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Onde estava Deus na tragédia do Haiti?

“Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonastes? (Mc 15:34) 

 

Os números são assustadores. As imagens, chocantes. Diante do caos absoluto instaurado no Haiti, encontramo-nos perplexos. Alguns chegam até a titubear na fé: por que um Deus bom e todo-poderoso permite que algo assim aconteça?

A conclusão apressada – e, no fundo, simplista – a que muitos chegam é resultante do seguinte raciocínio: se Deus é bom, mas não evita a trágedia e o sofrimento humano, só pode ser porque não tem poder para fazê-lo. Logo, ele é impotente. Outros, seguindo a mesma lógica, concluirão que Deus não é bom, pois se ele é todo-poderoso para evitar a tragédia e o sofrimento, mas não o faz, é porque, na realidade, é indiferente a tudo que nos sucede.

A despeito de tragédias e da presença do sem-sentido no mundo, da realidade do sofrimento lancinante e do desespero da morte, a revelação bíblica nos assegura: Deus é sim BOM e TODO-PODEROSO. Ora, diante de tal afirmação, a questão passa então a ser: como articular a realidade do sofrimento humano com a bondade e o poder soberano de Deus?

A ídeia aqui não é responder esta questão milenar. Tampouco tentar, de alguma forma, esgotar o assunto. A intenção, na verdade, é bem mais modesta: trata-se tão-somente de tecer algumas considerações que nos sirvam de marcos de referência fundamentais para pensarmos a questão na perspectiva de quem crê (e deseja seguir crendo). São 3, portanto, as considerações que quero fazer:

 1.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que existe uma resposta para o problema do sofrimento ainda que nós não a conheçamos.

O fato de não possuirmos uma resposta definitiva para o questão do sofrimento não significa que tal resposta não exista. Deus é diferente de nós. Ele é, como se diz no jargão teológico, o Totalmente Outro. Nós, de outra parte, somos seres ambíguos e limitados. Sabemos que existem coisas que nos escapam, nos transcendem, que estão além de nossa compreensão. Deus, porém, conhece o que desconhecemos e vê o que não vemos. Não temos uma resposta para o dilema do sofrimento humano, mas cremos que Deus a tem. Portanto, dizer que Deus não é bom, nem todo-poderoso apenas porque não temos uma resposta satisfatória para a questão em jogo aqui é como concluir que o ar não existe apenas porque não o podemos ver. Como pessoas de fé, assumimos nossa limitação: não sabemos. Contudo, cremos que Deus sabe. E assim aguardamos com esperança o dia em tudo nos será revelado. Afinal, a fé é a certeza de que existe uma resposta sobretudo onde não existe uma resposta aparente. 

2.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso, temos de crer também que ele não é o causador destes males que nos sucedem e fazem sofrer.

No Novo Testamento, o Deus revelado em Jesus Cristo nem de longe é um Deus iracundo, punitivo, sádico, que ordena sobre nós o mal e é indiferente ao nosso sofrimento. Muito pelo contrário. Ele é um Deus que se faz um de nós, que se coloca ao nosso lado, sofre nossas dores, conhece nossa limitação, chora diante do nosso luto. É um Deus que experimenta o medo, a angústia, a perplexidade. Ele é Emanuel, Deus conosco, Deus como a gente. Como podemos constatar pelo texto de Mc 15:34, o sofrimento da cruz escandaliza o próprio Cristo. Mesmo assim, ele exclama: “Meu Deus, Meu Deus”. Jesus sabia que apesar de tudo, Deus era com ele e por ele. Sabia que Deus não poderia ser o seu algoz posto que era Abbá, paizinho de amor perfeito e infinito. Da mesma forma, Abbá não poderia estar na origem do que aconteceu no Haiti. Daí que se alguém nos perguntasse: “onde estava Deus na tragédia do Haiti?”, responderíamos sem hesitar: ele estava ao lado daqueles que ficaram orfãos, daqueles que perderam seus filhos, daqueles que viram seus queridos morrerem soterrados. Ele estava entre os escrombros chorando a dor dos enlutados, consolando os desesperados, e levando nos braços, de volta para casa celestial, seus filhos e filhas amados cujas vidas foram ceifadas. Deus não é o causador de todo este sofrimento, mas ele é vítima como qualquer um de nós. E isto não porque seja um Deus impotente, mas porque é um Deus solidário.

3.     Se cremos que Deus é bom e todo-poderoso e nós somos sua imagem e semelhança, temos de crer também que é possível conferirmos um sentido à realidade absurda do sofrimento.

Embora a primeira vista o sofrimento seja uma realidade sem-sentido, é possível atribuir-lhe um sentido na medida em que sofremos para erradicar o sofrimento dos outros ou minimizá-lo de alguma forma. Sempre que alguém sofre para que outra pessoa deixe de sofrer ou sofra menos um pouco, o sofrimento passa a ter um sentido. Pois este é o sentido do sofrimento vicário de Cristo. Ele sofreu na cruz para que nós tivéssemos uma esperança, um futuro, uma liberdade verdadeira, a vida abundante e a eternidade. Quando sofro para que alguém deixe de sofrer, me torno participante dos sofrimentos de Cristo o que confere não apenas sentido ao meu sofrimento, mas virtude, beleza e transcendência. Isto, obviamente, nada tem a ver com o fato de algumas pessoas – e mesmo nações inteiras - sofrerem sob a exploração capitalista para que outros enriqueçam e vivam nababescamente. O ponto aqui é precisamente a antítese deste quadro. Trata-se do sofrimento daqueles que lutam por um mundo mais justo, mais fraterno, mais aberto ao mistério do divino e mais cheio de compaixão pelo próximo. É na busca desta nova humanidade transfigurada e liberta do egoísmo, da injustiça, da exploração, e do pecado que o sofrimento ganha sentido.

