“Tenho sede!”

Nossa felicidade está ligada a um nova vocação
Nossa felicidade está ligada a um nova vocação

O indivíduo contemporâneo encontra-se perplexo. O momento histórico em que se encontra, por tratar-se de um tempo de profundas, sucessivas e aceleradas transformações, o faz sentir-se assim. Com efeito, a passagem de um momento cultural para outro – sobretudo esta passagem de um modelo de sociedade moderna, rigidamente assentada sobre a razão e de contornos claramente definidos, para este outro modelo ainda em emergência, pós-moderno, de características fluídas e contornos incertos – produz em todos nós um certo mal-estar, um misto de insegurança e ansiedade com uma sensação de vertigem inebriante e permanente.

Neste turbilhão de sensações e incertezas, o indivíduo contemporâneo fica mesmo sem saber para onde ir – ou a quem recorrer. Por este motivo, à semelhança de Forrest Gump, corre de um lado para outro sem realmente estar indo para lugar nenhum. Às voltas com esta correria frenética, ele sente-se vazio, solitário, deprimido, e muito cansado.

A passagem do Evangelho de João 19:28-30, relata as dores e os sentimentos ambíguos dos últimos instantes de Jesus na cruz do Calvário. Ao contrário de nós, indivíduos pós-modernos atônitos e desnorteados, Jesus está ciente de seu destino e do porquê dele, mas, exatamente como a gente, ele se encontra cansado; e sedendo: “Tenho sede!” – exclama exausto (v.28).

Não nos deixemos enganar: a sede de Jesus na cruz é sede de água. Não se trata de uma figura de linguagem, mas de uma necessidade vital. É sede de quem por 3 anos andou de um lugar para o outro fazendo o bem, se entregando às pessoas, curando enfermos, multiplicando pães, transformando água em vinho, lidando com oposições e intrigas, discipulando os futuros apóstolos, pregando o Evangelho do Reino e convidando as pessoas à conversão. Mas se é certo, por um lado, que sua sede ali era sede de água para beber, de outra parte, é igualmente seguro que sua sede não se restringia a isto. Pois o Jesus que vemos na cruz é certamente alguém vulnerável. É alguém que após três anos de entrega altruísta e apaixonada pelos demais, se encontra agora sozinho, negado por Pedro, traído pelo beijo de Judas, rejeitado pela multidão, e abandonado por Deus: “Deus meu, por que me desamparaste?”. A sede de Jesus na cruz é sede também de sentir-se amado, acolhido…

Paradoxalmente, logo antes de expirar pela última vez, Jesus balbucia duas pequenas palavras que nos permitem pensar que, em meio a todo aquele horror, ele foi capaz de viver a experiência de uma certa realização, de uma quase felicidade: “Está consumado” (v.30). Somente alguém que tem consciência de ter feito a sua parte, de ter cumprido a tarefa que lhe havia sido designada, entrega o seu espírito e se rende, sem receio, aos braços da morte .

Estas palavras de Jesus e os sentimentos que elas carregam convidam-nos a pensar que talvez a nossa porção nesta vida seja também o ser fiel, mais do que o ser feliz – ao menos nos termos em que a felicidade é hoje entendida; esta felicidade que é alcançada pela via do consumo, do prazer ilimitado, do sucesso e da exaltação do próprio ego. Se Jesus ali naquela cruz experimentou algum instante de felicidade, esta foi a felicidade de ter sido fiel a Deus e não a ter ficado rico, de ter aproveitado a vida ao máximo, de ter alcançado o sucesso e a admiração das outras pessoas. Obviamente, isto não significa que Deus não queira a nossa felicidade, mas significa tão somente que a felicidade que ele tem para nós é de outro tipo.

