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Onde estava Deus na tragédia do Haiti?

“Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonastes? (Mc 15:34) 

 

Os números são assustadores. As imagens, chocantes. Diante do caos absoluto instaurado no Haiti, encontramo-nos perplexos. Alguns chegam até a titubear na fé: por que um Deus bom e todo-poderoso permite que algo assim aconteça?

A conclusão apressada – e, no fundo, simplista – a que muitos chegam é resultante do seguinte raciocínio: se Deus é bom, mas não evita a trágedia e o sofrimento humano, só pode ser porque não tem poder para fazê-lo. Logo, ele é impotente. Outros, seguindo a mesma lógica, concluirão que Deus não é bom, pois se ele é todo-poderoso para evitar a tragédia e o sofrimento, mas não o faz, é porque, na realidade, é indiferente a tudo que nos sucede.

A despeito de tragédias e da presença do sem-sentido no mundo, da realidade do sofrimento lancinante e do desespero da morte, a revelação bíblica nos assegura: Deus é sim BOM e TODO-PODEROSO. Ora, diante de tal afirmação, a questão passa então a ser: como articular a realidade do sofrimento humano com a bondade e o poder soberano de Deus?

A ídeia aqui não é responder esta questão milenar. Tampouco tentar, de alguma forma, esgotar o assunto. A intenção, na verdade, é bem mais modesta: trata-se tão-somente de tecer algumas considerações que nos sirvam de marcos de referência fundamentais para pensarmos a questão na perspectiva de quem crê (e deseja seguir crendo). São 3, portanto, as considerações que quero fazer:

 1.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que existe uma resposta para o problema do sofrimento ainda que nós não a conheçamos.

O fato de não possuirmos uma resposta definitiva para o questão do sofrimento não significa que tal resposta não exista. Deus é diferente de nós. Ele é, como se diz no jargão teológico, o Totalmente Outro. Nós, de outra parte, somos seres ambíguos e limitados. Sabemos que existem coisas que nos escapam, nos transcendem, que estão além de nossa compreensão. Deus, porém, conhece o que desconhecemos e vê o que não vemos. Não temos uma resposta para o dilema do sofrimento humano, mas cremos que Deus a tem. Portanto, dizer que Deus não é bom, nem todo-poderoso apenas porque não temos uma resposta satisfatória para a questão em jogo aqui é como concluir que o ar não existe apenas porque não o podemos ver. Como pessoas de fé, assumimos nossa limitação: não sabemos. Contudo, cremos que Deus sabe. E assim aguardamos com esperança o dia em tudo nos será revelado. Afinal, a fé é a certeza de que existe uma resposta sobretudo onde não existe uma resposta aparente. 

2.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que ele não é o causador destes males que nos sucedem e fazem sofrer.

No Novo Testamento, o Deus revelado em Jesus Cristo nem de longe é um Deus iracundo, punitivo, sádico, que ordena sobre nós o mal e é indiferente ao nosso sofrimento. Muito pelo contrário. Ele é um Deus que se faz um de nós, que se coloca ao nosso lado, sofre nossas dores, conhece nossa limitação, chora diante do nosso luto. É um Deus que experimenta o medo, a angústia, a perplexidade. Ele é Emanuel, Deus conosco, Deus como a gente. Como podemos constatar pelo texto de Mc 15:34, o sofrimento da cruz escandaliza o próprio Cristo. Mesmo assim, ele exclama: “Meu Deus, Meu Deus”. Jesus sabia que apesar de tudo, Deus era com ele e por ele. Sabia que Deus não poderia ser o seu algoz posto que era Abbá, paizinho de amor perfeito e infinito. Da mesma forma, Abbá não poderia estar na origem do que aconteceu no Haiti. Daí que se alguém nos perguntasse: “onde estava Deus na tragédia do Haiti?”, responderíamos sem hesitar: ele estava ao lado daqueles que ficaram orfãos, daqueles que perderam seus filhos, daqueles que viram seus queridos morrerem soterrados. Ele estava entre os escrombros chorando a dor dos enlutados, consolando os desesperados, e levando nos braços, de volta para casa celestial, seus filhos e filhas amados cujas vidas foram ceifadas. Deus não é o causador de todo este sofrimento, mas ele é vítima como qualquer um de nós. E isto não porque seja um Deus impotente, mas porque é um Deus solidário.

3.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso e nós somos sua imagem e semelhança, temos de crer também que é possível conferirmos um sentido à realidade absurda do sofrimento.

Embora a primeira vista o sofrimento seja uma realidade sem-sentido, é possível atribuir-lhe um sentido na medida em que sofremos para erradicar o sofrimento dos outros ou minimizá-lo de alguma forma. Sempre que alguém sofre para que outra pessoa deixe de sofrer ou sofra menos um pouco, o sofrimento passa a ter um sentido. Pois este é o sentido do sofrimento vicário de Cristo. Ele sofreu na cruz para que nós tivéssemos uma esperança, um futuro, uma liberdade verdadeira, a vida abundante e a eternidade. Quando sofro para que alguém deixe de sofrer, me torno participante dos sofrimentos de Cristo o que confere não apenas sentido ao meu sofrimento, mas virtude, beleza e transcendência. Isto, obviamente, nada tem a ver com o fato de algumas pessoas – e mesmo nações inteiras – sofrerem sob a exploração capitalista para que outros enriqueçam e vivam nababescamente. O ponto aqui é precisamente a antítese deste quadro. Trata-se do sofrimento daqueles que lutam por um mundo mais justo, mais fraterno, mais aberto ao mistério do divino e mais cheio de compaixão pelo próximo. É na busca desta nova humanidade transfigurada e liberta do egoísmo, da injustiça, da exploração, e do pecado que o sofrimento ganha sentido.

Em suma. Não temos uma resposta crente plenamente satisfatória para a questão da coexistência do sofrimento humano com a realidade de Deus. Mas, na fé, confiamos que tal resposta existe. E reafirmamos com convicção a bondade e onipotência de nosso Senhor. Com base nisto, também afirmamos que Deus não pode estar na origem de calamidades como esta que assola o Haiti, mas está, na verdade, do outro lado, do nosso lado, do lado daqueles que sofrem e choram tal desgraça. Finalmente, sublinhamos que a realidade absurda do sofrimento pode sim ser revestida de um sentido quando nos tornamos participantes dos sofrimentos de Cristo, isto é, quando sofremos para que outros deixem de sofrer. Que esta verdade esteja clara para todos nós: o brado de Jesus na cruz – “por que me abandonastes?” – é mesmo grito de milhares de crucificados mundo afora que aguardam que alguém sofra com eles o preço de sua libertação.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

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