxergar todas as esferas de nossa vida desde essa perspectiva da aquisição permanente de bens diversos sem os quais a sobrevivência se torna inconcebível. Hoje mesmo tive um exemplo emblemático do modo como a mentalidade consumista opera. Saindo do banco, encontrei na rua uma amiga que está grávida, esperando seu segundo filhinho:

– E aí? Quanto tempo…

– Pois é, estou grávida de novo. Três meses.

– Puxa, que legal! Karine e eu também estamos esperando mais um filho. É nosso terceiro menino.

– Sério?! Que loucura!!! Vocês vão ter que se mudar, né? Eu já estou procurando outro apartamento maior para mim.

Nos despedimos. Ela saiu para um lado e eu, perplexo, saí para o outro. Comprar um apartamento maior??? O que será que leva alguém a pensar que o nascimento de um bebê que mede cerca de 50 cm e pesa por volta de 4kg requer a compra de um apartamento maior? Minha esposa está prestes a dar à luz um bebê humano e não um filhote de dinossauro! Bebês são seres tão pequeninos que cabem dentro da pia da cozinha. Qual a necessidade real de comprarmos um apartamento maior, com um quarto a mais em função da chegada de uma criaturinha tão minúscula?

Aqui reside o problema. Mergulhamos tão fundo nessa loucura consumista que, antes mesmo da criança nascer, já estamos gastando dinheiro comprando enxoval, decorando o quarto, mudando de carro e até de apartamento. De outro lado, quem se preocupa em ler um bom livro sobre criação de filhos? Quantos procuram uma terapia para se tratar a fim de serem melhores pais e mãe para o bebê que irá nascer? Quantos pensam como podem reduzir sua carga horária a fim de estarem com o filhinho que tanto precisará deles? Quantos oram por seus filhos enquanto estão sendo gestados?

Esse é o lado trágico de tudo isso. Confundimos preparação para a chegada do bebê com gastos absurdos e supérfluos. Todos bem o sabemos: criança não precisa de quarto exclusivo nem de enxoval importado. Não precisa de apartamento de luxo nem de minivan com DVD acoplado no teto. Criança precisa é de pai e mãe presentes. Ou, na ausência deles, de adultos saudáveis e interessados, que brinquem com elas, lhes deêm afeto, cuidado e orientação. Tudo mais será supérfluo se isso faltar .

O ponto dessa longa e apaixonada reflexão é o seguinte: filho não é caro. Caro é o preço que se paga para criar filhos segundo o projeto da mentalidade consumista. Caro é o pecado da hiper-sofisticação. Pois como gosta de dizer um amigo querido: “sofisticação é um caminho sem volta”. Uma vez que o escolhemos, é muito difícil voltar atrás. De outra parte, quando mais avançamos nesta estrada, mais sacrifícios nos são exigidos. Inclusive esse: abrir mão de uma das maiores alegrias da vida que é ter a casa cheia de rebentos.

Esse preço, embora não apareça nas planilhas de excel, é bem mais alto do que os gastos realmente indispensáveis para se criar um filho. Ou dois. Ou muitos.

O amor e a visão

Todo amor é amor à primeira vista
Todo amor é amor à primeira vista

 

“Jesus olhou para ele e o amou” (Mc 10:21)

 

Não sei quem foi que disse que o amor nasce no coração. Não é verdade. O amor nasce nos olhos. Ele é uma bem-aventurança da visão. Com efeito, só é amado quem é visto, percebido, notado. Por isso é sábia a expressão “amor à primeira vista”. Afinal, todo amor é à primeira vista. Ou não é amor. Começamos a amar as pessoas no instante mesmo que as enxergamos pela primeira vez. Amar pressupõe ver.

No Evangelho de Marcos há um relato interessante. Um homem rico chega diante de Jesus e lhe pergunta: “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. Segundo a narrativa bíblica, Jesus olha para ele e o ama.

É incrível quanta coisa está subentendida nesta pequena expressão. Esse homem diante de Jesus, por ser uma pessoa de posses, era certamente um rosto conhecido. As pessoas sabiam quem ele era. Decerto, podiam identificá-lo na rua. Mas ninguém jamais olhara para ele como Jesus. Enquanto todos o olhavam notando sua riqueza e abundância, Jesus foi capaz de perceber-lhe a carência: “falta-lhe uma coisa”. Diferente de todo mundo mais, Jesus olha para aquele homem e o vê, o percebe, o enxerga. Por isso o ama.

