A lucidez de um lunático

Noite estrelada, de 1889.
Noite estrelada, de 1889.

“Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas ela ressoa por toda a terra até os confins do mundo” (Salmo 19:1-4)

Pouco sei sobre arte, especialmente pintura. Mesmo assim, ouso dizer: curto Van Gogh. Fascinam-me suas telas e a história de sua vida.

Vincent Van Gogh foi um artista genial. Quis ser pastor, inicialmente. Chegou a estudar teologia e atuar no ministério pastoral. Mas logo trocou o púlpito pelo ateliê e os livros de teologia pela palheta de tintas, sua verdadeira vocação. Melhor assim. Acabou revolucionando para sempre a arte dos traços, das cores e texturas. Seu estilo inconfundível permite que mesmo um leigo como eu seja capaz de reconhecer suas obras. Elas são vibrantes e poderosas como poucas homilias. Em vida, porém, Van Gogh vendeu apenas um único quadro. Talvez pelo estigma da loucura.

Não há consenso quanto à enfermidade que o assolava. Epilepsia? Esquizofrenia? Transtorno bipolar? Ainda hoje se discute o diagnóstico. Sabe-se apenas o seguinte: era um homem perturbado. Suas crises, intensas e frequentes, estendiam-se por até quatro semanas completas. Numa delas, mutilou-se amputando parte da orelha esquerda. Depois pintou um autorretrato com a cabeça enfaixada cobrindo o ferimento. Isso aconteceu na noite do dia 23 de Dezembro de 1888. Vang Gogh vivia em Paris à época. Após presentear uma prostituta com a orelha cortada, foi internado na clínica psiquiátrica Saint-Rémy-de-Provence onde permaneceu até o dia 7 de Janeiro do ano seguinte. Em carta ao seu irmão Theo, escreveu o seguinte sobre a experiência: “Conheci o abominável!”.

A fim de livrar-se das alucinações e da angústia lancinante que experienciava durante os surtos, ceifou a própria vida no ano de 1890. A tela “Campo de trigo com corvos” retrata a nuvem sombria que encobrira sua alma e pressagiara sua morte, ainda jovem, aos 37 anos de idade.

Uma de suas obras mais celebradas, Noite estrelada, é para mim a mais incrível de todas. Foi pintada num momento de lucidez no ano de 1889 durante uma das muitas vezes em que ficou internado na clínica Saint-Rémy. Através da janela de seu quarto, Van Gogh experienciou a energia, o movimento e a beleza enigmática do céu estrelado do lado de fora. E transformou em arte a paisagem extraordinária. Porém, mais que registrar o firmamento memorável, a famosa tela dá testemunho da rara sensibilidade de alguém que, em meio à ruidosa agitação da própria alma, foi capaz de ouvir o silencioso convite das estrelas para contemplar o mundo acima de sua cabeça. Era um homem religioso. Sabia que há na vida um mistério que os céus simultaneamente ocultam e revelam.

Sempre que vejo uma reprodução deste quadro, me pergunto: onde está o louco? Escondido atrás da tela ou mirando-a de frente? Indago-me desta maneira porque não me convenço de que o louco em questão seja mesmo o pintor flamengo. Não, o louco sou eu. O louco sou eu que vivo correndo de um lado para o outro, sempre apressado, sem jamais parar para contemplar o céu sobre mim. Quem sabe não somos loucos todos nós que vivemos deste modo? Não seria evidência de loucura o fato de caminharmos neste mundo de tanta beleza e complexidade sem nos permitirmos parar por ao menos um instante para ouvir a voz do céu que nos encobre desde tempos imemoriais? Será que ele que nos ilumina e orienta desde antes de o tempo começar a ser contado nada mais tem a nos dizer? Não terá ele um caminho a nos apontar?

A famosa tela de 1889 tem a força de um sermão bem enunciado. Ela grita aos nossos ouvidos as palavras do sábio pregador de Eclesiastes: “Que proveito tem o homem de todo o seu esforço e de toda a ansiedade com que trabalha debaixo do sol? […] mesmo à noite a sua mente não descansa. Isso é um absurdo!” (Ec 2:22).

Eis a minha confissão: tenho tanta dificuldade de parar quanto tenho de ouvir (será que não ouço porque não quero parar ou não páro porque não quero ouvir?). É como se tivesse amputado minhas próprias orelhas…

Ironia das ironias: do alto de sua “loucura”, o lunático Van Gogh exibia uma lucidez raramente encontrada entre nós. Foi capaz de notar o que nos passa despercebido e, mesmo faltando-lhe uma orelha, ouviu o convite que parece estar além de nossa sensibilidade auditiva e espiritual. De outra parte, nós, corredores resolutos, apesar de nossa suposta sanidade, seguimos correndo de um lado para o outro repetindo obsessivamente: “Mais rápido! Mais rápido!”.

Por que tanta correria? Para onde corremos? Ou do que corremos? Temos um tempo a cumprir? Quanto tempo temos de fato? Corremos assim por convicção ou por desorientação? Por decisão ou por desespero? Onde queremos chegar?

À maneira de um bom pastor, Van Gogh, em Noite Estrelada, conduz-nos pelos labirintos de nossa sensibilidade abrindo-a para ver e ouvir aquilo que pode nos salvar. Sua tela é um verdadeiro sermão cuja mensagem é inequívoca e bela.