Na seqüência da narrativa evangélica, Jesus morre, ressuscita, se encontra com os discípulos e vai atrás de Pedro que, diante da crucificação, tinha resolvido “retomar” a vida de onde ela havia parado – pois o sonho que nutria no coração não se concretizara: o reino de Deus não viera, Jesus não fora coroado, etc. Pedro, de certo modo, trazia no coração um ideal de felicidade diferente do que Deus tinha para ele. Mas quando, finalmente, Jesus o encontrou, tudo se esclareceu. Três vezes Jesus perguntou a Pedro ao redor de uma fogueira: “Tu me amas?”. Em vista da resposta afirmativa do discípulo, replicou: “Pastoreia então as minhas ovelhas”. Ora, quem como Pedro, diz sim a pergunta de Jesus recebe uma nova vocação: a de ser pastor. Este é o ideal de felicidade que Deus tinha para Pedro e tem para nós: que nos pastoreemos mutuamente, que aprendamos a cuidar uns dos outros. Se formos fieis nisto, saciaremos finalmente a nossa sede de felicidade e encontraremos sentido para as nossas vidas.

Resta, porém, uma pergunta: se a felicidade que Deus tem para nós é outra, como a gente se desprende deste ideal de felicidade narcisista dominante em nossos dias? Como saímos de sob o jugo de termos de “ser felizes” à maneira pós-moderna para abraçarmos o projeto de felicidade que Deus tem para cada um de nós? Bem, é provável que haja mais de um caminho a se trilhar para se alcançar este objetivo. Eu, porém, conheço apenas um. Nas palavras do próprio Cristo de Nazaré: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24).

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Vocação

Deus tem te chamado para quê? E para onde?
Deus tem te chamado para quê? E para onde?

Vocação é um chamado. Ou melhor, dois. Um que vem de dentro, que habita a nossa alma, e um outro que vem de fora e pertence ao domínio do mundo. Aquele primeiro é um chamado de amor, este último, de responsabilidade. Aquele, um chamado para ser. Este, para servir. Ambos nascem em Deus, mas concretizam-se no tempo e na História.

O simples recurso à etimologia da palavra nos ajuda muito: voc-ação. Do latim “voc-” (variação de “vox”, de onde vem “voz”) e “ação” (ato ou efeito de agir, movimento, atitude). Vocação, portanto, quer dizer: voz que chama, que interpela, que convida à ação. Daí que vocação seja sempre um “chamado a ser-para”, isto é, uma voz que articula em nível profundo identidade e missão, ser e realizar. Dois exemplos: o primeiro, em nível pessoal-profissional e o segundo, em nível eclesial-comunitário. Pois é certo que o conceito se aplica em ambos os domínios.

Pensemos na figura de um jovem que sonha tornar-se um advogado. Ele é alguém em cujo coração arde a chama da justiça. Sua bandeira é a da vida e da retidão. De Deus, recebeu o dom do discernimento. É alguém capaz de expressar-se com clareza, de argumentar e persuadir. Cursou até uma faculdade de Direito. Todo esse potencial, no entanto, não faz dele um advogado (procurador da causa do outro). Pois para vir a sê-lo, precisará dar um passo para fora de si e se colocar a serviço de seu semelhante no interesse da justiça. E assim, quanto mais o jovem for capaz de sair si em direção àqueles que necessitam ser defendidos e ter seu direito assegurado, tanto mais advogado ele será.

Em nível eclesial, devemos considerar que nossa vocação é ser Igreja de Jesus Cristo para o mundo de hoje. Isso significa que os dons e talentos, a paz e a alegria, a força e a unção que do Santo Espírito recebemos são necessariamente para serem usados no mundo e a serviço do mundo, hoje, para a glória de Deus. Pois assim como para ser advogado não basta possuir um diploma ou ter as habilidades que a função requer, para ser Igreja de Jesus Cristo, não basta possuir dons espirituais ou estar organizado em torno de uma fé comum. Para além disso (mas não sem isso), ser Igreja exige também contato com o mundo, conhecimento de seus suspiros e necessidades e, afinal, o estender voluntário de nossas mãos como serviço e culto ao próprio Cristo (Mt 25,31-46). E assim, quanto mais a igreja saí de si e se abre para o mundo com suas ambigüidades e contradições, tanto mais Igreja de Jesus Cristo ela é.