Em suma. Não temos uma resposta crente plenamente satisfatória para a questão da coexistência do sofrimento humano com a realidade de Deus. Mas, na fé, confiamos que tal resposta existe. E reafirmamos com convicção a bondade e onipotência de nosso Senhor. Com base nisto, também afirmamos que Deus não pode estar na origem de calamidades como esta que assola o Haiti, mas está, na verdade, do outro lado, do nosso lado, do lado daqueles que sofrem e choram tal desgraça. Finalmente, sublinhamos que a realidade absurda do sofrimento pode sim ser revestida de um sentido quando nos tornamos participantes dos sofrimentos de Cristo, isto é, quando sofremos para que outros deixem de sofrer. Que esta verdade esteja clara para todos nós: o brado de Jesus na cruz – “por que me abandonastes?” - é mesmo grito de milhares de crucificados mundo afora que aguardam que alguém sofra com eles o preço de sua libertação.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

EDB? Para quê?

A Palavra de Deus aperfeiçoa a nossa humanidade

O horário via de regra é ingrato: 9h da manhã. Em algumas igrejas, 17:30h, bem na hora do futebol. Depois de uma semana de trabalho e tantos compromissos, poucas coisas são tão convidativas quanto a idéia de acordar tarde no domingo e passar o dia prostrado no sofá em frente à TV surfando pelos canais em busca de um bom jogo ou filme. Mas sempre tem alguém na casa que surge com aquilo que à primeira vista parece ser uma idéia descabida: “Vamos à EBD?”.

Parece ser mesmo uma realidade na maioria das igrejas que a EBD perdeu o prestígio de que gozara em outros tempos. Com tantos programas e atrativos nas igrejas, algumas pessoas chegam até a se perguntar pela utilidade de um programa de Escola Bíblica Dominical. Ora, a resposta à pergunta pela utilidade da EBD é simples e bem conhecida: serve para estudarmos a Bíblia e aprofundarmos nosso conhecimento sobre as coisas de Deus. Mas aqui não há como fugirmos de uma segunda pergunta cuja resposta é menos óbvia: “Qual é, então, a finalidade de estudarmos a Bíblia?”.

Muitas respostas corretas são possíveis neste caso, mas creio haver uma mais correta do que todas as demais. Uma resposta ainda mais acertada, mais verdadeira, mais fundamental do que todas as outras e da qual todas as outras são derivações: a finalidade de estudarmos a Bíblia é termos nossas vidas transformadas, regeneradas, resgatadas pela comunhão com Deus que ela proporciona e aprofunda.

O Salmo 119 é um elogio à Palavra de Deus. Ele fala da riqueza, da beleza, da força e da vida que esta palavra não apenas contém, mas constitui. O versículo 11, em especial, merece atenção: “Guardo no coração as tuas palavras para não pecar contra ti”. Como é sabido, o pecado é aquela realidade que faz separação entre nós e Deus. Ele nos afasta da comunhão com Deus, embora não nos afaste do amor de Deus o qual, a despeito de tudo, jamais desiste de nós. Mas é preciso entendermos melhor o que significa este “afastar-nos da comunhão com Deus”.

Segundo Gênesis 1, o ser humano foi criado em comunhão com Deus, à imagem e semelhança dele, para com ele viver em uma relação de comunhão. Assim, o fator determinante de nossa identidade humana, de nossa condição de pessoa é justamente a comunhão com Deus na qual e para a qual fomos criados. Dito de maneira mais direta: o que nos faz humanos é a nossa origem em Deus, isto é, nossa comunhão original com Ele. Assim, quanto mais estamos em comunhão com Deus, mais somos humanos, ou mais perfeita é nossa humanidade. O problema é que o contrário também é verdadeiro: quanto mais nos afastamos de Deus, mais nos desumanizamos, mais nos descaracterizamos e nos tornamos criaturas meramente animais – algumas vezes, verdadeiros monstros marcados por uma total insensibilidade e falta de amor em relação ao outro – e ao próprio Deus.

Voltemos agora para o Salmo 119:11, o qual afirma que o conhecimento da Palavra de Deus nos ajuda a evitar o pecado. Pois bem, se o pecado me desumaniza e me desfigura transformando-me em uma criatura egoísta e fechada em mim mesmo, e a Palavra, de outra parte, me ajuda a evitar o pecado, logo, é certo dizer que a Palavra me ajuda a preservar minha humanidade. Mais do que isto: ela me ajuda a resgatá-la quando a mesma se encontra em processo de degeneração e, depois, a desenvolvê-la e plenificá-la. Deste modo, quanto mais eu estudo e pratico a Palavra, mais eu evito o pecado e deste modo, aprofundo minha comunhão com Deus; o que resulta em aperfeiçoamento de minha humanidade.

