Miopia espiritual

Nossa visão é gravemente prejudicada por preconceitos
Nossa visão é prejudicada por nossos preconceitos

Gosto muito de ler crônicas. Dentre as minhas preferidas está “A velha contrabandista”, de Stanislaw Ponte Preta. É a história de uma senhorinha que diariamente cruzava a fronteira do país guiando uma lambreta. O detalhe curioso é que, na garupa da lambreta, ela carregava um enorme saco cheio de areia, que despertava a atenção e a desconfiança dos fiscais da alfândega. Por conta disto, diariamente a revistavam, esvaziando o saco à procura de alguma pista ou evidência de contrabando. No entanto, as operações fracassavam sucessivamente.

Um dia, consumido pela desconfiança e curiosidade, um fiscal daqueles que após 40 anos de serviço conhece o ofício como poucos, abordou a velhinha e, num tom quase de súplica, lhe propôs um acordo mais ou menos nestes termos: “Eu prometo deixar a senhora passar e mantenho segredo de tudo, se me confidenciar qual é o contrabando que todos os dias a senhora passa por aqui”. A velhinha, após se assegurar de que o fiscal manteria sua palavra, revelou-lhe o segredo: “É a lambreta”.

Gosto desta crônica porque ela denuncia de forma inteligente e bem-humorada um sério defeito que, sem nos darmos conta, possuímos: uma grave limitação visual. De fato, temos enorme dificuldade de enxergar para além da visão objetiva. Nosso olhar parece estar restrito ao padrão do aparente, condicionado a ver segundo o critério do explícito, (ao contrário do Pequeno Príncipe, que aprendeu que “o essencial é invisível aos olhos”). Via de regra, nossos olhos se deixam capturar pelo suspeito, pelos “sacos de areia”, e desconsideram totalmente as “lambretas”. Nossa enfermidade tem nome: miopia – “vista curta, estreiteza de visão, falta de perspicácia”.

No Evangelho segundo João, capítulo 4, há o registro de um encontro de Jesus com uma prostituta samaritana junto a um poço. Tal mulher era estigmatizada pela sociedade da qual fazia parte, era vítima de um olhar (e de um juízo) estereotipado acerca de sua pessoa e história. Este padrão de comportamento era tão entranhado na cultura, que a própria mulher se assustou ao se dar conta de que Jesus falava com ela (João 4:9); afinal, homens não conversavam em público com mulheres, muito menos estrangeiras, sobretudo, prostitutas.

Felizmente, Jesus não olha para as pessoas como nós o fazemos. Seu olhar é muito mais sensível e profundo, mais subjetivo, livre de toda espécie de condicionamentos e preconceitos. Enquanto as pessoas estabelecem seus juízos umas sobre as outras a partir do que vêem, Jesus concentra seu olhar naquilo que os olhos não podem contemplar. Seu foco é o coração, onde nascem todas as ações humanas. Ao contrário da mentalidade predominante, Jesus olhou para aquela mulher e viu nela alguém carente, que buscava nos homens com quem se relacionava uma forma de suprir uma demanda de afeto e provisão. Ao invés de vê-la como uma libertina, Jesus a viu como alguém dominada por uma sede tal que já não era capaz de discernir com clareza suas reais necessidades. Por este motivo, ele olha para ela e diz: “Se conheceras quem te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (João 4:10). Na visão de Jesus, o problema daquela mulher não era “falta de vergonha” ou de caráter, mas sede de sentir-se amada e acolhida, social e espiritualmente.

Fico pensando no modo como muitas vezes agimos. À maneira dos contemporâneos de Jesus, também nos deixamos conduzir pelos mesmos critérios e rejeitamos as pessoas antes mesmos de chegarmos a conhecê-las. Julgamos, tiramos conclusões apressadas, repudiamos e discriminamos quando poderíamos ser usados por Deus para oferecer água às pessoas se compreendêssemos a sede que as movem. Somos, porém, tão reféns do óbvio, do aparente, que negligenciamos o essencial. Mais ainda: temos tanta dificuldade de enxergar que negligenciamos nossa própria sede. Assim, temos água para beber e agimos como se não a tivéssemos ou como se não precisássemos dela, pois estamos todo tempo ocupados correndo atrás das mesmas coisas que condenamos na busca alheia. Tentamos saciar nossa sede de água viva consumindo produtos diversos, estilos de vida, relacionamentos, viagens, diplomas, etc. Nossa miopia é aguda, especialmente quando somos o objeto de nosso próprio olhar.

Que Deus nos ilumine os olhos e ensine a discernir entre lambretas e sacos de areia.

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7 comentários sobre “Miopia espiritual

  1. Pr. Leandro,

    A crônica é mesmo sensacional. Todos ficam com a visão tão fechada que não percebem mais nada.

    Sempre me dá vergonha quando percebo que não me esforcei o suficiente para ver além. Porque ver além é um exercício, temos que praticar e requer esforço, já que como você comentou, parece que nossa tendência primeiramente é olhar de forma mais “pontual”.

    Muito tocante…Jesus rompeu mesmo paradigmas quando a própria mulher, que sofria o preconceito e já estava resignada com isso, se assombou quano Jesus falou com ela.

  2. Lê, muito interessante esse texto! Vejo não apenas como uma necessidade de enxergarmos, mas de mudarmos paradigmas e nos desfazermos de pré-conceitos tantos…

    Obrigada pelos textos diários que me abrem não só os olhos, mas a alma e o coração! Que Deus continue e te usar assim!

    beijos!

  3. Le, ja’ li quase todos os textos e estou adorando. Como sempre, suas palavras me abencoam. Sua vida e’ muito preciosa. Sua voz, ide’ias, posturas refletem aquele que te vocacionou. Parabens!

  4. Que engraçado Leandro.
    Estava ontem pensando sobre isso enquanto ia pra casa.
    Talvez o meu raciocínio esteja equivocado em algum ponto, já que desconheço algumas questões bíblicas mais profundas.

    Bom, vou comparilhar na melhor das intenções…

    O que eu pensava é que nós mantemos nosso olhar julgador sobre o próximo, justamente por que enxergamos tudo e todos sob a perspectiva da lei. Enquanto Deus, em sua infinita sabedoria, nos vê sob a perspectiva da graça.
    E como se fosse uma espécie de filtro.

    Eu vejo alguém e penso: “ele é crente?” se a resposta for sim, eu penso: “Ele está em pecado?”. Isso por que se não for crente, já está ardendo no inferno a muito tempo.

    Paulo diz: “por meio da lei, morri para a lei”. (não lembro aonde!)

    Acho que devemos prestar sempre a atenção para não nos utilizarmos da Lei de Deus, (que é uma estrutura que conduz à liberdade e que deve se desfazer ao longo do tempo), de forma equivocada, como um instrumento de juízo definitivo. como um filtro para tudo.

    Devemos cumpri-la com o fim de nos libertarmos.

    Só então, já com uma compreensão mais plena da graça de Deus e livre da lei, conseguiremos ter um olhar menos míope sobre o próximo e entender que só o Senhor conhece as motivações do coração de cada um.
    E ele, ainda assim, na Sua infinita bondade, não escolhe não, e sim, cuidar.
    É muito amor mesmo.
    Amém! (eu acho!) hehe

    Não sou muito habilidoso com as palavras! mas acho que a idéia é essa.

    Parabéns pelo blog!!

    Abração!

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