Ora, o que acima foi dito pode ser colocado num simples esquema: potencialidade + necessidade = vocação. Quer dizer: do encontro do chamado ao ser que vem de dentro – nossos dons e talentos inatos – com o chamado ao serviço que vem de fora – os desafios e as urgências do contexto em que estamos inseridos – é que emerge a nossa vocação (quer como indivíduo, quer como igreja). Tal encontro, porém, ocorre na medida em que nos abrimos à ação do Espírito Santo em nossas vidas. Ele, com efeito, é quem nos ensina a ouvir e a unir poderosamente essas duas vozes. Aqui parece oportuno lembrar a intuição do grande teólogo suíço Karl Barth que dizia que o mesmo Espírito que fala conosco por meio da leitura das Escrituras, fala conosco também por meio da leitura dos jornais.

Importa assinalar, à guisa de conclusão, que mais fundamental do que possuir uma vocação é deixar-se possuir por ela. Pois por aí passa o caminho de nossa felicidade e realização como Igreja de Jesus Cristo e como seres humanos no mundo.

O que é jejum?

Nos esvaziamos para nos enchermos de Deus
Jejuar é auto-esvaziar-se para ficar cheio de Deus

Jejum é disciplina. É uma forma de domínio próprio, de auto-controle, de temperança. Jejuar é vacinar-se ou medicar-se contra a gula. É domar espiritualmente os nossos apetites pecaminosos e caminhar na direção do contentamento e da generosidade.

Embora seja óbvia a identificação do jejum com a abstinência de comida, não é óbvia a realidade de que jejuar não tem a ver apenas com os nossos hábitos alimentares. Afinal, assim como a gula diz respeito a vida como um todo, também o jejum.

Teologicamente falando, a gula é aquela insatisfação crônica que nos faz querer sempre mais. Não importa do que se trate: comida, dinheiro, sexo, poder, sucesso, admiração, prazer, conhecimento, autonomia, notoriedade… O guloso é aquela pessoa insaciável, que não consegue dizer “não” a concupiscência dos olhos, e que por este motivo é refém do próprio desejo desenfreado.

O jejum, então, é um recurso espiritual através do qual lutamos contra a gula, mortificamos a nossa carne e dominamos o nosso desejo. Jejuar é pregar na cruz de Jesus os nossos apetites doentios oferecendo nossas vidas a Deus como oferta agradável. Jejuamos para nos esvaziarmos de nós mesmos e nos enchermos de Deus.

Em Mateus 6:16-18, vemos Jesus ensinando os seus discípulos sobre o jejum. Logo na seqüência (Mt 6:19-21), ele os orienta quanto ao alto risco de acumularem para si “tesouros na terra” (bens materiais e simbólicos) aconselhando-os a ajuntarem “tesouros nos céus” (bens espirituais).

Há quem diga que estas duas passagens não se relacionam, que a ligação entre elas é artificial. Eu discordo. Segundo entendo, elas estão intrinsecamente relacionadas. São parte de um todo monolítico e orgânico que não pode ser separado. Pois ao relacionar jejum com acumulação de bens materiais e simbólicos, Jesus revela o sentido básico e o dinamismo fundamental desta prática espiritual tão mal-compreendida entre nós: a abstinência (em oração) é o único antídoto eficaz contra a voracidade de nosso desejo. Com efeito, quanto mais jejuamos, mais nos damos conta do quanto estamos supridos (Dt 8:3), e assim aprendemos a nos contentar com o que possuímos e já alcançamos ao longo na vida. Por conseguinte, nosso desejo compulsivo é enfraquecido ficando cada vez mais fácil mantê-lo controlado de forma que não nos cause dano, mas seja saudável.

Porém este é apenas um lado da moeda do jejum. Pois jejuar é mais do que somente aplacar o nosso apetite de bens materiais e simbólicos. Jejuar é, ao mesmo tempo, agir pro-ativamente na acumulação de bens espirituais. Ora, acumulamos bens espirituais na medida em que, por amor a Deus e em oração, nos abstemos de acumular bens materiais e simbólicos para compartilhá-los com outras pessoas menos favorecidas. Este é o critério definitivo do jejum que agrada a Deus (Is 58:3-8). E é também o instrumento aferidor que nos possibilita saber onde está o nosso coração – se nos céus (nos valores do Reino de Deus) ou nas coisas desimportantes deste mundo.