Neste mundo de tanta desumanidade e tanta falta de amor, a Palavra de Deus nos ajuda a reconstruir nossa condição de pessoas restaurando nossa humanidade, e por conseguinte, nos abrindo para o outro. Este movimento de êxodo para fora de mim, me aproxima também de Deus e assim inaugura um ciclo virtuoso que transforma e abençoa minha vida: eu guardo a Palavra que me ajuda a evitar o pecado. Isto me humaniza e me abre para o meu próximo cuja presença me aproxima de Deus (Mt 25:40). Uma vez perto de Deus, desejo mais a Palavra, a qual me humaniza…

Portanto, a EBD serve, indiretamente, para nos ajudar no processo de resgate e desenvolvimento de nossa humanidade. E, de maneira mais direta, serve como um forum privilegiado onde eu posso aprender, conversar, e trocar experiências sobre a Palavra de Deus que me transforma, me humaniza e enche minha alma de alegria, sentido e esperança. Superemos a preguiça e freqüentemos a Escola Bíblica Dominical. Ela faz toda a diferença.

A ressurreição nos abre o futuro de Deus

É certo pensar que o conjunto de nossas experiências passadas nos diz muito acerca de quem somos e do porquê hoje nos encontramos neste ponto de nossas vidas. Importa esclarecer, todavia, que não é tanto o passado que determina o caminho de nosso existir no mundo, mas sim o futuro. Na realidade, o que queremos ser no futuro tem maior influência sobre nossas vidas do que aquilo que somos hoje ou já fomos um dia. Isto nos sugere as Escrituras quando afirmam “o justo viverá por fé”.

Viver por fé, com efeito, significa viver a partir de uma realidade que não possuímos, de algo que ainda não nos pertence, que nos foge ao tato, mas que nos convida a caminhar. Viver por fé significa, assim, viver seduzido por uma esperança, por uma promessa, por um desejo de chegar. A vida inteira projetada num único suspiro.

Segundo afirmação da teologia cristã, o suspiro profundo do coração humano é contemplar o rosto de Deus: vê-lo como somos vistos. Esta é nossa fome básica, nosso anseio fundamental. Vivemos, de fato, ainda que inconscientemente, em busca de sua face. Sim, vivemos em busca de Deus, fonte e destino da vida! Por trás de todos os nossos projetos, de todos os nossos amores, de todos os nossos desejos de consumo, de todas as nossas lágrimas, e mesmo por trás de toda nossa luta neste  mundo de contradições, subsiste um impulso incontrolável por  encontrá-lo. Fora  dele,  que  sentido  tem  a  vida? Fora dele, há vida? Por isto o queremos tanto: desejamos viver, viver para sempre. Desejamos viver de forma abundante, plena, como a ressurreição nos permitirá.

Infelizmente, falamos pouco sobre o tema da ressurreição. Isto porque quase não falamos sobre um outro tema de importância igualmente capital: a cruz. Esquecemo-nos, assim, sem mais, do clímax da história, do acontecimento único no tempo que nos abriu futuro e a eternidade: em um homem pobre e simples, Deus mesmo passou entre nós levando consigo a chave da morte vencida na cruz e na ressurreição. Com base nisto confessamos: não existe mais morte e vida, mas somente vida e ressurreição. Em Jesus, a vida não terá um fim, mas um futuro. Quando perdemos isto de vista, tudo a nossa volta cheira a mofo e perde a cor. Com efeito, a fé na cruz-ressurreição de Jesus nos permite, já agora em vida, ressurgir, nascer de novo, tentar outra vez. Pouco importam as frustrações e fracassos de outrora. Ele fez – e faz – novas todas as coisas. Crer em Jesus Cristo implica viver em constante renovação de vida.

Concretamente, isto quer dizer que a pessoa que eu hoje sou não é simplesmente o resultado dos passos de um tempo que ficou para trás, mas é, sobretudo, misericórdia e graça do senhor que me permitiu chegar até aqui e agora me convida a fazer diferente. Hoje é, portanto, oportunidade e kairós de Deus para mim. A fé na cruz-ressurreição me convida a sonhar, a caminhar em uma nova direção. Agora sei onde posso chegar, e por isso saberei escolher o caminho. Não é o passado, afinal, que me dirá para onde estou indo, mas o futuro aberto e garantido pela cruz-ressurreição de Cristo.

Que neste novo ano nós possamos ressuscitar muitas vezes e nascer sempre outra vez para vida que Deus tem para nós. Que, ao lado disto, nos sejam concedidos novos sonhos que nos animem a seguir em frente. E, finalmente, que nossa alma transborde de alegria. Feliz ano novo!

Vida nova, ano novo

Ano novo não é garantia de vida nova.

 

“Se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Coríntios 5:17)

 

Assim reza o ditado popular: ano novo, vida nova. Há, sem dúvida, enorme sabedoria nestas palavras. Afinal, simbolicamente, a virada do calendário representa para todos nós a sempre bem-vinda oportunidade de nos redimirmos das falhas cometidas ao longo do ano que já vai se findando. Mas o que garante que tal sucederá?

Se no nível simbólico o ano novo representa a possibilidade de reinventarmos nossas vidas, no nível concreto da experiência cotidiana, é a novidade de vida que nos abre – e garante – a possibilidade de vivermos um ano essencialmente novo. É a transformação da vida interior que nos abre a possibilidade de vivermos um ano diferente, renovado. Pois quando a vida não muda, quando não há novidade nela, o novo ano que se avizinha acaba não passando de um decepcionante deja-vú. Ora, a virada do calendário não pode fazer muito mais por nós do que recordar-nos da urgente necessidade de buscarmos esta mudança primeira, interior, esta novidade de vida sem a qual a melancólica sentença do pregador de Eclesiastes se impõe sobre nós de modo inexorável: “O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer; nada há que seja novo debaixo do sol” (Ec 1:9). 

