Sobre Satanás

Versão Hollywoodiana do Diabo
Versão Hollywoodiana do Diabo

A figura bíblica do Diabo sempre esteve presente no universo da fé cristã. Receio, todavia, que nem mesmo durante os sombrios anos da Idade Média tenha-lhe sido dada tanta ênfase quanto atualmente. Disto ninguém duvide: Satanás é pop e está na boca do povo.

Por todo o Brasil multiplicam-se os “cultos do descarrego” e as “vigílias do desencapetamento” onde, dos púlpitos, berra-se o nome de Belzebu, anuncia-se os seus feitos, discute-se suas estratégias. Há mesmo quem afirme conhecer a hierarquia de seus demônios com suas respectivas áreas de atuação geográfica e setores de influência na sociedade. Existem, inclusive, aqueles que alegam já ter visitado o inferno e encontrado o Diabo em pessoa.

Algo paradoxal, porém, está acontecendo. Como bem notou o Bispo Robinson Cavalcanti, atualmente, Satanás, o pai da mentira, tem sido vergonhosamente caluniado no seio da igreja evangélica brasileira. Isso mesmo: na esteira de Adão e Eva, os cristãos hodiernos também lançam sobre a serpente a culpa de seus próprios pecados. Prova disto é o fato de boa parte das igrejas terem excluído de suas liturgias o momento da confissão. Afinal, ninguém mais faz nada de errado! Tudo, antes, é culpa do Diabo.

O irônico de toda esta falação contra Satanás é que ela não apenas o coloca em evidência, mas faz dele o “salvador” da condição humana. Explico-me. Dentro do esquema teológico da expiação, salvador é aquele que leva a culpa pelo pecado do outro. Daí que o Novo Testamento se aproprie da imagem do cordeiro pascal do AT como ícone de nossa salvação. Ora, desenvolvida a partir de um tal quadro interpretativo, a análise do atual cenário evangélico brasileiro guia-nos a paradoxal conclusão: no fim das contas, Satanás é quem nos salva, pois sobre ele recai o peso de nossos pecados. Ele é quem leva a nossa culpa. Conquanto no nível retórico a igreja continue proclamando que Jesus Cristo é o único salvador, no nível prático, ela afirma o inimaginável: somos salvos pelo Diabo.

É triste, mas é verdade. Em muitos dos arraiais evangélicos brasileiros, Satanás roubou a cena e tornou-se o centro do espetáculo. Jesus, por sua vez, foi reduzido à figura sorridente de um balconista bem treinado sempre pronto a nos atender às solicitações.

Com estas considerações não nos propomos a negar a existência do mau, do adversário de Deus e pai da mentira. Antes desejamos denunciar aqui mais um de seus ardilosos esquemas que visa confundir a igreja de Cristo. Ora, ao invés de caluniar o Diabo, nós – povo de Deus – deveríamos nos esforçar por remover a trave no olho que nos impede de enxergarmos os próprios pecados. Deveriamos também jejuar e orar e nos convertermos sempre de novo de nossos maus caminhos. Pois derrotar o Diabo é problema de Deus que, aliás, já esmagou, na cruz do Calvário, a cabeça da Serpente. Portanto, é outra a tarefa que nos cumpre, a saber: levar adiante a obra evangelizadora impulsionada pelo exercício cotidiano de nossa santificação.

Lutemos, então, por fazer morrer a cada dia o velho homem que habita em nós a fim de melhor podermos encarnar o Evangelho do Reino de Abbá e, no Espírito, dar testemunho do amor de Cristo, único e verdadeiro salvador da condição humana.

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3 comentários em “Sobre Satanás

  1. Cunhado, como é verdadeiro esse texto, INFELIZMENTE! Obrigada pela oportunidade de poder refletir nele logo pela manhã. Com carinho!

  2. “Lutemos, então, por fazer morrer a cada dia o velho homem que habita em nós a fim de melhor podermos encarnar o Evangelho do Reino de Abbá e, no Espírito, dar testemunho do amor de Cristo, único e verdadeiro salvador da condição humana.”

    Vou tentar lembrar disso todos os dias!!!!!!

  3. ô queridão…que surpresa boa ver esse seu blog…
    eu te ouço falando na igreja e vivo pensando…
    “..esse cara tem que comecar a escrever logo!”
    mto bom ler isso..
    Gloria a Deus pelo seu dom…
    forte abraço

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