Esta era a questão envolvendo o jejum praticado pelo povo de Israel nos dias do profeta Isaías. Embora tentassem dar a entender o contrário, na verdade, eles não jejuavam para dominar o gula e encontrar satisfação em Deus, mas o faziam buscando justamente o oposto: acumular “tesouros na terra” onde, de fato, se encontrava o coração deles. “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso? Por que afligimos a nossa alma, e tu não o levas em conta?” – perguntava o povo. “Eis que, no dia em que jejuais, cuidais dos vossos próprios interesses e exigis que se faça todo o vosso trabalho” – respondeu-lhes o Senhor (Is 58:3). Ao que ainda acrescentou:

Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante? (Is 58:6-7)

Diferentemente do que o povo de Israel acreditava, para Deus, o jejum não se restringia a uma experiência de renúncia e abstinência, mas, muito para além disto, constituia também uma experiência de generosidade e abertura para o outro. Pois quem aprende a dominar a gula e encontrar satisfação em Deus, passa a viver de forma simples e altruísta, uma vez que já não vive escravizado pela preocupação com o que haverá de comer, beber ou se vestir (Mt 6:30-33).

Dito de outra forma: o jejum que Deus esperava que seu povo praticasse não consistia em uma experiência ritual de sacrifício e auto-flagelação. De outra parte, também não se resumia em um esforço espiritual para aplacar a voracidade de nossa gula por bens materiais e simbólicos, mas requeria também um componente ético indispensável: a acumulação de bens espirituais através da generosidade para com o semelhante.

É possível concluir pelo exposto acima que o jejum é uma disciplina espiritual (abstinênia) que, aliada à oração, nos ajuda a subjugar o nosso desejo insaciável tornando-nos conscientes de nossa abundância e nos permitindo experimentar satisfação e contentamento em Deus. Através dele, Deus nos livra da frenética corrida da acumulação egoísta abrindo-nos para as necessidades de nossos semelhantes. Aqui já não importa o que falta ao outro: paz, comida, dinheiro, alegria, liberdade, afeto, salvação… Se eu tenho em abundância, posso repartir para que meu irmão tenha, ao menos, o mínimo necessário.

É este amor concreto enraizado em Deus que confere à abstinência de comida – ou de qualquer outra coisa – um sentido religioso. Se faltar este elemento, o jejum não será nada mais do que meramente uma experiência de privação.

Até quando, Senhor?

A esperança que se adia adoece o coração
A esperança que se adia adoece o coração

Oração é algo misterioso. Nasce no coração dos seres humanos e floresce diante de Deus. A um só tempo, conhece a alma das pessoas e a face do Senhor. Daí que implique reverência, nudez radical e silêncio. O espírito humano se exprime diante de Deus através da oração.

O Salmo 13 é uma oração belíssima que nasce da tensão entre os largos tempos de Deus e o imediatismo próprio dos seres humanos. Ele é o testemunho de uma alma que percorre na oração o caminho que vai do sofrimento gerado por circunstâncias desfavoráveis ao louvor suscitado pela certeza da bondade divina. Tal caminho é princípio de cura que restaura a alma adoecida pela esperança que tarda em se cumprir. Como veremos, ele consiste em três movimentos internos que aprendidos podem nos fazer mais resistentes no dia da angústia e, finalmente, restituir-nos a alegria.

O primeiro dos três movimentos deste caminho é aquele que vai do sofrimento à lamentação (v.1-2). O salmista não nega sua dor. Ele a admite; a sofre intensamente. Sua aflição é como a nossa: dói para valer. Ele se sente sufocado pelo inimigo que o persegue (v.4) e quatro vezes indaga ao céus: “até quando, Senhor?”. Sua demanda é urgente, mas Deus não tem pressa -parece brincar de esconde-esconde. Pior que a própria adversidade, é sentir-se esquecido por Deus – “Até quando ocultarás de mim o teu rosto?”. Tal conjuntura insustentável move o salmista a queixar-se em oração de forma ousada: “Esquecer-te-ás de mim para sempre?”. Ao invés de ficar murmurando a má sorte que o acomete, ou de encher os ouvidos dos outros com queixumes, o salmista se lamenta aos pés do Senhor. Tal atitude, por estranha que possa nos parecer (quem é o homem para falar assim com Deus?), é justamente a atitude que o Pai espera de nós. Afinal, Ele o único que pode de fato mudar a nossa situação.