Escrevendo aos crentes de Corinto, o apóstolo Paulo revela o segredo bendito de tal transformação: “se alguém está em Cristo”, ele diz, “é nova criatura”. Com efeito, é a presença sublime e cheia de ternura de Cristo em nossas vidas que nos permite experimentar o conhecido, o ordinário, o corriqueiro como algo revestido de novidade. O apóstolo, no entanto, nos fala aqui de algo ainda mais profundo e maravilhoso: a necessidade de nossa vida estar presente na vida de Cristo, de habitarmos e existirmos nele, como os peixes habitam e existem no fundo do mar e para o fundo do mar. Assim, estar em Cristo é viver imerso, envolto, mergulhado nele e para ele. Quanto mais nossa vida se fundir à vida dele por meio da oração e do exercício diário do discipulado (seguimento de seu caminho), tanto mais novidade haverá em nossos dias, pois na presença de Cristo tudo se transfigura e se faz novo. Mesmo a velha rotina se reveste de uma transcendência inédita e surpreendente.

Enfim, não é a chegada do ano novo que garante a vida nova, mas a vida nova em Cristo que nos assegura um ano qualitativamente novo. Quanto mais estivermos nele, mas novidade experimentaremos no ano vindouro, ainda que vivamos as mesmíssimas experiências do ano que passou. Pois a novidade não reside na substituição de uma experiência por outra, mas na maneira como as experimentamos. Para quem está em Cristo – e é nova criatura nele –, tudo é, de alguma maneira, sempre novo. Feliz 2010!

Natal

No natal celebramos a vida em toda sua exuberância

No natal celebramos nosso sagrado direito à vida

 

“…eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura (Lc 2:10-12)

 

Não conheço uma pessoa que não seja de alguma maneira afetada pelas festividades de fim de ano, sobretudo, o Natal. Para muita gente, essa é uma época de tremenda agitação, fartura na mesa e débitos no cartão de crédito. Para outros, um tempo de curtir a família e juntar os amigos mesmo que de forma um tanto mais modesta. Para outros ainda, uma celebração cujas cores se tornam mais ou menos brilhantes na medida em se é ou não objeto da solidariedade de uns poucos que, em sintonia com o espírito cristão, se lembram daqueles de quem a sociedade se esqueceu.

Nesse sentido, alías, especialmente no Natal, importa recordarmos que o recém-nascido Jesus, filho do carpinteiro José e da virgem Maria, foi um desses preteridos pela sociedade. Com efeito, o menino Jesus nasceu pobre e anônimo, num lugar sem nenhum conforto ou glamour: uma estrebaria. Mesmo em uma cultura onde se privilegiava a hospitalidade como valor, aquela humilde família não encontrou um lar que a acolhesse. E por essa razão, entre bois e jumentinhos, em meio à penúria, à humidade e ao forte odor, Maria deu à luz o Filho de Deus. Na contramão das expectativas rabínicas e pegando a todos de surpresa, Deus adentrou a nossa história pela porta dos fundos. Não fosse pelos três pastores, o recém-nascido não teria recebido uma só visita ou um presente sequer. A despeito disso, os evangelhos registram: naquela noite, a um só tempo tão peculiar e tão ordinária, os anjos nos céus cantaram em uníssono: Glória a Deus nas alturas!!!

O que aprendemos com esta história tão bela e tão desconcertante? O quê o nascimento de um bebê pobre e humilde – que é ninguém menos que Deus mesmo irrompendo em nossa história – anuncia e tem a nos ensinar? Muita coisa, decerto. Aqui, no entanto, me detenho sobre um único ponto: o Natal é, e precisa sempre ser, a boa-notícia alegre e alvissareira de que a vida humana tem valor e diginidade em si mesma, em sua forma mais básica e originária. Sobretudo neste nosso tempo, quando tendemos a medir a vida humana a partir de critérios como o sucesso profissional, o poder aquisitivo, a capacidade intelectual, o reconhecimento público etc., pensar o Natal desde esse outro prisma impõe-se como urgente necessidade. Pois o quê o nascimento do menino-Deus na obscuridade de uma estrebaria anuncia é precisamente que o valor e a diginidade da vida humana não estão condicionados a nenhuma realidade de ordem econômica, política ou sócio-cultural, mas senão ao fato de que toda vez que uma criança nasce, os anjos glorificam a Deus nos céus cantando: Glória a Deus nas alturas! É isso, em essência, que o Natal celebra e comunica: a vida humana – dom de Deus – que floresce e se renova a cada dia. O Natal é assim, pura gratuidade; é a festa da generosidade e benevolência de um Deus que se oferece a nós para ser nossa felicidade e a garantia de nosso direito à vida.

Em suma, o Natal – festa bendita de nossa salvação – é também a celebração de nosso bem e direito mais fundamental: a vida. Sim, esta nossa vida tão bela e tão frágil, que tantas vezes se encontra ameaçada e oprimida pela injustiça, pela violência, pela enfermidade, pelo egoísmo e pelo pecado; ela é precisamente a razão pela qual Deus se fez um de nós. Salvação, portanto, não quer dizer outra coisa senão abundância de vida com Deus que é inaugurada aqui e agora e que se extende para dentro da eternidade. Isso tudo nos diz o Natal com a ternura, a força e a originalidade própria do nosso Senhor.

