Paternidade e sacerdócio

 

Com a paternidade vem o privilégio do pastoreio dos filhos.

Quando hoje penso sobre a minha infância, lembro-me do meu pai como a principal referência espiritual que tinha. A imagem dele ajoelhado à beira da cama orando no início do dia me acompanha até hoje. Lembro-me com carinho e saudade dos cultos domésticos que ele conduzia e dos dias de jejum. Lembro-me também (como esquecer?) do bordão que ele repetia incansável ao longo dos rebeldes e turbulentos anos de minha adolescência: “A Bíblia ensina que os pais devem inculcar nos filhos a Palavra de Deus (Dt 6,7). Inculcar. Sabe o que isto significa? Significa repetir até entrar na cabeça”. Posso ainda ouví-lo com clareza. Meu pai era – e continua sendo – um homem temente a Deus. De tudo que me deu na vida, nada foi ou será mais precioso do que este exemplo.

Alguém talvez pudesse alegar que estou escrevendo estas coisas apenas porque hoje celebramos o dia dos pais. Ora, num certo sentido, isto é verdade. Mas, no fundo, estou escrevendo estas linhas porque não posso evitar de fazê-lo. Não posso me eximir de falar sobre um exemplo que marcou tão decisivamente a minha vida quando a minha volta cresce o número de homens cujo compromisso espiritual com seus filhos se resume em levá-los à igreja. São homens crentes que por necessidade ou conveniência “tercerizaram” a formação espiritual de seu filhos delegando-a à igreja ou deixando-a inteiramente a cargo das mães.  

Há um relato belíssimo no livro de Jó que revela o compromisso que este homem possuia com a vida espiritual de seus filhos: “[…] chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles. Assim fazia Jó continuamente” (Jó 1,5). Como fica claro por esta passagem, na antigüidade, era dever do homem cuidar da vida espiritual de sua esposa e seus filhos ensinando-lhes as tradições familiares e a vida piedosa. O pai era assim a referência e a autoridade espiritual de toda a família. Ele era o sacerdote, o pastor de seus filhos e de toda sua casa. Portanto, esta compreensão atual da figura do pastor da igreja como o primeiro responsável pela formação espiritual das crianças e adolescentes da comunidade de fé é equivocada.

Não creio que estas noções sejam desconhecidas da maioria. Todavia, com freqüência, não as vemos em exercício nos lares cristãos por aí. É uma pena. Pois o exercício da paternidade constitui a principal oportunidade que Deus nos dá de nos transformarmos em pessoas melhores. Todos sabemos: educar consiste em encarnar o ensino que se busca transmitir a fim de que nossas palavras ganhem textura e longevidade nas vidas de nossos filhinhos. Como diz o famoso provérbio: “Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele”. Não se trata de mostrar o caminho, de indicá-lo, mas de trilhá-lo ao lado do seu filho. Ser a educação que se quer passar.

Aqui reside a oportunidade de transformação que a paternidade representa. Pois para ser exemplo para o meu filho, preciso primeiro mudar. E se a saúde espiritual do meu filho não for motivação suficiente para que eu busque em Deus esta transformação, o que será?

Que neste dia dos pais cada homem a quem foi dado o privilégio e a bênção da paternidade possa se voltar para o exemplo do meu pai – José Marques – e de tantos outros como ele para se inspirar e encontrar um norte para o qual possa seguir alegre e cheio de esperança.

Feliz Dia dos Pais.

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4 comentários sobre “Paternidade e sacerdócio

  1. Leandro querido,
    Me alegro com seu texto.
    Independente de conhecer sua familia, creio que nós na igreja não estamos dando devida atenção a este dia, como fazemos com o dia das mães (embora eu pessoalmente não me importe muito com nenhum dos dois).
    Penso até que há, às vezes, na igreja uma percepção um tanto erronea sobre as mulheres como super mães – me incomoda um pouco com o conhecido lema: “ninguém ora por um filho como uma mãe”.
    E a oração e o clamor do pai?
    Fica uma sensação amarga de que os pais tem um quê mais funcional, e o grande exemplo espiritual vem do nosso lado. Ledo engano!
    Em uma sociedade como a nossa em que tantas mulheres advogam o direito de ter filhos prescindindo da figura paterna, é preciso que a gente reflita sobre as nossas familias, sobre o que estamos fazendo e sobre que influencia estamos gerando no contexto em que vivemos.
    Como disse, me alegro com seu texto.
    Que ele sirva de estimulo para você desenvolver um ministério abençoador para que jovens pais (e mães) compreendam o que é verdadeiramente ser familia de Deus.

  2. Caro Leandro,é um grandioso prazer poder visitar o seu blog,quando quiser e precisar pode pedir que eu posso lhe enviar alguma poesia minha,algum texto o que puder fazer para difundir e propagar este trabalho belíssimo que você está realizando. Gostei do texto sobre Paternidade e Sacerdócio,e de fato passamos a nos importar com nosso “PAI”,quando descobrimos o peso de ser Pai,é um ministério Árduo,Difícil e Complicado para alguns,mas para aqueles que tiveram bons exemplos vindo dos Pais,com certeza é algo MARAVILHO,é um Dom que Deus nos concede e poder gerar filhos,filhas e ver nossas gerações se perpetuando ao longo de toda a história. É fabulos administrar tesouros o qual podemos denominar de “FILHOS”,pois até hoje e sempre seremos aos olhos de nosso Pai como criança,inocente,dependente e frágil sem nunca deixarmos de ocupar a prioridade em seus corações sem ser preocuparem conosco,os netos são e serão a confirmação de o que ele ensinou foi germinado,ainda que sejamos pais hoje seremos ETERNOS MENINOS com barba e cabelos talvez grisalhos ou até mesmo com poucos cabelos mas seremos sempre MENINOS AOS OLHOS DO PAI. ABRAÇOS ANDRÉ FREITAS.

  3. Estou viciada nos textos, Leandro! Virei leitora inveterada…Parabéns a você e a toda a sua admirável família, da qual sou fã incondicional!

  4. Leandro querido,

    Que benção tomar conhecimento do seu blog.
    Que palavra linda sobre paternidade e sacerdócio. Fiquei emocionada.
    Que o SENHOR derrame sobre você a cada dia uma unção nova de discernimento, sabedoria e conhecimento DELE, para que você conduza o povo de Deus nos Seus retos caminhos.

    Beijos, Lucia

    ps: a foto está linda.

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