O segundo movimento deste caminho de cura é aquele que vai da lamentação à súplica (v.3-4). A conjuntura na qual o salmista se encontra é crítica, mas ele deseja superá-la e viver. Seu lamento, por conseguinte, desemboca numa súplica insistente diante do Senhor: “ilumina-me os olhos”. O salmista precisa enxergar alternativas para sua luta e ter certeza da ação de Deus a seu favor, pois sente-se abandonado. Seus olhos estão cerrados pela angústia como acontece muitas vezes com qualquer um de nós. Somente a luz que irradia do olhar do Pai pode devolver-lhe a esperança. Daí ele orar: “Atenta para mim”. O fato de Deus olhar para nós é prova da sua graça e metáfora do seu favor. Justamente por esta razão é que, em determinados momentos de nossas vidas, nada nos é mais caro do que tal convicção (Sl 17,8). A certeza do olhar de Deus sobre nós é garantia do quanto nossa vida tem importância para Ele e fundamento de esperança que nutrimos de que Ele agirá misericordiosamente em  nosso favor.

O terceiro movimento é aquele que vai da súplica ao louvor (v.5-6). Chama atenção nos versículos finais do Salmo, a súbita  mudança de tom (do desespero para a serenidade).  A súplica veemente e angustiada parece ter produzido no salmista uma nova disposição para enfrentar a problemática com a qual se depara. A ruptura é abrupta e evidente, mas o quê de fato mudou? Nada no salmo nos faz pensar que a situação tenha sido resolvida ou contornada. Porém, o coração do salmista é outro. Já C.S. Lewis dizia: “Minhas orações não mudam a Deus, mas a mim”. Após queixar-se honestamente diante de Deus e de buscar nele o socorro, sua confiança  parece inabalável. As escamas caem de seus olhos permitindo-lhe perceber que, a despeito de tudo, o Senhor tem estado sempre a seu lado. Ele então termina o salmo com um voto de louvor e reconhecimento: “cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem”.

Como se deu com o salmista, também em nossa experiência diária somos, vez por outra, solapados por sentimentos de abandono e desamparo por parte de Deus. Vivemos nossas crises sozinhos, pois não percebemos a presença de Deus a nossa volta. Ainda que não tenhamos a coragem de verbalizar, nos perguntamos: “Senhor, até quando?”. Em momentos assim, por meio da oração honesta e ousada, podemos perceber novamente o olhar de Deus sobre nós e, pela fé, confiar que sua mão se movendo em nosso favor, mesmo que as circunstâncias digam que o contrário. Ao final, estaremos também aptos a levantar aos céus um canto de esperança (louvor) ao som do qual seguiremos nosso caminho na certeza inexorável de que não estamos sós.

Transparências do divino

Quem enxerga o humano, vê Deus. E vice-versa
Quem enxerga o humano, vê Deus. E vice-versa

Os gregos antigos concebiam o divino como a absoluta transcendência. Já os pagãos o compreendiam em termos de uma imanência radical – o divino era a própria criação, cada ser e cada coisa. Para a fé bíblica, no entanto, o divino – Deus – está para além de ambas as categorias. Ele não é nem transcendência apenas, nem imanência apenas. Deus é transparência. Nas Escrituras, Deus se manifesta simultaneamente na criação e através dela, sem, no entanto, se confundir com ela. Como disse Teilhard de Chardin: “Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão e Deus, mas Deus é Deus”.

A visão grega de Deus pressupunha que o mundo e a criação eram maus e imperfeitos. Deus, portanto, não poderia ser deste mundo nem se fazer conhecer nele de modo objetivo. O imperfeito não pode abrigar a perfeição, pensavam. O paganismo obedecia lógica inversa: Deus é tudo e tudo é Deus. Logo, todas as coisas são sagradas – daí que cultuassem o sol, a lua, os rios, os animais, etc. O perfeito é imperfeito. O criador e a criatura são uma e a mesma realidade.