Resta-nos, finalmente, como mangedora humilde e acolhedora, abraçar o Deus-menino e a boa-notícia que ele encarna e anuncia de que nossa vida é preciosa e de que nossa dignidade fundamental se radica no mistério eterno de seu amor por nós. Aleluia!

Na dúvida, o melhor a fazer é ficar parado em oração

Na dúvida, o melhor a fazer é ficar parado. E orar.

 

“Então veio o Espírito do SENHOR no meio da congregação e disse: Não temais, nem vos assusteis por causa desta grande multidão, pois a batalha não é vossa, mas de Deus. Amanhã [...] não tereis de pelejar; tomai posição, ficai parados e vede o livramento que o SENHOR vos dará,” (2Cr 20:15-17)

 

Todos já nos deparamos com situações diante das quais não sabíamos como proceder. De fato, o inusitado tende a nos imobilizar, sobretudo, quando nos surpreende negativamente. Atônito e tomado pela perplexidade, quem sabe discernir o caminho? Emerge então a pergunta: como reagir diante daquilo que nos pegou de surpresa? O que devemos fazer quando não sabemos o que fazer?

A narrativa de 2Cr 20:1-30 lança luz sobre esta questão ao relatar a experiência vivida por Josafá, rei de Judá, quando tomou conhecimento da invasão planejada pelos amonitas e moabitas contra o seu reino. Conta a historiografia sagrada que diante da perturbadora notícia, Josafá teve medo e pôs-se a buscar o Senhor em oração: “Ah! Nosso Deus [...] em nós não há força para resistirmos a essa grande multidão que vem contra nós, e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti” (v.12). A resposta divina à oração do rei de Judá foi surpreendente e emblemática: “ficai parados e vede o livramento que o Senhor vos dará” (v.17).

Com base na experiência do rei Josafá, podemos concluir que a coisa mais sábia a fazer quando estamos perplexos e desorientados é justamente não fazer nada. Com efeito, diante do inesperado, do não-previsto, ninguém deve, de imediato, tomar decisão alguma, optar por nenhum caminho, tentar resolver qualquer problema sob pena de pecar por precipitação (como aconteceu com Abraão que tentou solucionar o problema da esterilidade de Sara fazendo um filho Hagar – um equívoco cujas trágicas conseqüências se arrastam até hoje). Ao invés de agir por impulso, instinto, ou no calor da emoção, quem se descobre confuso e fragilizado deve “ficar parado”, em oração, com o olhar fixo em Deus, exatamente como fez o rei Josafá (v.12).

Embora algumas pessoas insistam em repetir que há casos em que a oração de nada adianta, onde sem uma ação paralela ela não tem nenhum sentido ou eficácia, orar é realmente o melhor que podemos fazer quando não sabemos o que fazer. Disto é possível estarmos certos: orar nunca é inútil. Pois como a Palavra de Deus, a oração não volta vazia. Nas palavras do próprio Senhor Jesus Cristo: “todo o que pede recebe” (Mt 7:8).

Muito provavelmente, as pessoas que pensam deste modo sobre a oração não compreenderam ainda um de seus segredos mais maravilhosos: ela é porta para fora do labirinto da dúvida e a chave da vitória. Pois, através da oração, desviamos o nosso olhar das adversidades e dos inimigos concentrando-o Naquele de onde vem o discernimento, o sábio conselho, e, finalmente, a salvação. Não foi esta a experiência de Pedro quando caminhava sobre as águas? Enquanto tinha os olhos fitos em Jesus, avançava sem mais. Todavia, quando parou para notar o vento forte e as ondas, afundou. A lição que aprendemos com a experiência de Pedro é a mesma que aprendemos com a de Josafá: quem mantém o olhar em Deus caminha sobre as ondas da vida e não se deixa abater pelo vento contrário. E nada melhor para manter o nosso olhar em Deus do que a oração.

Na seqüência da narrativa de 2Cr 20, Deus confunde os inimigos de Josafá fazendo-os lutar entre si até se aniquilarem mutuamente. A Josafá e ao povo coube apenas passar recolhendo os despojos. Eis aqui a boa-notícia: Deus também faz conosco o que fez ao rei de Judá: instrui-nos, segue a nossa frente e nos garante a vitória. A parte que nos cabe é tão somente ficar parados em oração mantendo todo tempo o olhar fixo Nele. Afinal, como afirma o texto bíblico, a “batalha não é nossa, mas de Deus” (v.15); e Ele a peleja por nós. Recordemo-nos sempre desta verdade.

Miopia espiritual

Nossa visão é gravemente prejudicada por preconceitos

Nossa visão é prejudicada por nossos preconceitos

Gosto muito de ler crônicas. Dentre as minhas preferidas está “A velha contrabandista”, de Stanislaw Ponte Preta. É a história de uma senhorinha que diariamente cruzava a fronteira do país guiando uma lambreta. O detalhe curioso é que, na garupa da lambreta, ela carregava um enorme saco cheio de areia, que despertava a atenção e a desconfiança dos fiscais da alfândega. Por conta disto, diariamente a revistavam, esvaziando o saco à procura de alguma pista ou evidência de contrabando. No entanto, as operações fracassavam sucessivamente.