Jesus estava diante de um miserável. Ele bem o sabia. Aquele homem rico não passava de um desesperado que se valia da própria riqueza para sentir-se importante, amado e acolhido. Em função disso, tinha olhos apenas para dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais amor – pensava. Porém toda riqueza que possuía não foi capaz de ocultar nem suprir-lhe a carência. Jesus viu tudo isso. E mesmo assim o amou. Amou tanto que, desejando salvá-lo,  lhe propôs um desafio: “vende tudo o que tens e dá aos pobres […] depois vem e segue-me”.  

A narrativa prossegue e logo nos revela que ao escutar o desafio, aquele homem ficou triste e retirou-se da presença de Jesus. Ele não sabia como desprender-se daquilo que o aprisionava. Tornara-se um escravo da riqueza que possuía. Não via mais nada, nem ninguém. Estava cego. Foi incapaz de amar e confiar no convite daquele mais amor lhe dedicou.

Aqui reside o clímax da narrativa. De um lado, temos Jesus que vê aquele homem e o ama. De outro, temos aquele homem que não ama nada nem ninguém, que apenas exerga dinheiro e, por isso, é incapaz de ver Jesus. Esse é o outro lado da moeda na dialética entre o amor e a visão: não vemos a quem não amamos. Pois ver pressupõe amar.

Tivesse aquele homem amado Jesus, seus olhos seriam abertos. E, certamente, também os seus ouvidos. Ao invés de ter medo, teria dado ouvidos ao desafio que lhe fora proposto. Afinal, como nos ensina a Palavra noutro lugar, o amor não apenas abre a visão, mas também “lança fora o medo” (1Jo 4:18).

A síntese de tudo o que foi dito é o seguinte: a relação entre o amor e a visão é uma via de mão-dupla. Se de um lado amamos as pessoas porque as vemos, por outro, somente vemos as pessoas quando as amamos. Pois se o amor nasce nos olhos, a visão nasce no coração. Daí que onde não há amor, há cegueira. E onde há cegueira, não há amor.

Vale a pena viver e não voar?

 

 
O homem sempre invejou os pássaros e quis voar

 

“Quem me dera ter asas como a pomba; voaria, voaria…” (Salmo 55:6)

 

Não cheguei a conhecer o Brian. Apenas vi uma foto dele voando de parapente. A foto, estampada nas camisas de cerca de 40 pessoas, era uma forma de homenagear o jovem que morrera num acidente quando sobrevoava a praia de Piratininga. Um vento forte o fizera perder o controle e cair sobre os fios da rede elétrica. Morreu instantaneamente.

Naquela manhã de céu claro e poucas nuvens, sol forte e nenhum vento, estávamos reunidos num círculo solene no centro da rampa do Parque da Cidade a fim de nos despedir do rapaz. Eu estava lá como convidado. Fiz a reflexão que precedeu as homenagens e as palavras de despedida. Lembro-me de ter lido um versículo de Eclesiastes e logo ter colocado a pergunta: “Vale a pena viver e não voar?”.

Essa era, me pareceu, a síntese filosófica e o legado da vida – e morte – de Brian. Foi o que captei de tudo o que busquei ouvir sobre ele. Contaram-me que desde sempre ele quis voar. Mas devido a um pequeno defeito nas mãos, não poderia fazê-lo. Era arriscado demais – diziam-lhe. Seu pai, zeloso, batia na mesma tecla. Brian, porém, não se importava. Sabia que arriscado mesmo era não voar. Arriscado era viver sem jamais tirar os pés do chão. O verdadeiro perigo consistia em passar pela vida sem jamais alçar voô. Por isso Brian nunca deu ouvidos aos que tentavam demovê-lo de perseguir o que sentia como sua vocação.

Persistente, foi capaz de convencer um velho instrutor de voô a treiná-lo. Concordaram que precisaria de um dispositivo que lhe permitisse maior controle do parapente. Uma vez comprado o aparelho, aprendeu logo a manuseá-lo. O velho instrutor que lhe tomara sobre as asas era o melhor de todos. E ele, o mais disciplinado aprendiz. Como de praxe, voou primeiro acoplado ao corpo de seu mestre. Depois, passou a voar sozinho.

A morte de Brian foi um infortúnio. Aconteceu com ele como poderia ter acontecido com qualquer outro. O rapaz controlava com perícia seu planador e executava as manobras com  cautela e inteligência. Mas num sábado – numa daquelas tardes de céu avermelhado – um vento forte e súbito o arrastou para seu destino final; exatamente como seu pai temia.