Num certo sentido, pode-se dizer que a concepção bíblica de Deus é uma síntese das concepções grega e pagã. O Deus inefável, o Totalmente Outro, se oferece a nós na figura ordinária de um homem comum, em tudo igual a nós, exceto no pecado: Jesus de Nazaré. Nele o divino irrompe na história humana transfigurando-a desde suas entranhas. A perfeição fecunda a imperfeição abrindo-lhe assim possibilidades infinitas. Somente por isto é possível oferecermos um copo d’água a alguém que tem sede e deste modo agradarmos a Deus. De outra parte, já não mais faz sentido adorarmos a Deus se continuamos indiferentes às necessidades de nosso irmão. Nisto se resume a categoria bíblica da transparência: quem enxerga o semelhante, vê Deus. E vice-versa. Nada é, portanto, meramente o que aparenta ser.

O que foi dito acima pode ser expresso de outra maneira: por trás de cada crepúsculo, de cada alvorecer, de cada poema, de cada ritmo, de cada gesto de amor e cuidado, de cada sorriso infantil, de tudo aquilo que é belo e bom, está Deus. Pois ele é a fonte de toda bondade e toda virtude. Através destas coisas, O enxergamos e apenas quando olhamos através Dele é que realmente percebemos a beleza do mundo criado. O perfeito aprimora o imperfeito e o imperfeito aponta para a perfeição permitindo-nos experimentá-la indiretamente.

Enfim, como um vidro que nos permite ver o que está do outro lado, Deus não é, nem imanência, nem transcendência, mas transparência. Enxergamos Deus através do humano e compreendemos o humano quando olhamos para Deus. Nossa vida, portanto, não é algo sem-sentido, mas é sacramento do divino, uma métafora que nos ajuda a pensar sobre aquele que é cheio de compaixão e de ternura.

A esperança cristã

Esperamos contra a própria esperança
Esperamos contra a própria esperança

A esperança cristã se funda na promessa divina de que a criação e, particularmente, a vida humana não se limitam a esta experiência terrena, mas a extrapolam adentrando o mais-além – a eternidade – onde serão plenificadas e celebradas eternamente (Jo 11:25-26; 1Co 15:19; Rm 8:18-25). Assim, o mundo e os seres humanos não terão um fim, mas um futuro: o futuro de Deus onde Ele mesmo “será tudo em todos” (1Co 15:28).

Ao contrário do que talvez imagine o senso comum, a esperança cristã não está reservada para a plenitude escatológica, mas se manifesta já no presente onde Deus se revela e atua. Assim, já podemos experimentar hoje algo do porvir celestial onde finalmente serão enxugadas as lágrimas de nossos olhos. Porém, o fazemos de forma incipiente, parcial, ambígüa e precária (pois vivemos ainda sob a influência do pecado).

As clássicas promessas de Deus a Abraão e ao povo de Israel – terra, descendência, proteção e livramento – são metáforas do destino que Deus tem para aqueles que se abrem para um caminhar com Ele (Gn 12:1-3; Ex 3:7-12). Porém mais do meras metáforas são também antecipações, “aperitivos”, de nossa salvação final. Assim, a partir de pequenas experiências cotidianas da graça e benevolência de Deus, podemos ter uma idéia, um gostinho, de como será o nosso futuro.

Vivemos, portanto, sob a dinâmica do “já e ainda-não”. Com efeito, já hoje experimentamos algo da salvação que nos está prometida, contudo ainda-não de forma plena. Esta é uma experiência progressiva: a cada dia vamos morrendo para o pecado que habita em nós e no mundo e ressuscitamos para Deus.

Ora, a esperança cristã é dinâmica. Não se trata de um aguardar apático e inerte da vinda de Deus. Antes, é um caminhar com ele, na força de seu Espiríto e na direção de sua pessoa e vontade. Quanto mais esta esperança ilumina nossa vida, mais celestial, mais abundante, mais “eterna” ela se torna.

Sobre viver e morrer

A morte do meu tio me fez pensar sobre minha vida
A morte nos faz parar para pensar sobre a vida

 

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração” (Ec 7:2).