Um dia, consumido pela desconfiança e curiosidade, um fiscal daqueles que após 40 anos de serviço conhece o ofício como poucos, abordou a velhinha e, num tom quase de súplica, lhe propôs um acordo mais ou menos nestes termos: “Eu prometo deixar a senhora passar e mantenho segredo de tudo, se me confidenciar qual é o contrabando que todos os dias a senhora passa por aqui”. A velhinha, após se assegurar de que o fiscal manteria sua palavra, revelou-lhe o segredo: “É a lambreta”.

Gosto desta crônica porque ela denuncia de forma inteligente e bem-humorada um sério defeito que, sem nos darmos conta, possuímos: uma grave limitação visual. De fato, temos enorme dificuldade de enxergar para além da visão objetiva. Nosso olhar parece estar restrito ao padrão do aparente, condicionado a ver segundo o critério do explícito, (ao contrário do Pequeno Príncipe, que aprendeu que “o essencial é invisível aos olhos”). Via de regra, nossos olhos se deixam capturar pelo suspeito, pelos “sacos de areia”, e desconsideram totalmente as “lambretas”. Nossa enfermidade tem nome: miopia – “vista curta, estreiteza de visão, falta de perspicácia”.

No Evangelho segundo João, capítulo 4, há o registro de um encontro de Jesus com uma prostituta samaritana junto a um poço. Tal mulher era estigmatizada pela sociedade da qual fazia parte, era vítima de um olhar (e de um juízo) estereotipado acerca de sua pessoa e história. Este padrão de comportamento era tão entranhado na cultura, que a própria mulher se assustou ao se dar conta de que Jesus falava com ela (João 4:9); afinal, homens não conversavam em público com mulheres, muito menos estrangeiras, sobretudo, prostitutas.

Felizmente, Jesus não olha para as pessoas como nós o fazemos. Seu olhar é muito mais sensível e profundo, mais subjetivo, livre de toda espécie de condicionamentos e preconceitos. Enquanto as pessoas estabelecem seus juízos umas sobre as outras a partir do que vêem, Jesus concentra seu olhar naquilo que os olhos não podem contemplar. Seu foco é o coração, onde nascem todas as ações humanas. Ao contrário da mentalidade predominante, Jesus olhou para aquela mulher e viu nela alguém carente, que buscava nos homens com quem se relacionava uma forma de suprir uma demanda de afeto e provisão. Ao invés de vê-la como uma libertina, Jesus a viu como alguém dominada por uma sede tal que já não era capaz de discernir com clareza suas reais necessidades. Por este motivo, ele olha para ela e diz: “Se conheceras quem te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (João 4:10). Na visão de Jesus, o problema daquela mulher não era “falta de vergonha” ou de caráter, mas sede de sentir-se amada e acolhida, social e espiritualmente.

Fico pensando no modo como muitas vezes agimos. À maneira dos contemporâneos de Jesus, também nos deixamos conduzir pelos mesmos critérios e rejeitamos as pessoas antes mesmos de chegarmos a conhecê-las. Julgamos, tiramos conclusões apressadas, repudiamos e discriminamos quando poderíamos ser usados por Deus para oferecer água às pessoas se compreendêssemos a sede que as movem. Somos, porém, tão reféns do óbvio, do aparente, que negligenciamos o essencial. Mais ainda: temos tanta dificuldade de enxergar que negligenciamos nossa própria sede. Assim, temos água para beber e agimos como se não a tivéssemos ou como se não precisássemos dela, pois estamos todo tempo ocupados correndo atrás das mesmas coisas que condenamos na busca alheia. Tentamos saciar nossa sede de água viva consumindo produtos diversos, estilos de vida, relacionamentos, viagens, diplomas, etc. Nossa miopia é aguda, especialmente quando somos o objeto de nosso próprio olhar.

Que Deus nos ilumine os olhos e ensine a discernir entre lambretas e sacos de areia.

A oração mais sábia

Não precisamos tanto de descanso quanto de renovação

Não preciso tanto de descanso, mas de renovação

 

“[...] os que esperam no SENHOR renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40:31).

 

O ritmo de nossas vidas é extremamente acelerado. As 24 horas do dia nunca são suficientes para tudo o que precisamos fazer. São muitas as camisas que temos de vestir. No meu caso, a de pai, marido, pastor, provedor, conselheiro, mestre, líder, capelão, amigo, filho, discípulo, pregador, administrador, etc. Todas estas demandas requerem enorme energia e uma alta capacidade de fazer malabarismos. (Sinto-me, muitas vezes, como aqueles meninos  jogando limões nos sinais de trânsito preocupado em não deixar nenhum deles cair).

Quando chega o fim do dia – ou da semana, ou do mês – o cansaço é brutal. Fomos além de nosso limite e, ainda assim, muita coisa ficou por ser feita. Vencido pela fadiga, nosso corpo se rende à preguiça e ao sono. A única oração que sabemos fazer é: eu preciso descansar. Mas mesmo para isto, o tempo não parece ser suficiente. Comentando sobre um livro que leu, um amigo me disse, dias atrás: nosso problema, na realidade, não é falta de tempo, mas falta de energia. Estamos exaustos não porque nos falte tempo para tudo o que precisamos fazer, mas porque concentramos nosso tempo nas atividades que mais nos roubam energia e deixamos de fazer justamente aquelas coisas que tem o poder de renovar a nossa energia.

