Transparências do divino

Quem enxerga o humano, vê Deus. E vice-versa
Quem enxerga o humano, vê Deus. E vice-versa

Os gregos antigos concebiam o divino como a absoluta transcendência. Já os pagãos o compreendiam em termos de uma imanência radical – o divino era a própria criação, cada ser e cada coisa. Para a fé bíblica, no entanto, o divino – Deus – está para além de ambas as categorias. Ele não é nem transcendência apenas, nem imanência apenas. Deus é transparência. Nas Escrituras, Deus se manifesta simultaneamente na criação e através dela, sem, no entanto, se confundir com ela. Como disse Teilhard de Chardin: “Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão e Deus, mas Deus é Deus”.

A visão grega de Deus pressupunha que o mundo e a criação eram maus e imperfeitos. Deus, portanto, não poderia ser deste mundo nem se fazer conhecer nele de modo objetivo. O imperfeito não pode abrigar a perfeição, pensavam. O paganismo obedecia lógica inversa: Deus é tudo e tudo é Deus. Logo, todas as coisas são sagradas – daí que cultuassem o sol, a lua, os rios, os animais, etc. O perfeito é imperfeito. O criador e a criatura são uma e a mesma realidade.

Num certo sentido, pode-se dizer que a concepção bíblica de Deus é uma síntese das concepções grega e pagã. O Deus inefável, o Totalmente Outro, se oferece a nós na figura ordinária de um homem comum, em tudo igual a nós, exceto no pecado: Jesus de Nazaré. Nele o divino irrompe na história humana transfigurando-a desde suas entranhas. A perfeição fecunda a imperfeição abrindo-lhe assim possibilidades infinitas. Somente por isto é possível oferecermos um copo d’água a alguém que tem sede e deste modo agradarmos a Deus. De outra parte, já não mais faz sentido adorarmos a Deus se continuamos indiferentes às necessidades de nosso irmão. Nisto se resume a categoria bíblica da transparência: quem enxerga o semelhante, vê Deus. E vice-versa. Nada é, portanto, meramente o que aparenta ser.

O que foi dito acima pode ser expresso de outra maneira: por trás de cada crepúsculo, de cada alvorecer, de cada poema, de cada ritmo, de cada gesto de amor e cuidado, de cada sorriso infantil, de tudo aquilo que é belo e bom, está Deus. Pois ele é a fonte de toda bondade e toda virtude. Através destas coisas, O enxergamos e apenas quando olhamos através Dele é que realmente percebemos a beleza do mundo criado. O perfeito aprimora o imperfeito e o imperfeito aponta para a perfeição permitindo-nos experimentá-la indiretamente.

Enfim, como um vidro que nos permite ver o que está do outro lado, Deus não é, nem imanência, nem transcendência, mas transparência. Enxergamos Deus através do humano e compreendemos o humano quando olhamos para Deus. Nossa vida, portanto, não é algo sem-sentido, mas é sacramento do divino, uma métafora que nos ajuda a pensar sobre aquele que é cheio de compaixão e de ternura.

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2 comentários sobre “Transparências do divino

  1. Li esse texto no sábado e deixei em “stand-by” na minha cabeça no fim de semana. Porque não é um assunto muito “easy” – pelo menos pra mim. E hoje to aqui novamente, lendo e meditando.
    Penso que é mais fácil pras pessoas que ouvem a mensagem do evangelho rejeitar a idéia de imanência: adorar sol, luz, natureza, etc, parece coisa de índio.
    Por outro lado, se não tomarmos cuidado, podemos acabar comprando a idéia da transcendência dos gregos, perdendo esta síntese tão bacana das duas idéias – a Transparência.
    O que reforça essa humilde constatação é o fato de vivermos, num certo aspecto, sob a perspectiva do dualismo – também herança do pensamento e cultura gregos.
    To no caminho ou não entendi nada no que você escreveu?
    Outra dúvida: no terceiro parágrafo você pôs a frase “quem enxerga o semelhate, vê Deus” como transcendência. Isso não tá mais pra idéia de imanência?
    Ufa!!! 😮

    bj

  2. Lê,
    Gostei muito de sua reflexão, pois sua forma filosófica de falar do transcendente contribuiu, imensamente, ajudando as pessoas a enxergarem melhor o que para muitos é impossível de vislumbrar.

    Adriano.

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