 

Hoje sepultei um parente querido: meu tio Célio, irmão mais velho do meu pai. Ele já não vinha muito bem de saúde, é verdade, mas sua morte não deixou de ser uma surpresa.

Enquanto dirigia para o cemitério pensava sobre a vida e a morte. Pensava sobre minha família que de tão grande somente se reúne em ocasiões extremas: ou muito alegres e festivas como casamentos e bodas, ou muito tristes como funerais. Fiquei pensando no sofrimento do meu pai, dos meus tios e tias, meus primos… Pensei também nos que já partiram: tio Nilson, tia Gracinha, Pipe… Pensei na minha avó que morreu sem que eu pudesse me despedir dela – estava morando nos EUA, à época. Pensei em Guto, meu irmão, e na minha mãe que, por não ter condições de suportar a dor, mal fala do meu irmãozinho. Ele hoje seria um homem.

Em meio ao caos urbano e ao barulho de motores e buzinas, pensei em Karine, minha mulher, e em Hugo e Theo, meus dois filhinhos. Imaginei o quão insuportável seria a dor de não tê-los mais. Pensei também na igreja – na Betânia, que há pouco completou 43 anos, e na Betânia Litorânea que ainda está sendo gestada. Vida que segue e vida por nascer.

Pensei em tantas coisas importantes que logo me dei conta do quanto penso pouco sobre elas. Percebi o quanto elegemos prioridades equivocadas e em como gastamos nossa vida correndo atrás do vento. “Vaidade de vaidades”, dizia Salomão, “tudo é vaidade” (Ec 1:2). Será que estamos destinados a viver assim?

A morte do meu tio Célio despertou-me para a necessidade de recobrar a lucidez. Pois me dei conta de que chorei a partida de alguém que, na realidade, nunca conheci. Convivi com tio Celinho toda a minha vida e quantas vezes conversamos para além do trivial? Quantas coisas ele tinha para dizer que nunca lhe foram perguntadas? Quantas estórias para contar que nunca parei para ouvi? Quantos conselhos para oferecer?

É estranho como nossa vida é frágil e vulnerável. E como nossa percepção das coisas é lenta. Perguntei-me: quantas pessoas mais precisarão morrer para que eu me dê conta de que desperdicei a oportunidade de conhecê-las realmente? Quantas pessoas mais precisarei perder para que possa finalmente descobrí-las? Talvez não haja desgraça maior neste mundo do que não perceber que o grande dom da vida é o outro.

Não posso mais seguir vivendo tão destraído e ensimesmado. Solidão, às vezes, é um mal que nos auto-impomos. Quero, a partir de hoje, estar mais perto de quem amo. Quero poder conhecê-los: minha mulher, meus filhos, meus pais, meu Deus, meus amigos. Quero ouvir suas histórias, seus sonhos, suas queixas, seus testemunhos. Hoje, no velório do meu tio Celinho, chorei não apenas sua morte, mas também a minha.

 

A igreja e a missão

O Pai que nos criou também tomou a iniciativa de nossa salvação
O Pai que cria também toma a iniciativa de salvar

O que vem primeiro: a igreja ou a missão? É a igreja que tem uma missão ou é a missão que tem uma igreja?

Segundo as narrativas evangélicas, Jesus inicia sua atividade proclamando o Reino de Deus (Mc 1:14-15). E em função deste Reino, orienta e organiza todo seu ministério: conta parábolas para explicá-lo, realiza milagres para revelar que ele já começou a operar nas vidas das pessoas, e chama discípulos para plantar neles a esperança do Reino e o compromisso com sua construção.

Com exceção de duas passagens em Mateus – Mt 16:18 e Mt 18:17 – jamais vemos Jesus falando em igreja. Em contrapartida, a expressão “Reino de Deus” aparece mais de 250 vezes nos Evangelhos, a grande maioria das vezes nos lábios de nosso Senhor.

Teologicamente falando, a igreja nasce no dia de Pentecostes com a descida do Espírito Santo. Antes disto, porém, Jesus já havia entregue a missão a seus discípulos (Mt 28:19-20) que aguardavam reunidos o cumprimento da promessa pela qual seriam capacitados para realizá-la (At 1). Foi com esta finalidade que Jesus os chamou para seguí-lo.