Imediatamente, me lembrei do Pastor Pablo, missionário de nossa igreja no Peru. No ano passado, quando esteve na Igreja Betânia, ele relatou que após cinco anos no campo missionário servindo a Deus com grave escassez de recursos humanos e materiais, seu coração estava desanimado, seu corpo exausto e sua mente fixa na idéia de parar. Ele estava a ponto de desistir de tudo. Incessantemente, repetia para Deus: “Da-me um tempo de descanso”. Até que Deus falou-lhe ao coração: “Pablo, meu filho, você não precisa de descanso, você precisa de um renovo. Eu vou te renovar”.

Lembrei-me destas palavras como se Deus as tivesse dizendo para mim. E logo constatei que minhas orações estavam equivocadas. Mais sábio do que orar por descanso é orar por renovação. Até por que os limões continuam no ar e não podemos permitir que caiam ao chão. Por isto, tenho buscado este aprendizado. Quero orar desta forma a cada dia: “Renova-me, Senhor; renova as minhas energias. E ajuda-me a discernir as minhas reais prioridades. Livra-me de gastar meu tempo apenas com o que rouba as minhas forças e me permite-me não negligenciar aquelas pequenas coisas sagradas que me enchem a alma e trazem alegria”.

Em meio à loucura desta nossa vida pós-moderna, urbana, e hiper-acelarada, orar por renovação é, não apenas uma necessidade, mas também um ato de lucidez e de sabedoria. De outra parte, é igualmente importante passar em revista nossos hábitos e rotinas. E então prosseguir.

Que Deus nos renove hoje e a cada dia.

“Tenho sede!”

Nossa felicidade está ligada a um nova vocação

Nossa felicidade está ligada a um nova vocação

O indivíduo contemporâneo encontra-se perplexo. O momento histórico em que se encontra, por tratar-se de um tempo de profundas, sucessivas e aceleradas transformações, o faz sentir-se assim. Com efeito, a passagem de um momento cultural para outro – sobretudo esta passagem de um modelo de sociedade moderna, rigidamente assentada sobre a razão e de contornos claramente definidos, para este outro modelo ainda em emergência, pós-moderno, de características fluídas e contornos incertos – produz em todos nós um certo mal-estar, um misto de insegurança e ansiedade com uma sensação de vertigem inebriante e permanente.

Neste turbilhão de sensações e incertezas, o indivíduo contemporâneo fica mesmo sem saber para onde ir – ou a quem recorrer. Por este motivo, à semelhança de Forrest Gump, corre de um lado para outro sem realmente estar indo para lugar nenhum. Às voltas com esta correria frenética, ele sente-se vazio, solitário, deprimido, e muito cansado.

A passagem do Evangelho de João 19:28-30, relata as dores e os sentimentos ambíguos dos últimos instantes de Jesus na cruz do Calvário. Ao contrário de nós, indivíduos pós-modernos atônitos e desnorteados, Jesus está ciente de seu destino e do porquê dele, mas, exatamente como a gente, ele se encontra cansado; e sedendo: “Tenho sede!” – exclama exausto (v.28).

Não nos deixemos enganar: a sede de Jesus na cruz é sede de água. Não se trata de uma figura de linguagem, mas de uma necessidade vital. É sede de quem por 3 anos andou de um lugar para o outro fazendo o bem, se entregando às pessoas, curando enfermos, multiplicando pães, transformando água em vinho, lidando com oposições e intrigas, discipulando os futuros apóstolos, pregando o Evangelho do Reino e convidando as pessoas à conversão. Mas se é certo, por um lado, que sua sede ali era sede de água para beber, de outra parte, é igualmente seguro que sua sede não se restringia a isto. Pois o Jesus que vemos na cruz é certamente alguém vulnerável. É alguém que após três anos de entrega altruísta e apaixonada pelos demais, se encontra agora sozinho, negado por Pedro, traído pelo beijo de Judas, rejeitado pela multidão, e abandonado por Deus: “Deus meu, por que me desamparaste?”. A sede de Jesus na cruz é sede também de sentir-se amado, acolhido…

Paradoxalmente, logo antes de expirar pela última vez, Jesus balbucia duas pequenas palavras que nos permitem pensar que, em meio a todo aquele horror, ele foi capaz de viver a experiência de uma certa realização, de uma quase felicidade: “Está consumado” (v.30). Somente alguém que tem consciência de ter feito a sua parte, de ter cumprido a tarefa que lhe havia sido designada, entrega o seu espírito e se rende, sem receio, aos braços da morte .

Estas palavras de Jesus e os sentimentos que elas carregam convidam-nos a pensar que talvez a nossa porção nesta vida seja também o ser fiel, mais do que o ser feliz – ao menos nos termos em que a felicidade é hoje entendida; esta felicidade que é alcançada pela via do consumo, do prazer ilimitado, do sucesso e da exaltação do próprio ego. Se Jesus ali naquela cruz experimentou algum instante de felicidade, esta foi a felicidade de ter sido fiel a Deus e não a ter ficado rico, de ter aproveitado a vida ao máximo, de ter alcançado o sucesso e a admiração das outras pessoas. Obviamente, isto não significa que Deus não queira a nossa felicidade, mas significa tão somente que a felicidade que ele tem para nós é de outro tipo.