Embora precoce e dramática, a morte de Brian teve algo de confortante: ele morreu fazendo o que mais amava. Morreu como desejava ter vivido. O garoto voador despediu-se da vida nos ares, olhando-a de cima. Seu corpo não foi sepultado. Não merecia. Não pertecia a terra. Por isso suas cinzas foram lançadas ao vento sobre as águas da Baía de Guanabara. Foi uma cena extraordinária: acoplado ao velho instrutor, o pai enlutado disse adeus ao filho num voô derradeiro. E o entregou a Deus.

Falei pouco naquela manhã. Não conhecia o Brian e nada entendo de parapentes. Nunca saltei ou voei num daqueles planadores coloridos. Mas confesso que naquele dia, após o que ouvi e vi, fui seduzido pela idéia. Entendi que precisava voar. Quem não precisa? Curiosamente, o perigoso esporte radical tornou-se para mim a mais bela metáfora para a aventura de viver. E então conclui: não; não vale a pena passar a vida preso ao chão. O suspiro do salmista por asas, tornou-se de repente, minha prece mais sincera, minha mais profunda oração.

 

O gosto amargo da derrota

A tristeza dos jogadores não foi pior que a do torcedor: foi a mesma.

 

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola” (Nelson Rodrigues)

 

Já se vão alguns dias desde a eliminação do Brasil na Copa, mas o gosto amargo da derrota contra a Holanda persiste ainda na boca. No esforço por trazer alívio e conforto aos nossos corações dilacerados, jornalistas e torcedores apelam para a racionalidade cínica: futebol é apenas um esporte.  E a Copa do Mundo não passa de um circo armado para ser lucrativo e alienante desviando nossa atenção de temas mais nobres, blá blá blá.

Perdoem-me o destempero, mas não consigo pensar assim. Futebol não é apenas um esporte. E Copa do Mundo está muito longe de ser apenas um circo espalhafatoso e inebriante que acontece a cada quatro anos. Muito pelo contrário. Para nós brasileiros, futebol é coisa séria. Tem a ver com a nossa identidade, com a nossa auto-estima, com quem somos enquanto povo e com nossa auto-compreensão enquanto nação.

Imagino que os mais politizados irão descordar, mas o futebol é disparado o principal elemento pelo qual somos conhecidos e reconhecidos mundo afora. A camisa amarela da seleção canarinho é mais popular que a bandeira nacional. Tudo bem que somos conhecidos também como a pátria do samba, do carnaval, da bossa-nova e do butt lift. Mas todos bem o sabemos: acima de tudo, somos o país do futebol.

A questão é simples de entender: nenhum outro país ganhou cinco vezes a competição esportiva mais badalada do planeta – 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Somos os únicos pentacampeões mudiais. Itália, Alemanha, França e Inglaterra são potências político-econômicas que, no mundo da bola, nos invejam e se esforçam por nos destronar. Se em outros do domínio da cultura e da sociedade esses países nos fazem sentir bárbaros e inferiores, aqui a direção do vetor se inverte e o complexo de inferioridade se manifesta de lá para cá: eles gostariam de ser como nós.

Isso o futebol tem de extraordinário: ele realiza simbolicamente nossas aspirações mais profundas. No campo de nossa psiquê, a seleção canarinho é o Brasil que deu certo. Apenas aqui, na geopolítica da bola, o Brasil cumpriu seu destino utópico encarnando e exibindo nos gramados do planeta toda a sua grandeza. O futuro chegou. E não foi graças a golpes militares e planos econômicos. Nossos heróis não são revolucionários nem aristocrátas. Não são intelectuais, políticos ou sacerdotes. São jogadores de futebol.

Leônidas, Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Amarildo, Gérson, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Zico, Nelinho, Falcão, Sócrates, Careca, Bebeto, Romário, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho dentre tantos outros – eis os artesãos de nossa  maioridade internacional. A esses homens da bola devemos o resgate de nossa subjetividade antes marcada pela exploração e pela ignomínia.

É precisamente por isso que sofremos e choramos quando assistimos perplexos nosso escrete ser eliminado de uma Copa do Mundo. Quando a seleção canarinho é derrotada, perde o país inteiro. Sua derrota, é a nossa derrota. Sua vergonha, nossa vergonha. Para nós brasileiros, a seleção é muito mais do que um time: ela representa nossos defeitos e nossas virtudes. Quando ela lança a bola, mata no peito, dribla o adversário e faz gol, o fazemos 190 milhões de brasileiros. Tinha razão o grande Nelson Rodrigues: ela é a “pátria em chuteiras”, a metáfora mais elegante do povo brasileiro.

Daí que derrotas como esta contra Holanda amarguem tanto em nossa boca: tememos voltar a ser apenas o país do butt lift