A missão, portanto, é anterior à igreja. Logo, não é a igreja que tem uma missão, mas é a missão tem uma igreja. Esta existe como serva e instrumento daquela. A igreja não existe para enviar, mas existe como enviada.

É fundamental a compreensão acima. Ela, porém, nos coloca uma pergunta: se a missão não é da igreja, de quem é? Ora, a missão é de Deus (João 3:16). Ela foi confiada à igreja, mas ela é de Deus (Missio Dei). Deus é quem deseja salvar e quem, afinal, salva a humanidade. Ele enviou seu filho para realizar esta missão e incumbiu a igreja de continuá-la.

Mas ainda uma última pergunta fica sem resposta: quem é, afinal, este Deus da Missão? O Deus da missão é Abbá, o Pai de Jesus Cristo – um Deus amoroso e solidário que deseja o bem da humanidade. Abba é dinamismo de amor sem limites e fonte de toda ternura e graça. Ele é Trindade.

Segundo a tradição teológica latina, nos tempos eternos somente o Pai era. “Princípio sem princípio, origem sem origem”, dizia Agostinho. Mas por ser amor, o Pai não podia suportar “ser” sozinho. Ele então faz um movimento para fora de si e gera o Filho e, com o Filho, o Espírito. Ainda tomado por este amor que não cabe em si mesmo, Ele se  projeta para além de si mesmo e cria a humanidade para amá-la e ser amado por ela; para incluí-la neste círculo de amor e comunhão.

Abbá, o Deus do Reino é um Deus relacional. Ele nos ama e busca ser amado de volta por nós. Nisto consiste a Missio Dei. E para que este suspiro do coração divino se realize na sua vida e na minha, existe a igreja.

Meus filhos também ouvem as minhas orações

Deus não é o único atento às nossas orações
Deus não é o único atento às nossas orações

Todas as noite, sigo o mesmo ritual: escovo os dentes das crianças, levo-as para o quarto, leio uma historinha ou duas, e, finalmente, faço uma oração que começa sempre da mesma maneira: “Obrigado, papai do céu, porque Hugo e Theo são meninos  inteligentes, fortes, saudáveis, e amigos de Jesus”. Depois, então, eles dormem.

Embora Cristo  nos oriente a fugir das “vãs repetições” quando oramos, sempre que tenho este momento com os meninos, repito estas palavras diante de Deus com a disciplina de quem conduz um tratamento à base de homeopatia. Minha esperança é que não apenas Deus ouça o que digo, mas que meus filhinhos também ouçam tais palavras – e as guardem em seus corações.

Recentemente, fiquei sabendo através de minha sogra que minhas orações estão realmente sendo ouvidas. E que minha esperança não está sendo frustrada. Foi até engraçado. Era um domingo e nós estávamos na casa do meu sogro para um daqueles almoços em que se reúne toda a família. Aguardávamos um convidado especial que vinha comer com a gente.

Quando a campainha tocou, um dos meu sobrinhos correu para a porta e logo foi se apresentando: “Oi. Eu sou o Gabriel. Eu tenho seis anos e sou o neto mais velho”. Imediatamente depois dele, Hugo, meu filhinho primogênito, se aproximou do ilustre convidado e disse com naturalidade: “Oi. Eu sou o Hugo. Eu tenho quatro anos e sou o neto mais inteligente”. Só faltou mesmo o Theozinho chegar depois dizendo: “Oi. Eu sou o Theo. Eu tenho 3 anos e sou amigo de Jesus”.

Esta história singela e bem-humorada confirma e ilustra uma verdade da qual nunca duvidei: nada do que digo para Deus na presença dos meus filhos ou nada do que digo para os meus filhos na presença de Deus, se perde. Antes, cada palavra cumpre o seu destino como uma semente lançada ao solo que finalmente floresce e frutifica. Ora, não é apenas Deus quem ouve nossas orações. Nossos filhos também as ouvem. E o melhor de tudo: o que ouvem determina o que pensam acerca de si mesmos.

Que Deus nos dê sempre boas palavras. E que nunca deixemos de orar com os nossos filhos…