Na seqüência da narrativa evangélica, Jesus morre, ressuscita, se encontra com os discípulos e vai atrás de Pedro que, diante da crucificação, tinha resolvido “retomar” a vida de onde ela havia parado - pois o sonho que nutria no coração não se concretizara: o reino de Deus não viera, Jesus não fora coroado, etc. Pedro, de certo modo, trazia no coração um ideal de felicidade diferente do que Deus tinha para ele. Mas quando, finalmente, Jesus o encontrou, tudo se esclareceu. Três vezes Jesus perguntou a Pedro ao redor de uma fogueira: “Tu me amas?”. Em vista da resposta afirmativa do discípulo, replicou: “Pastoreia então as minhas ovelhas”. Ora, quem como Pedro, diz sim a pergunta de Jesus recebe uma nova vocação: a de ser pastor. Este é o ideal de felicidade que Deus tinha para Pedro e tem para nós: que nos pastoreemos mutuamente, que aprendamos a cuidar uns dos outros. Se formos fieis nisto, saciaremos finalmente a nossa sede de felicidade e encontraremos sentido para as nossas vidas.

Resta, porém, uma pergunta: se a felicidade que Deus tem para nós é outra, como a gente se desprende deste ideal de felicidade narcisista dominante em nossos dias? Como saímos de sob o jugo de termos de “ser felizes” à maneira pós-moderna para abraçarmos o projeto de felicidade que Deus tem para cada um de nós? Bem, é provável que haja mais de um caminho a se trilhar para se alcançar este objetivo. Eu, porém, conheço apenas um. Nas palavras do próprio Cristo de Nazaré: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24).

Vocação

Deus tem te chamado para quê? E para onde?

Deus tem te chamado para quê? E para onde?

Vocação é um chamado. Ou melhor, dois. Um que vem de dentro, que habita a nossa alma, e um outro que vem de fora e pertence ao domínio do mundo. Aquele primeiro é um chamado de amor, este último, de responsabilidade. Aquele, um chamado para ser. Este, para servir. Ambos nascem em Deus, mas concretizam-se no tempo e na História.

O simples recurso à etimologia da palavra nos ajuda muito: voc-ação. Do latim “voc-” (variação de “vox”, de onde vem “voz”) e “ação” (ato ou efeito de agir, movimento, atitude). Vocação, portanto, quer dizer: voz que chama, que interpela, que convida à ação. Daí que vocação seja sempre um “chamado a ser-para”, isto é, uma voz que articula em nível profundo identidade e missão, ser e realizar. Dois exemplos: o primeiro, em nível pessoal-profissional e o segundo, em nível eclesial-comunitário. Pois é certo que o conceito se aplica em ambos os domínios.

Pensemos na figura de um jovem que sonha tornar-se um advogado. Ele é alguém em cujo coração arde a chama da justiça. Sua bandeira é a da vida e da retidão. De Deus, recebeu o dom do discernimento. É alguém capaz de expressar-se com clareza, de argumentar e persuadir. Cursou até uma faculdade de Direito. Todo esse potencial, no entanto, não faz dele um advogado (procurador da causa do outro). Pois para vir a sê-lo, precisará dar um passo para fora de si e se colocar a serviço de seu semelhante no interesse da justiça. E assim, quanto mais o jovem for capaz de sair si em direção àqueles que necessitam ser defendidos e ter seu direito assegurado, tanto mais advogado ele será.

Em nível eclesial, devemos considerar que nossa vocação é ser Igreja de Jesus Cristo para o mundo de hoje. Isso significa que os dons e talentos, a paz e a alegria, a força e a unção que do Santo Espírito recebemos são necessariamente para serem usados no mundo e a serviço do mundo, hoje, para a glória de Deus. Pois assim como para ser advogado não basta possuir um diploma ou ter as habilidades que a função requer, para ser Igreja de Jesus Cristo, não basta possuir dons espirituais ou estar organizado em torno de uma fé comum. Para além disso (mas não sem isso), ser Igreja exige também contato com o mundo, conhecimento de seus suspiros e necessidades e, afinal, o estender voluntário de nossas mãos como serviço e culto ao próprio Cristo (Mt 25,31-46). E assim, quanto mais a igreja saí de si e se abre para o mundo com suas ambigüidades e contradições, tanto mais Igreja de Jesus Cristo ela é.

Ora, o que acima foi dito pode ser colocado num simples esquema: potencialidade + necessidade = vocação. Quer dizer: do encontro do chamado ao ser que vem de dentro – nossos dons e talentos inatos – com o chamado ao serviço que vem de fora – os desafios e as urgências do contexto em que estamos inseridos – é que emerge a nossa vocação (quer como indivíduo, quer como igreja). Tal encontro, porém, ocorre na medida em que nos abrimos à ação do Espírito Santo em nossas vidas. Ele, com efeito, é quem nos ensina a ouvir e a unir poderosamente essas duas vozes. Aqui parece oportuno lembrar a intuição do grande teólogo suíço Karl Barth que dizia que o mesmo Espírito que fala conosco por meio da leitura das Escrituras, fala conosco também por meio da leitura dos jornais.

Importa assinalar, à guisa de conclusão, que mais fundamental do que possuir uma vocação é deixar-se possuir por ela. Pois por aí passa o caminho de nossa felicidade e realização como Igreja de Jesus Cristo e como seres humanos no mundo.

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